quarta-feira, 24 de setembro de 2008

RAQUEL ILLESCAS BUENO: Professora e autora de textos literários

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Raquel é uma jovem professora de Literatura na Universidade Federal do Paraná, trajetória que a levou para as Letras em troca de uma possível carreira jurídica, pois formou-se em Direito na UFPR. É mestre em Literatura na Universidade de São Paulo, com trabalho sobre Mário de Andrade, principalmente a análise de contos do grande literato e músico, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em 1922. O seu doutorado, também na Universidade de São Paulo, deu-lhe a oportunidade de apresentar um importante estudo sobre o romance de Carlos Heitor Cony. Disse importante, porque é um trabalho bastante citado, inclusive pelo próprio Cony, que freqüentemente remete seus estudiosos ou entrevistadores a esse trabalho. A entrevista que ela fez com o autor e anexou à sua Tese é um documento que deveria estar publicado. É pena que esse trabalho e a Tese não estejam ainda ao dispor do público leitor e estudioso de Literatura. Além de suas muitas publicações na área da Literatura Brasileira e da Teoria da Literatura até mesmo para cumprir suas tarefas e seus compromissos com a Universidade e com seus alunos da graduação e da pós-graduação, Raquel tem produzido algum texto literário. Muito criativa, é pena que ainda não tenha publicado obra literária, aquela que dá alegria a seu autor e o completa como intelectual. Do que se conhece por estar na sua página do Lattes, a ode ao e-mail se destaca pela atualidade da temática e pela linguagem perfeitamente adequada ao tema e à modernidade do texto. É aguardar para ver quando teremos outros como esse, para satisfazer a nossa vontade de ler bons textos.

ode ao e-mail

(Raquel Illescas Bueno)

e-mail é carta de quem brinca de esconder

quer ver o escaninho vazio, mas tem o coração cheio

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às vezes se manda pra longe, às vezes pra muito perto

serve pra mandar embora

pra desejar boa viagem e pra trazer boas-vindas

e-mail mata saudades mais rápido que outro correio

existe pra quem tem pressa de saber se o outro é

ou queria sê-lo; se o outro veio

ou viria vê-lo,

sentir, falar, ouvir logo uma resposta

.

às vezes - inevitável ? - e-mail é posta-restante,

só acontece quando a gente se esquece de abrir a caixa

quando a gente não se liga em se corresponder

quando a gente não se liga em se abrir

quando a gente não se liga

.

e-mail não tem carteiro nem latido de cachorro nem campainha

pra avisar sua chegada

e-mail é discreto

tanto que nunca sabemos de segredos violados ou de senhas reveladas

tantos e tantas...

instruções de uso:

"a discrição do e-mail não garante o sigilo da mensagem"

.

e-mail não garante nada

não quer ser fidúcia nem hipoteca de comunicação continuada

e-mail não quer ser contrato nem gerar direitos

e-mail é apenas mais um meio, "media"

(mass?)

.

pra que seja coletivo, basta clicar mais destinos

é como espalhar filipetas por todo o bairro

anunciando o sabor novo

da pizza - delícia - que queremos compartir

"delivery!", o entregador já na porta

nas noites frias de inverno

.

(lê-se acompanhado de um bom vinho

como merecem os encontros e reencontros prazerosos)

.

nessas noites a gente fala e fala sem ter nada pra dizer

igualzinho quando a gente escreve e-mail

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porque e-mail é como beijo: não precisa de assunto

ele é meio vagabundo: erra, erra, e chega junto

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(Raquel Illescas Bueno é professora de Literatura Brasileira e Teoria da Literatura na Universidade Federal do Paraná. - e-mail: raquel@coruja.humanas.ufpr.br).

9 comentários:

Raquel Illescas Bueno disse...

Obrigada, prof. Jayme! :-)))

Jayme Ferreira Bueno disse...

Como se diz em Portugal, você estava por merecer mais do que uma homenagem. É também um incentivo para novas produções poéticas.

M. Célia disse...

Olá Raquel

Bela "Ode ao Email", poética, atual e lúdica, tal como devem ser os prazerosos artifícios literários. Parafraseando R. Barthes, também creio no literário enquanto "trapaça salutar", que retira a Língua dos domínios arbitrários do poder.
M.Célia

Fernando Gebra disse...

Prezado Professor Jayme,
Pena que não fui seu aluno, pois certamente teria aprendido muito com o senhor. No entanto, tive o prazer da convivência literária com a Raquel, minha orientadora de Doutorado, responsável por eu mariodeandradiar muito por essas bandas curitibanas. Estímulo constante nos meus estudos acadêmicos, a Raquel é uma verdadeira brincalhona com as palavras. É preciso cuidar do que fala na frente dela, pois ela cria efeitos poéticos e humorísticos, bem do jeitinho da crônica de que ela tanto gosta. Exemplo: Uma feita eu disse a ela que tinha acabado o tempo da camisolinha. Ela acrescentou: "Ainda bem mesmo, já era tempo, você também deve ter deixado as calças curtas do Nelson Rodrigues e agora já usa calças longas". Enfim, poeta Raquel, moleca peralta das letras, você cativa com sua ode ao e-mail, você faz literatura tanto numa simples conversa como numa aula de pós-graduação. Escreva mais. Urge escrever, brincar você já sabe, agora ponha seus jogos poéticos no papel. Abraços a você e ao prof. Jayme. Desse simples admirador.

Mara Regina disse...

Olá Sr. Jayme e Raquel,
Os textos que me acompanham têm sido mais científicos, técnicos, embora ainda tenha muito prazer em leitura descompromissada.
Ao me deparar com "Ode ao Email", senti saudades de literatura não médica...
Fiquei imaginando o que ia no coração da Raquel quando escreveu o poema, só me veio à mente uma cena com muitos amigos rs.
Espero que produza mais, e ainda melhor !
Forte abraço.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Fernando
Realmente foi uma pena que não tivéssemos nos encontrado em sala de aula, pois pelo jeito você gosta bastante de literatura, e isso é uma paixão para mim.
Ao você gostar das aulas e da própria Raquel, para mim é uma grande satisfação. Ao gostar dela, indiretamente gosta de mim, o pai.
Um grande abraço e obrigado.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Mara Regina,
Obrigado por ter dedicado tempo na leitura dos textos do Blog.
É, a profissão realmente nos arrasta a textos correlatos. Mas sempre deve sobrar um tempinho para as coisas mais descompromissadas, como um texto literário, os contos, por exemplo, que são mais curtos. Os poemas são outra alternativa, mas precisa gostar de poesia.
Você deve saber, que, ultimamente, muitos médicos têm se dedicado ao estudo de Letras e de Filosofia. Saiu, inclusive, um artigo sobre o tema. Médicos, que, para quebrar um pouco do tecnicismo, vçao cursar Letras ou Filosofia. A Raquel já orientou Médico (Dr. Jair Ramos, Neuro. Eu também lecionei para médicos, mas era no mestrado de educação da pUCPR.
Obrigado, foi uma honra o seu comentário.

Renato disse...

Acho que esse ano vai ser maravilhoso! Eu ja havia estudado com a Raquel, mas na correria de uma faculdade não conhecia seu lado poético. Adorei a ode e agora estava procurando material para tentar um mestrado sobre viagens literárias e a Raquel é uma ótima fonte. Com essa oportunidade vou torcer pra voltar logo às aulas.
Obrigado Jayme obrigado Raquel.

Tania Anjos disse...

Belo texto em prosa poética!

Parabéns, Raquel!

Já inaugurou a página "Literatura Contemporânea" no blog "Poetas Vivos".

Abraços, Prof. Jayme!