sábado, 7 de fevereiro de 2009

CRISTIANE RODRIGUES DE SOUZA

A poeta Cristiane, que vive em Ribeirão Preto, é nascida em Adamantina, também no estado de São Paulo. Cresceu na pequena Irapuru, outra cidade paulista. Bastante jovem, é mestre em Letras pela UNESP de Araraquara e atualmente doutoranda pela USP. Com formação também em música tem estudado a poesia de Mário de Andrade em relação com a crítica de música desse autor.
Em seu livro Clã do jabuti: uma partitura de palavras. (São Paulo: Annablume, 2006), Cristiane faz, segundo comentário contido na própria obra, “Uma análise crítica da obra poética de Mário de Andrade, focalizando o livro Clã do Jabuti (1927), em que se evidencia a discussão de conceitos musicais em meio à escrita dos versos, demonstrando a construção de um projeto de escrita poética que, embora se arme em muitas faces, encontra na musicalidade a síntese maior”.
Em parecer sobre o estudo da jovem autora, diz a professora e crítica literária, também estudiosa de Mário de Andrade, Laura Beatriz Fonseca de Almeida: “O livro de Cristiane Rodrigues de Souza - Clã do Jabuti: uma partitura de palavras - é uma contribuição valiosa para os estudos críticos da obra poética de Mário de Andrade. As faces plurais do sujeito poético instigaram a leitora sensível a uma pesquisa analítica dos versos do poeta com objetivo maior de apreender a voz musical e folclórica do sujeito lírico, síntese da pluralidade das vozes que ressoa na voz moderna do sujeito lírico marioandradino”.
Eu tive a felicidade de a conhecer, apresentada por minha filha Raquel, na Universidade da Madeira, em Funchal. Nós três apresentamos trabalhos no IX Congresso Internacional de Lusitanistas, em agosto de 2008. Por essa breve convivência e grande admiração, não resisti a fazer comentário sobre cada poema. Os poemas devem ser lidos. Os comentários são dispensáveis.
Agora, a voz poética de Cristiane Rodrigues de Souza:

POEMA
Estas minhas asas leves, o respirar curto.
O Sol claro claro em meus olhos
e a música inconstante escondida...

É que vim de Irapuru, minha Itabira.


As“asas leves” e o “respirar curto” anunciam a leveza e a brevidade do texto. Mas há nele espaço suficiente para o Sol, para muita claridade e para uma música que sempre se esconde em sua variável forma de aparecer. É o modo de ser de alguém que deseja buscar no passado de uma cidadezinha a complexidade da poesia de um retrato na parede, a sua Itabira. É o existencial que está em Drummond e está também em Cristiane Rodrigues de Souza.

NA MORADA DO SUBLIME
No pico mais alto da Madeira,
falei com pedras pálidas e com florezinhas rasteiras amarelas.
Olhei o vento e o seu verde esmaecido,
fiquei sem ar no meio do ar livre do Atlântico
e me comovi com a queda perpétua dos abismos desejosos do alto.

No silêncio amplo dos precipícios infindáveis do pico mais alto da Madeira,
ouvi a música surda feita de notas nascidas nos infernos de seus fundos.
E sobrevivi.
Agora pago a pena eterna por ter fitado os olhos incandescentes do Sublime
e ter ouvido o seu recado indecifrável,
sem nunca nunca ser capaz de redizê-lo.

Mas no pico mais alto da Madeira,
respondi à música dos Infindáveis
com meu recado também surdo também inconcebível.
E o Sublime está lá até agora nos seus socavões tentando decifrá-lo.
Porque ele também sobreviveu aos meus olhos.

Os poemas começam pelo título. Este é um exemplo claro. É só observar a ambigüidade expressa em “na morada do sublime”: o Sublime que habita os vales profundos da Madeira (“E o Sublime está lá até agora nos seus socavões...”); o enamoramento de alguém pelo Sublime (“Agora pago a pena eterna por ter fitado os olhos incandescentes do Sublime”).
O poema ilustra bem a poesia de tendência metafísica. Lembra bastante os poemas de Teixeira de Pascoais em suas alusões aos altos picos do Marão. E a presença da música eleva mais o sentido de transcendentalidade.
O discurso poético da autora dialoga em conversa muda e, portanto, insondável, inaudível, com o Sublime. Como num ato de vingança por não ter decifrado a mensagem do Sublime vindo dos grotões, ela, do pico mais alto, desafia o Sublime lá nas lapas profundas a decifrarem o seu recado também insondável. É considerável que a poetisa se alteie frente ao Sublime, porque ela se coloca mais alta e, portanto, mais importante. Ela é criadora de poesia.

PRECE À ÁRVORE DO DRAGOEIRO
(Para Raquel Illescas Bueno)

eu pedi aquela flor
eu pedi eu pedi
aquela flor!

como quem dá comida a pássaros
a árvore desprendeu-se dela
e ma ofertou

deu-me a flor como quem faz poesia sem querer:
um movimento de alma trepidou de leve seu tronco
e desgalhou lirismo sobre as visitantes

sorri de volta e passei
como antes tantos outros milhares pousados no minuto de sua sombra

A árvore existe de verdade no pátio do Restaurante O Dragoeiro, que mira o mar em frente e os edifícios ao alto, na cidade de Funchal. A Raquel também existe e é sua colega de USP e de viagem à Ilha da Madeira. Só o que não existia ainda era o poema de Cristiane. Agora tudo se completa. Duas jovens, uma flor, o sotaque e o estilo lusitanos da árvore que, para a poetisa “ma ofertou” a flor. Uma flor, puro lirismo, e que é autêntica poesia.
A transitoriedade daquele encontro é imposta pelo convívio efêmero, porque nós passamos por tantos e são tantos que passam por nós. Só a poesia permanece.

9 comentários:

raquel disse...

Fico muito contente de ver on line os poemas tão sensíveis da Cristiane. Torço pra que esse seja um momento propício, e que, entre tese, teatro, vida cotidiana ela encontre tempoespaço para novas criações.

Cristiane Rodrigues disse...

Muito obrigada, professor Jayme! Muito obrigada, Raquel!
Os comentários sobre os poemas são lindos! Fico muito feliz e comovida ao lê-los.
Abraços da sempre amiga
Cristiane

Jayme Ferreira Bueno disse...

Obrigado, raquel, pelo comentário.
Pelo pouco que conheço da Cristiane, ela me parece muito organizada e sem dúvida dará conta de todas as suas atividades, agora acrescidas de aulas na SEMAR.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Cristiane, não precisa agradecer. Você e a sua poesia merecem um estudo mais aprofundado e não os pequenos comentários que fiz.
Parabéns pelos poemas e pelo êxito sempre crescente.

disse...

Um espaço e vidas se entrelaçam.
Leveza...

Jayme Ferreira Bueno disse...

Oi, Rô
que bom que continua acessando o Blog.
Obrigado

Cristiane Rodrigues disse...

Olá, Rô
Obrigada pelo comentário!

Naia disse...

oi Cris

Fiquei muito feliz ao encontrar seus textos, parabéns por eles, são sensíveis e traduzem muito de sua leveza.
um abraço
Naiá

Cristiane Rodrigues disse...

Obrigada, Naiá!
Adorei saber que você leu os poemas!
Beijos!