
Aos 16 anos publicou seu primeiro livro de poesias, Dentro da noite. Formou-se em Direito no Rio de Janeiro. Em São Paulo, foi um dos líderes da Semana de Arte Moderna de 1922, em que participou ativamente dos grupos "Verde Amarelo" e "Anta", ao lado de Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Raul Bopp, Cândido Mota Filho e outros. É a denominada fase nacionalista.
Como jornalista, colaborou nos mais importantes jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Fundou algumas revistas literárias: Novíssima, Planalto (1930) e Invenção (1962).
Inicialmente, pertenceu ao Integralismo chefiado por Plínio Salgado, porém, mais tarde, abandona essa tendência e, com Menotti del Picchia e Mota Filho, inicia o movimento político Bandeira, exatamente para contrapor-se ao Integralismo. O movimento lutava "Por uma democracia social brasileira, contra as ideologias dissolventes e exóticas".
Iniciou-se como poeta lírico-sentimental em sua primeira obra, ainda sobre a influência do Parnasianismo e do Simbolismo. Com A flauta de Pã (1917) já adota uma estética que se aproxima dos ideais modernistas de 1922. Foi modernista ortodoxo até o início da década de 40. Suas principais obras dessa fase são: Vamos caçar papagaios (1926), Borrões de verde e amarelo (1927) e Martim Cererê (1928), obras que estão entre as mais representativas do Modernismo.
Na década de 40, com O sangue das horas (1943), inicia uma outra fase bem diferente das anteriores. Passa do imagismo cromático ao lirismo introspectivo-filosófico. Esta nova tendência se acentua em Um dia depois do outro (1947). Esta obra é considerada o marco divisório da sua carreira literária.
Como homem e artista que costumava acompanhar de perto a evolução da política e das artes, Cassiano Ricardo seguiu de perto as experiências do Concretismo e do Praxismo. Nestes movimentos produziu obras poéticas de vanguarda nas décadas de 50 e 60. A sua obra mais representativa do Experimentalismo é Jeremias sem-chorar, de 1964. Nela, registra-se o experimentalismo de um poeta que percorreu um longo caminho na poesia brasileira e que merece lugar de destaque na literatura brasileira.
Os sonetos da primeira fase de sua poesia, como os exemplos abaixo, vão sendo substituídos por poemas livres integrados a uma nova estética:
QUADRO ANTIGO
Por certo que amo as coisas, os objetos,
que me acompanham, neste fim de viagem.
São elas, coisas, minhas cúmplices, à hora
em que, ó lua, me contas teus segredos.
São eles, os objetos, os meus símbolos,
para uma última fotomontagem.
Mas, como são — coisas e objetos — tristes,
por já não serem mais os meus brinquedos.
Em vão o calor físico os dilata.
Em vão meu pensamento lhes dilui
o acre contorno, em proustiana sondagem.
Só, contra o sol, a sombra deles flui!
no chão, na mesa, ou — colorida imagem —
no cristal onde nunca sou quem fui.
FICARAM-ME AS PENAS
O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.
Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.
A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!
Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.
PECADO ORIGINAL
O dia nos espia... novamente.
Mas, ó incrível morena de olhar verde,
fecha os teus olhos pra fingir que é noite.
E teremos a noite, duas, três vezes,
quantas vezes fecharmos nossos olhos
na quentura de um beijo. Porque a noite
é uma pequena invenção de nós dois...
Há um momento de treva em cada beijo
e uma risada matinal depois,
do dia, debruçado na jane1a,
que nos espia, e quer saber de tudo
o que se passa agora entre nós dois.
Fecha os olhos de novo, e eu te darei
a noite que ainda mora atrás do dia ...
Da fase nacionalista do Modernismo, temos este poema integrado a um modo de viver do interior do Brasil. O imigrante que chegara para repor a mão-de-obra escrava foi um dos temas que Cassiano Ricardo adotou para ilustrar o seu amor pelo país, que o poeta retrata com muito conhecimento e vivência na labuta das plantações do interior paulista:
A FILHA DO IMIGRANTE
Eu fui buscar maracujás e vi no mato a loura filha
do imigrante.
(Os gafanhotos de esmeralda com pijamas amarelos ou vermelhos surpreendidos por meu passo davam saltos sobre a grama em trampolins feitos de folha.
E como bichos agarrava-se ao meu corpo uma porção
de carrapichos.) .
Eu fui buscar maracujás e vi no mato a loura filha
do imigrante.
Sua figura me ficou quente de sol naquele dia todo
branco, na moldura do barranco, dentre as árvores
festivas com cabelos de fogueira e com pestanas tão torradas como longas sempre-vivas...
Eu fui buscar maracujás e vi no mato a loura filha
do imigrante.
As bananeiras eram pássaros gigantes de asas verdes
tatalantes que pousavam pela grata em procissão e conservavam a asa aberta e o bico rubro em coração
a levantar no vôo imenso qualquer coisa que ficara
sobre o chão! .
E então
uma dourada mamangava
ferrotoou-me o coração...
É interessante comparar os dois poemas seguintes, ambos com o mesmo título, LADAINHA. O primeiro é da fase nacionalista do Modernismo; o outro, do Experimentalismo dos anos 60:
LADAINHA
Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome de Ilha de Vera-Cruz.
Ilha cheia de graça
Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz.
Ilha verde onde havia
mulheres morenas e nuas
anhangás a sonhar com histórias de luas
e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.
Depois mudaram-lhe o nome
pra Terra de Santa Cruz.
Terra cheia de graça
Terra cheia de pássaros
Terra cheia de luz.
A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga
e onças ruivas deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.
Mas como houvesse, em abundância,
certa madeira cor de sangue cor de brasa
e como o fogo da manhã selvagem
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,
e como a Terra fosse de árvores vermelhas
e se houvesse mostrado assaz gentil,
deram-lhe o nome de Brasil.
Brasil cheio de graça
Brasil cheio de pássaros
Brasil cheio de luz.
LADAINHA
Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.
Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?
Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.
Ó máquina, orai por nós.
Um dos poemas mais bem acabados e, por isso mesmo, representativo da estética de Vanguarda, Poesia Concreta, Concretismo, ou Experimentalismo, como quer que se denomine, é sem dúvida o poema Rotação. Nele, Cassiano Ricardo demonstra ter assimilado a nova fase da atual poesia brasileira:
ROTAÇÃO
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova espera
me ensina
de novo a esperança
na esfera
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
]a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
na esfera
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
na esfera