sexta-feira, 30 de outubro de 2009

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 2009 - HERTA MÜLLER



Herta Müller - Prêmio Nobel de Literatura 2009

1. O Prêmio Nobel
O Prêmio Nobel foi instituído em 1895 pelo industrial sueco Alfred Nobel (1833-1896). A fortuna adquirida com a patente da dinamite foi destinada à criação de uma fundação e de um prêmio. Os prêmios concedidos oficialmente desde 1901 são cinco: Medicina, Física, Química, Literatura e da Paz. O de Economia foi instituído em 1968 pelo Banco Central da Suécia com recursos próprios. Este prêmio, que começou a ser atribuído em 1969, só como homenagem pode ser chamado de Prêmio Nobel.
O Nobel, segundo alguns críticos, tem assumido um caráter político. É o caso do Prêmio de Economia. A Fundação Humboldt, incumbida de distribuí-lo, tem concedido o Prêmio sistematicamente a economistas humboldtianos. O presidente do Comitê de Outorga procura abrandar a situação: “as tendências políticas dos ganhadores do prêmio são muito variadas. Alguns são claramente conservadores ou de direita, enquanto que outros são obviamente de esquerda, ou pelo menos do centro do espectro político”.
No caso específico da concessão do Prêmio de Literatura deste ano de 2009 a Herta Müller, a Academia justificou com argumento literário e ao mesmo tempo político. A obra: “com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, descreve a paisagem dos despos­suídos”.
Lya Luft, tradutora da versão portuguesa de Heute wär ich mir lieber nicht begegnet, declara: “Prêmios de literatura são em geral muito estranhos. Muitos autores premiados não são interessantes, nem muito bons, e a gente não sabe por que ganha”.
Herta Müller assumiu o número107 na lista dos ganhadores do Nobel de Literatura. Ela é a 12.ª mulher a receber o Prêmio.
2. Herta Müller, escritora romeno-alemã
Nasceu em 1953, em Nitzkydorf, vilarejo de Banat, na Romênia. Aí vivia um grande número de imigrantes alemães, os Donauschwaben, “suábios do Danúbio” (no Paraná se encontra importante colônia de imigrantes suábios, a de Entre Rios). Na época do Nazismo, romenos de ascendência alemã foram deportados para campos de trabalhos forçados na União Soviética, inclusive a mãe de Herta Muller. O livro Atemschaukel (“Ritmo da respiração”) retrata o exílio desses romenos sob o regime comunista da então URSS.
Entre os anos de 1972 e 1976, Herta Müller estudou filologia germânica e romanística na Universidade de Timisoara, capital de Banat. Nessa época, ingressou no Aktions-gruppeBanat, que reunia intelectuais contrários ao regime de Ceausescu e que lutavam pela liberdade de ex­pressão. Depois de 1976, passou a trabalhar em uma fábrica de máquinas. Foi despedida por não ter aceito colaborar com policia secreta do regime romeno. Assumiu o magistério, mas foi impedida de exercer a função. Essas experiências com o regime comunista da Romênia vão-se tornar tema de suas obras. Os livros de Herta Müller são como um ajuste de contas com esse passado de sofrimento.
O primeiro livro de Herta Müller, Niederung (Depressões - terras baixas) são contos que focalizam a vida em pequeno vilarejo com o cenário de repressão que aí se vivia. A obra foi censurada. Em 1984, o livro foi contrabandeado para a Alemanha, onde alcançou grande sucesso. Nesse ano de 1984, lançou na Romênia Drückender Tango (Tango opressivo). A obra também se tornou proibida, e a autora foi impedida de publicar em sua própria terra. Perseguida, Herta e seu marido emigraram para a Alemanha em 1987, dois anos antes da queda de Ceausescu.
Dentre suas obras principais, além das já referidas, destacam-se: os romances Der Fuchs war damals schon der Jäger,1992 (“A raposa era o próprio o caçador”), Herztier 1994 (“Animal do coração” – Coração selvagem) e Heute wär ich mir lieber nicht begegnet,1997 (“Hoje eu não gostaria de me encontrar”). Para o Comitê do Prêmio, essas obras: “apresentam, com detalhes primorosos, um retrato da vida sob a estagnação da ditadura”. Além desses, publicou: Der Mensch ist ein groβer Fasan auf der Welt, 1986 (“O homem é um grande faisão sobre a terra”); Barfüβiger Februar, 1987 (“Fevereiro descalço”); Reisende auf einem Bein, 1989 (“Viajante em uma só perna”); Der Teufel sitzt im Spiegel, 1991 (“O diabo está no espelho”); Eine warme Kartoffel ist ein warmes Bett, 1992 (“Uma batata quente é uma cama quente”); Der Wächter nimmt seinen Kamm, 1993 (“O vigia toma – rouba - o seu pente”); In der Falle, 1996 (“Na armadilha”); Im Haarknoten wohnt eine Dame, 2000 (“No nó do cabelo – coque - vive uma senhora”); Heimat ist das, was gesprochen wird, 2001 (“Pátria é o que é falado” – é o que se fala); Der König verneigt sich und tötet, 2003 (“O rei se inclina e mata”); e Die blassen Herren mit den Mokkatassen, 2005 (“Os pálidos homens com as xícaras de cafezinho”). Publicou ainda um livro de ensaios, Hunger und Seide,1995 (“Fome e seda”).
As suas obras estão traduzidas para o inglês, espanhol, francês e sueco. A única obra em português é a tradução brasileira de Heute wär ich mir lieber nicht begegnet feita por Lya Luft e publicada pela Editora Globo, em 2004. Aqui, recebeu o título O Compromisso contra a vontade da própria tradutora. A Editora o escolheu provavelmente influenciada pelo título da tradução americana, The Appointment. É interessante notar que em francês o livro recebeu o título La Convocation, coerente com a ideia que aparece já no início da narrativa: “Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto... e que se repete ao longo da narrativa.
Lya Luft, por qualquer motivo, não deu importância ao livro que traduziu. Ao receber a notícia que Herta Müller
havia vencido o Prêmio Nobel de Literatura, reagiu como muitos: “nunca ouvi falar”. No momento da notícia, disse: “Esqueci dele. Não foi um livro particular para mim, nem nunca mais tinha ouvido falar da autora”. Alegou que o esquecimento se deveu ao fato de o livro ter saído com título diferente do que havia proposto. Acrescenta: “Na minha opinião, não era um livro importante. Era só um dos muitos que já traduzi. Confesso que nunca pensei, ‘puxa, isso ainda vai dar o Prêmio Nobel’.” Lya Luft se declara não especialista em literatura alemã. Porém, já traduziu escritores alemães, como Hermann Hesse (também suábio); Thomas Mann (Prêmio Nobel de Literatura, 1929); e Günter Grass (Prêmio Nobel de Literatura, 1999). Para estes, ela não economiza elogios, mas sobre Herta Muller e seu livro, insiste: “não tenho coisas interessantes para dizer”.

Capa da edição original com o intrigante cavalo branco

3. O literário na obra de Herta Müller
A obra de Herta Müller na sua maioria versa o tema da vida sob uma ditadura socialista. A autora retrata em seus livros as dificuldades, humilhações e sofrimentos infligidos a imigrantes e também aos próprios romenos que se colocassem contra o governo.
Na obra traduzida para o português, um oficial da polícia secreta persegue, assedia e leva à demissão uma trabalhadora de uma fábrica de roupas (a autora, como a personagem, foi empregada em uma fábrica e sofreu os mesmos problemas). A personagem com frequencia é “convocada”, para ser interrogada em datas aleatórias e sobre acusações completamente sem sentido. Essa fixação na convocação torna-se um dos motivos condutores da obra. Vários outros de seus livros falam da vida da minoria alemã sob um regime opressivo, principalmente por falta de liberdade, intolerância racial e cultural, e opressão dos homens sobre as mulheres.
Ao ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, Herta Müller declarou:
1. “Estou surpresa e ainda não consigo acreditar; neste momento não consigo dizer mais nada”.
2. “Minha escrita sempre tratou de como uma ditadura surge, como uma situação pode ocorrer em que um punhado de pessoas poderosas dominam um país e o país desaparece, e só resta um Estado”.
3. “Acho que a literatura sempre emerge de coisas que fizeram dano a alguém, e há um tipo de literatura em que os autores não escolhem seu assunto, mas lidam com um que lhes foi lançado - não sou a única escritora assim”.
No caso da edição brasileira, a tradutora assim se refere à personagem da obra: “É uma personagem bastante kafkiana, com essa coisa persecutória da pessoa que se vê envolvida em uma situação a que não sabe como chegou, sempre muito fragilizada”.


Capa da tradução brasileira com o selo de Prêmio Nobel de Literatura 2009

A leitura de fragmentos de O Compromisso nos dará a oportunidade de tecer comentários sobre aspectos da estrutura da obra:
1.
Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto.
Sou convocada cada vez com maior freqüência: às dez em ponto na quinta, às dez em ponto no sábado, na quarta ou na segunda. Como se os anos fossem uma semana, fico imaginando que depois do fim de verão logo teremos outra vez inverno.
No trajeto até o bonde os arbustos voltam a emergir através das cercas, com suas frutinhas brancas. Como botões de madrepérola costurados embaixo, talvez até terra adentro, ou como migalhas de pão. Para cabecinhas de pássaros com bicos tortos, as frutinhas são pequenas demais, mesmo assim penso em cabeças de pássaros brancos. E isso dá vertigem. Prefiro pensar em flocos de neve no capim, mas aí a gente se perde, e pensar em giz nos dá sono.
O bonde não tem horários fixos.
Penso que é ele que chega rumorejando, se não forem os choupos com suas folhas duras. Está chegando, o bonde, e hoje me levará logo. Estou decidida a deixar o velho de chapéu de palha embarcar na minha frente. Quando cheguei ele já estava na parada, sabe lá fazia quanto tempo. Não parece frágil, mas é magro como sua sombra, meio corcunda, e abatido. Não tem bunda para encher os fundilhos, nem quadris, só os joelhos marcam a calça.
Mas se no exato momento em que a porta do bonde se abrir ele resolver escarrar no chão, eu embarco antes dele. Quase todos os assentos estão livres, ele os examina com o olhar e fica de pé.
Como é que gente tão velha não fica cansada e insiste em ficar de pé mesmo quando se pode sentar. Às vezes, ouvimos os velhos dizerem: Já vamos ficar deitados tempo suficiente no cemitério. Mas nem estão pensando em morrer, e têm razão. Não há uma ordem fixa, jovens também morrem. Sempre que não preciso ficar de pé, eu me sento. Viajar sentado é como caminhar sentado. O homem me examina, é fácil perceber isso no carro vazio. Hoje estou sem vontade de conversar, senão perguntaria o que é que ele vê em mim. Nem se apercebe que seu olhar me incomoda. Lá fora passa metade da cidade, alternando-se entre árvores e casas. Dizem que gente de idade sente mais do que pessoas jovens. Talvez ele até perceba que hoje tenho na bolsa uma toalhinha de rosto e pasta de dentes, além de uma escova. Mas nada de lenço, pois não pretendo chorar.
(Início da narrativa, p. 7)
2.
Desde as três desta manhã escuto o tique-taque do despertador: convocada, convocada, convocada ... Quando dorme, Paul encosta o pé em mim, em diagonal sobre a cama, e se afasta tão depressa que, sem acordar, ele próprio se sobressalta. É um hábito seu. Meu sono passou. Fico deitada, acordada, e sei que deveria fechar os olhos para adormecer de novo. Mas não os fecho. Várias vezes desaprendi o sono e tive de aprendê-lo de novo, do jeito que podia. É um processo bem simples, ou então não funciona. Tudo dorme na madrugada, até gatos e cachorros só rondam as latas de lixo metade da noite. Quando se sabe que não se pode mesmo dormir, é mais fácil pensar em algo claro no quarto escuro do que fechar os olhos com força, em vão. Pensar em neve, em troncos de árvore bran­cos, em aposentos brancos, em muita areia ­com isso eu passei o tempo muitas vezes até o dia clarear, quando me dava vontade. Esta manhã podia ter pensado em girassóis, e fiz isso, mas não consegui esquecer que estava convocada para as dez em ponto. Como o des­pertador tiquetaqueava convocada, convocada, convocada, tive de pensar no major Albu, antes mesmo de pensar em mim e em Paul. Hoje, quando Paul se sobressaltou, eu já estava acor­dada. Quando a janela ficou de cor cinza, eu já tinha visto no teto do quarto a boca de Albu, muito grande, a ponta da língua cor-de-rosa atrás dos dentes inferiores e sua voz zombeteira:
- Não precisa ficar nervosa, estamos apenas começando.
(p. 11)
3.
Prefiro espiar pela janela da cozinha. As andorinhas atravessam um grande pedaço de céu, girando em seu círculo particular. Esta manhã elas voavam baixo, eu mastigava minha noz e, vendo-as, per­cebi que lá fora era dia. Como fui convocada, será só um dia atra­vés da vidraça, ainda que ao lado da mesa do major eu enxergue metade de uma árvore. Desde que comecei a ser convocada, ela certamente cresceu pelo menos o comprimento de um braço. No inverno é a madeira que assinala o tempo, no verão é a folhagem. A folhagem balança ou sacode a cabeça, segundo o vento. Não posso me distrair com isso. Quando Albu faz uma pergunta breve, quer resposta imediata. Perguntas breves não são as mais simples.
Eu preciso refletir.
(p. 37)
4.
Eu pensava sobre as peças que a vida prega, e no caminho de casa, voltando do sapateiro, repassei todas as maneiras de se can­sar do mundo. Primeira e melhor: Nunca ser convocado e nunca enlouquecer, como a maioria. Nunca ser convocada mas enlouque­cer, como a mulher do sapateiro e a sra. Micu ao lado da entrada lá embaixo, é a segunda. Terceira: Ser convocada e enlouquecer, como as duas mulheres no hospício, que alguém fez enlouque­cer. Ser convocado e jamais enlouquecer como Paul e eu, é a quarta maneira. Não muito boa, mas em nosso caso é ainda a melhor pos­sibilidade. Na calçada havia uma ameixa esmagada, vespas matando a fome, recém-nascidas ou velhas. Se toda uma família se acomo­da na ameixa, como será isso. O sol preferiu trocar a cidade pelos campos. A um primeiro olhar, o sol estava maquilado em cores ber­rantes para a noite, a um segundo olhar via-se que levara um tiro - vermelho como todo um canteiro de papoula, dissera o oficial de Lili. Sim, essa é a quinta possibilidade: Ser muito jovem, bela a mais não poder, nada louca, mas morta. Para morrer não é preciso chamar-se Lili. (p. 117)
5.
Antes de comprar as batatas eu fora ver os doces na mercea­ria. Nos potes de vidro amontoados vi bombons vermelhos onde se grudavam vespas mortas, depois lâminas de barbear enferruja­das, depois biscoitos quebrados, depois caixas de fósforo, depois bombons verdes grudados, também com vespas. E na prateleira as garrafas alternavam suas cores, licor de ovos amarelo, suco de gro­selha rosado, uma aguardente esverdeada, removedor de unhas claro como água. O que estava ali realmente parecia achar que era outra coisa. O vendedor dava a impressão de ser uma pessoa feita de fósforos, lâminas, bombons grudentos e biscoitos, que logo iria se desmanchar.
Cem gramas daquelas lâminas de barbear doces, eu disse.
Trate de sumir daqui, ele gritou, compre alguma coisa na farmácia que lhe devolva o juízo.
Eu tinha mesmo perdido o juízo, todas as mercadorias se confundiam em minha cabeça. Fui até a quitanda e fiquei contente porque as batatas do caixote não se transformaram em sapatos ou pedras na balança. Levei na mão dois quilos de batatas e na cabeça a irrefutabilidade das coisas. Depois fui até a farmácia e comprei o olho de vidro. Quando pararem de me convocar, quero que Paul cole nele um pequeno aro, e eu o usarei como enfeite no pes­coço, pensei então. Quando se ouve, do patamar, o elevador descendo com o men­sageiro de Albu, a voz dele soa baixinho na minha cabeça: Terça, dez em ponto, sábado, dez em ponto, quinta, dez em ponto. Quantas vezes depois de fechar a porta eu disse a Paul:
Não vou mais lá.
Paul me pegava pelo braço:
Se você não for, eles virão te apanhar aqui, e não te soltam mais.
Eu balançava a cabeça concordando.
(p. 202-203)
6.
Quando alguém sai do elevador, a porta bate como pedras no andar acima ou abaixo. E aqui no andar como ferro. Quando escuto ferro, vou até o patamar. Hoje Albu virá. Quando fui convocada pela primeira vez, ele me mostrou sua identificação. Fiquei olhando boquiaberta a foto dele, em vez de ler como alguém que esmaga seus dedos ao beijar sua mão é cha­mado pela mãe, pela mulher. Devia haver dois, três nomes, tarde demais, a identificação já fora guardada. Se Albu disser que eu devo sumir, vou lhe dizer a verdade:
Meu avô pintou aquele cavalo na casa dele, e eu esperei você aqui diante da porta do apartamento.
E se Paul sair do elevador, também direi isso, então ele não terá de mentir até eu indagar:
Onde é que você esteve.
E como tantas vezes e!e dirá:
Na minha camisa e junto de você.
A Java vermelha recém-pintada brilha. Por tédio, por acaso, o velho olha para o arbusto e inclina-se junto do ouvido de Paul. Agora Paul se levanta e me enxerga. Por que está abotoando sua camisa.
Há, há, nada de enlouquecer.
(Trecho final da obra, p. 204)
4. Comentário sobre o texto

Os trechos, embora muito parcialmente, dão-nos uma idéia de aspectos da temática, da construção e da linguagem de O Compromisso, de Herta Müller. Aí se encontram a tortura das seguidas convocações da personagem (nunca nomeada no livro) pelo regime comunista (representada pelo major Albu), numa linguagem transparente (embora se trate de uma tradução) e sem grandes novidades no modo de narrar.
Mesmo tratando-se de uma obra com tendências realistas, a autora não se restringe a mostrar-nos uma realidade apenas mimeticamente. Ela o faz de modo variado, às vezes cruel, outras vezes poeticamente. Mescla a dura vida com alguns momentos de amor ou meramente de prazer.
A sua temática é a social, mas há também o aprofundamento psicológico das personagens. O espectro de observação da narradora percorre toda a vida que a rodeia naquela cidade escura e entristecida, em que nada acontece a não ser uma massacrante rotina e o contínuo medo que acompanha a todos.
Quanto às personagens, que não são muitas no livro, variam de velhos devassos a jovens sedutoras; de trabalhadores sofridos a agentes da polícia política; de velhinhas meio loucas a doentes, feridos, bêbados. Todas elas marcadas pelas contínuas perseguições, delações, traições, dificuldades de viver em um regime opressivo. Aos poucos vão se abeirando da loucura e outras enlouquecem de vez. Mas há também a luta para não se deixarem enlouquecer.
O tom que paira sobre as pessoas e a paisagem, geralmente sufocante, mostra-se às vezes poético: um fundo de paisagem deprimente de céu cinzento, espaços sombrios, ruas escuras, fábricas opressivas, bondes lotados, mas há também lugar para amores que percorrem o livro. A narrativa em algumas passagens desperta um certo suspense, como o segredo que reveste um instigante cavalo branco, que inclusive aparece na capa da edição original.
Quanto à linguagem, varia da dureza da prosa realista, a uma linguagem de pura poesia. É transparente, sem grandes invenções, um tanto conservadora e muito pouco experimental. Assim, o texto pode ser facilmente fluido pelo leitor.
Como ao lado da atmosfera de penumbra e medo, há também um sentido de esperança, a linguagem se adequa perfeitamente a cada uma dessas situações. Por exemplo, com a chegada da primavera e o renascer das plantas e flores, que sucede a um rigoroso inverno coberto de neve, nessas passagens, a linguagem se torna poética. Com passagens líricas, a narrativa nos apresenta ambiente de amor, alguns implícitos, como aquele entre a narradora e sua melhor amiga. Por outro lado, há cenas de sexo, alguns incestuosos. O amor muitas vezes se apresenta como uma forma de fuga daquela vida de rotina.
Concluindo, O Compromisso de Herta Müller é um painel de sofrimento e paixão, de amor e de ódio, de sentimentos humanos tão contraditórios, mas que têm de ser superados. Se não é uma obra-prima da literatura universal, possui o seu valor e não pode ser menosprezada pela crítica, como tem sido às vezes, apesar do sucesso que vem alcançando nos países em que foi traduzida e na própria Alemanha. É livro que merece ser lido como genuína literatura que realmente é.

6 comentários:

Daniel Osiecki disse...

Olá, professor.Belíssima postagem. Ainda não li O Compromisso, mas pela leitura dos fragmentos que o senhor postou no artigo, percebe-se, como a própria autora falou, uma certa influência kafkiana. O início do romance de Herta Müller me lembrou O Processo, do Kafka, que diz "alguém devia ter caluniado Josek K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã". E essa atmosfera onírica, sombria e muito escura permanece até o fim da narrativa de Kafka. Me parece que a protagonista de O Compromisso também se vê imersa numa atmosfera onírica (talvez influência das passagens mais líricas), porém é mais direta que Kafka, pois Herta Müeller se posiciona contra o regime comunista e, mesmo utilizando símbolos,sua narrativa é bem direta e linear. Lerei o livro em breve. Grande abraço, Prof. Jayme.
Daniel

Jayme Ferreira Bueno disse...

Obrigado, Daniel
Você tem razão. A influência de Kafka é notória, porém, Herta é de uma linha mais social, mais realista. Muitos a criticam, mas penso, pela obra que li e que não é uma de suas obras-primas, uma grande escritora. O Prêmio Nobel, como muitos dizem, é atribuído nem sempre aos melhores e segundo critério desconhecidos por todos nós, mas nem poderia ser de outro modo. Qual seria o melhor? Segundo que critério? De acordo com o gosto crítico de que corrente literária? Penso que neste ano foram felizes na atribuição à escritora romena-alemã. Parabéns a ela.
Tenho o livro e posso emprestá-lo para você.
Um grande abraço,
Jayme

Daniel Osiecki disse...

Olá, professor. Obrigado, mas me interessei por essa autora a acabei comprando o livro.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Daniel,
Boa leitura e espero que goste de O Compromisso, da Herta, prêmio Nobel.
Depois da leitura, faça algum comentário para incluirmos no Blog.
Um grande abraço,
Jayme

Daniel Osiecki disse...

Olá, professor. Concluí minha leitura de O Compromisso e gostei muito. Gostei muito da narrativa dessa personagem anônima que entre uma parada e outra do bonde, evoca várias passagens de seu passado, boas ou não. Toda a sua narrativa nos dá aquela impressão de que ela (a personagem narradora) está na iminência de se deparar com algo revelador, e é o que acontece. No final, depois que ela desce do bonde em um outro ponto, ela se depara com Paul, e se esconde atrás de uma árvore, mas é descoberta e o final tem aí um duplo sentido, pois não sabe-se o que Paul estava fazendo lá naquela oficina. Estava apenas consertando a moto? Ou era muito mais do que um simples operário? A atmosfera kafkiana permanece até o fim. Grande livro, sem dúvida. Um grande abraço, professor.

Daniel

Eduardo disse...

Avabei de ler o livro...e fiquei com a mesma duvida no final...será que ela quis colocar que Paul era um dos agentes do regime e que a vigiava...era isto??? eu nao entendi o final...sobre o livro em si, é um bom livro, apesar de um pouco arrastado, e de tantas situacoes fora do contexto, em determinado momento lembrava nelson rodrigues e todas suas perversoes...de qualquer forma gostaria de discutir o final...pois fiquei meio perdido...