quarta-feira, 29 de abril de 2009

GEIR CAMPOS E A GERAÇÃO DE 45

Geir Nuffer Campos é um poeta capixaba (São José do Calçado/ES, 1924 - Niterói, 1999). Exerceu várias profissões. Foi jornalista, diagramador gráfico e inclusive piloto da marinha mercante e ex-combatente civil na Segunda Guerra Mundial.
Formado em Teatro e depois doutor em Comunicação Social, foi professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Colaborou em diversos diários do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Como radialista, apresentou programa sobre poesia na Rádio MEC, por mais de 20 anos. Foi também diretor da Biblioteca Pública Estadual de Niterói. É autor da letra do Hino de Brasília.
Literariamente, começou em 1940, escrevendo contos e poemas originais ou traduzidos. É de 1950 o seu seu primeiro livro Rosa dos rumos. Na continuidade, publicou várias outras obras poéticas. Os principais são: Da profissão do poeta, Canto claro e poemas anteriores, Operário do canto, Cantigas de acordar mulher, Metanáutica" e Canto de peixe, dentre outros. É também autor do Pequeno Dicionário de Arte Poética, importante guia para quem gosta de saber um pouco mais sobre poesia. Em 1956, recebeu o prêmio Olavo Bilac pelo livro Canto claro e poemas anteriores.
Ao lado de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Alphonsus de Guimaraesn Filho, João Cabral de Melo Neto, Paulo Mendes Campos, Ledo Ivo, José Paulo Paes, dentre o s mais conhecidos, Geir Campos participou ativamente do grupo que ficou conhecido por Geração 45. No manifesto do grupo, lê-se: Somos na realidade um novo estado poético, e muitos são os que buscam um novo caminho fora dos limites do modernismo”.

Seguem três comentários críticos sobre Geir Campos:
1. “Com Operário do Canto, Geir Campos volta a mover a poesia social, para demonstrar que a preocupação social não perturba a tessitura lírica”. (Adonias Filho)

2. “A poesia de Geir Campos tem circulação, ousadia e canto. Ninguém pode equivocar-se: aproximando o ouvido, sentimo-la como um rumor de cristal errante, sentido e som da poesia verdadeira.” (Pablo Neruda)

Dos mais destacados poemas de Geir Campos, seguem:

TAREFA
Morder o fruto amargo e não cuspir

mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

(Poema do livro Geir Campos: antologia poética, Léo Christiano Editorial. Org. Israel Pedrosa: Rio de Janeiro, 2003, p. 89).

SAFRA
Como um viticultor ocioso come
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.

FOGUEIRA
Os gnomos do bosque desabotoam
as toscas pelerines de cortiça
forradas com cetim púrpura e ouro:
o mais sanguíneo deles inaugura
um inferno menor, e todos dançam,
enquanto as labaredas tremem como
mãos de noivas sem tálamo, acenando
para o vento cantor que as chora ausentes
— e também chora, nas árvores altas,
a mágoa obscura de não serem flautas.

HAICAIS
1.
Vento da manhã
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.
2.
Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.


(Poemas do Jornal de Poesia. www.revista.agulha.nom.br/)

ALBA

Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste - o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.

(Poema de
www.almadepoeta.com)

Do livro Da profissão do poeta, que foi dedicado a Paulo Mendes Campos, são estes poemas:

DA IDENTIFICAÇÃO PROFISSIONAL

Operário do canto, me apresento
sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,
minha alma limpa, a face descoberta,
aberto o peito, e — expresso documento —
a palavra conforme o pensamento.

DO CONTRATO DE TRABALHO

Fui chamado a cantar e para tanto

há um mar de som no búzio do meu canto.
Embora a dor ilhada ou coletiva
me doa, antes celebro as coisas belas
que movem o sol e as demais estrelas
— antigos temas que parecem novos
de tão gratos ao meu e aos outros povos.

DA RELAÇÃO COM VÁRIOS OFÍCIOS
Meu verso tine como prata boa

pesando na confiança dos bancários;
os empregados no comércio bem
sabem como atender aos que encomendo
e recomendo mais do que ninguém;
aos que funcionam em telefonia
com ou sem fio, rádio, a esses também
sei dizer à distância ou de mais perto
a cifra e o texto no minuto certo;
para os músicos profissionais,
sem castigar o timbre das palavras
modulo frases quase musicais;
para os operadores de cinema
meu verso é filme bom que a luz não queima;
trilho também as estradas de ferro
e chego ao coração dos ferroviários
como um trem sempre exato nos horários;
às equipagens das embarcações
de mares ou de lagos ou de rios
meu verso fala doce e grave como
doce e grave é a taboca dos navios;
nos frigoríficos derrete o gelo
da apatia, se é para derretê-lo,
meu canto a circular nas serpentinas;
à boca da escotilha ou nas esquinas
do cais, o meu recado é força viva
guindando a atenção dos homens da estiva;
desço cantando aos subsolos e às minas
onde outros operários desenterram
o minério de suas artérias finas;
a outros, que dão sua têmpera aos metais,
meu canto ajuda feito um sopro a mais
aflando o fogo em flâmulas vermelhas;
aos colegas que lidam nos jornais
boas noticias dou e, mais do que isso,
jeito de as repetir e divulgar
quando o patrão quisera ser omisso;
à gente miúda, pronta a ser maior,
passo lições de um magistério puro
e o que é dever escrevo a giz no muro;
para os químicos sei fórmulas novas
que os mártires elaboram nas covas...
e a todos que trabalham vai assim
meu canto sugerindo meio e fim.

DO HORÁRIO DO TRABALHO
Marcadas as minhas horas de ofício,

de dia em sombras pelo chão e à noite
no rútilo diagrama das estrelas,
só quem ama o trabalho sabe vê-las.

DOS PERÍODOS DE DESCANSO
Seja domingo ou dia de semana,

mais do que as horas neutras do repouso
confortam-me os encargos rotineiros;
meu descanso é confiar nos companheiros.

DO DIREITO A FÉRIAS
Nunca me participam por escrito

ou verbalmente os ócios que mereço,
mas sempre gozo bem o merecido:
pois o ócio não é ofício pelo avesso?
É quando fio o verso; depois teço.

DA REMUNERAÇÃO DAS FÉRIAS
Em férias tenho a paga de saber

lembrado o verso meu por quem o inspira;
é como se outra mão tangesse a lira.

DO SALÁRIO MÍNIMO
Laborando entro os pontos cardinais,

de norte a sul, de leste a oeste, vou
cobrando aqui e ali quanto me basta:
o privilégio de seguir cantando.
(Imposto é cuidar onde e como e quando.)

DO EXPEDIENTE NOTURNO
Trabalho à noite e sem revezamentos.

Se há mais quem cante, cantaremos juntos;
sem se tornar com isso menos pura
a voz sobe uma oitava na mistura.

DA SEGURANÇA DO TRABALHO
Mesmo no escuro, canto. Ao vento e à chuva,

canto. Perigo à vista, canto sempre;
e é clara luz e um ar nunca viciado
e sol no inverno e fresca no verão,
meu canto, e sabe a flores se é de flores
e a frutos se é de frutos a estação.
Só não me esforço à luz artificial
com que a má fé de alguns aos mais deslumbra
servindo-lhes por luz o que é penumbra;
também quando o ar parece rarefeito
a lira engasga, o verso perde o jeito.

DA HIGIENE DO TRABALHO
Não canto onde não seja o sonho livre,

onde não haja ouvidos limpos e almas
afeitas a escutar sem preconceito.
Para enganar o tempo ou distrair
criaturas já de si tão mal atentas, não canto...
Canto apenas quando dança,
nos olhos dos que me ouvem, a esperança.

DA ALTERAÇÃO DE CONTRATO ETC.
Meu ofício é cantando revelar

a palavra que serve aos companheiros;
mas se preciso for calar o canto
e em fainas diferentes me aplicar
unindo a outros meu braço prevenido,
mais serviço que houver será servido.

Lendo alguns e relendo outros poemas de Geir Campos, percebo que a sua poesia, que é de talhe classicizante, como se propôs a Geração de 45, incopora elementos de várias poéticas. Como exemplo apenas, cito a poética dos árcades (veja–se o poema Fogueira, em que explora o motivo da flauta, aliado a um conjunto de outros motivos do viver bucólico); de Camões (principalmente poemas como Da Identificação Profissional, Do Contrato de Trabalho, Da Alteração de Contrato Etc, além de outros em que vibra o tom do decassílabo clássico); de Olavo Bilac (como o poema Do Horário de Trabalho, em que termina com versos muito parecidos com versos do famoso Soneto XIII da coletânea Via Láctea. É só comparar estes dois versos de Geir Campos: “no rútilo diagrama das estrelas, / só quem ama o trabalho sabe vê-las”, com estes dois de Olavo Bilac; “Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e de entender estrelas”);não podendo ainda esquecer da poética de João Cabral de Melo Neto, seu colega de Geração (vejam-se estes dois versos perfeitamente no estilo do poeta pernambucano: “pois o ócio não é ofício pelo avesso? / É quando fio o verso; depois teço”).
A sua poética é realmente multiforme. A sua poesia transita das atribuições trabalhistas, que ele poetiza com maestria, à fina sensibilidade e incomparável formalismo dos poemas de influência oriental, como os Haicais.
Nota-se também na sua obra, não apenas uma preocupação social, como alguns críticos apontam, porém, mais do que isso, um sentido de solidariedade humana (pode-se notar isso no poema Tarefa e nestes versos de Do Expediente Noturno: “Se há mais quem cante, cantaremos juntos”).
Espero que minha leitura tenha sido fiel ao espírito da poética de Geir Campos. Somente um poeta complexo como ele, consegue harmonizar o formalmente artesanal a um sentir profundamente poético.

7 comentários:

raquel disse...

Puxa! Você deve ter passado uma semana preparando o texto. Agora vou precisar do feriado para ler tudo e assim poder comentar. :-))

Jayme Ferreira Bueno disse...

De fato, aproveito os horários de folga e vou preparando alguma coisa para futuras postagens. No caso da poesia de Geir Campos, o assunto surgiu para ser incluído em outro local em que se tratava da Geração 45. Como não foi possível postar lá, acabei por publicá-lo aqui.
Obrigado pelo acompanhamento.
Jayme

Taninha Nascimento disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Taninha Nascimento disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Taninha Nascimento disse...

Olá, Prof. Jayme.

Esse material é precioso!!

Vou colocar um link de atalho para que as pessoas, que me visitarem, venham aqui conferir.

Quando eu li, só pensei: "nossa, quanto tenho de aprender...".

O que mais me fascinou, foi a capacidade dele; o talento de saber colocar questões importantes na poesia - como as sociais - sem ferir a ética.

Não é, mesmo, para qualquer um. Só para os grandes...

Tenho refletido muito sobre essa questão, pois as pessoas têm esquecido que a poesia não pode perder o encanto ainda que fale do pior que possa haver no planeta ou fora dele.

Estão colocando a poesia num patamar tão "menorzinho"...

E tudo por não saberem preservar a ética.

Isso tira qualquer um do sério!!

A atualidade perde muito se não beber dessas fontes "antigas", para - de fato - trazer novidades à poesia. Pensam que inovar é nos trazer qualquer coisa e nos empurrar de "goela a baixo".

Já me enganei muito, procurando beleza e arte onde só há o ermo.


Grande estudo!
.


Ainda estou lendo aquele que o sr. me mandou - atendendo ao meu pedido de colaboração.

Há tantos caminhos que posso traçar para comentar. Estou estudando...

Muito obrigada por tudo, prof. Jayme.

Abraços,
Taninha


PS: Apaguei os dois comments anteriores por haver errinhos de digitação!!

Jayme Ferreira Bueno disse...

Obrigado, Taninha
Eu conhecia Geir Campos mais pelo Dicionário de Termos Poéticos e um pouco menos por alguns textos, principalmente de antologias. Agora, ao reler mais demoradamente alguns poemas e ler outros, confesso que a poesia dele me surpreendeu.
Gostei muito do estilo e de um formalismo, mas que não é o tradicional, é moderno, bem como se propôs a Geração 45.
Agradeço as suas palavras bondosas de sempre.
Um grande abraço,
Jayme

biga disse...

Que bom o seu artigo. Geir Campos merece. É um grande poeta e foi muito meu amigo, como um irmão mais velho.
Apesar disto, já procurei em todos os livros de Geir que tenho e não encontro um poema pelo qual tenho verdadeira paixão e que queria citar num trabalho de arte em que faço uma homenagem a Geir.
Não me lembro do título mas me lembro claramente dos versos finais pois são de uma beleza in esquecível. Termina assim..." e o pássaro empalhado chorava(?) suas plumas, uma a uma
sobre os dentes dementes do teclado.
Se o Sr o tiver, pediria a gen tileza de mandá-lo para mim. Abigail Pereira Nunes Guerry