quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

TRÊS CARTAS EM LIVROS DE FICÇÃO



GÊNERO EPISTOLAR EM OBRAS DE FICÇÃO

O gênero epistolar sempre teve seus cultores na literatura universal, tanto em prosa como em poesia. A literatura portuguesa e a brasileira, em todas as épocas literárias, apresentam grandes autores de epístolas. Há, inclusive, muitas obras que se estruturam com o apoio único ou preponderante de cartas.
Aqui se incluem três cartas retiradas de romances brasileiros de diferentes épocas e que não São unicamente de cartas. Elas aparecem acidentalmente na narrativa.
É comum encontrarmos cartas em obras de ficção. O autor, para mudar o foco narrativo, faz uso desse recurso estilístico. Os escritores selecionados foram o carioca Machado de Assis, o paulista Oswald de Andrade e o paranaense Miguel Sanches Neto.

1. UMA CARTA EXTRAORDINÁRIA (Machado de Assis)
Meu caro Brás Cubas,
Há tempos, no Passeio Público, tomei-lhe de empréstimo um relógio. Tenho a satisfação de restituir-lho com esta carta. A diferença é que não é o mesmos porém outro, não digo superior, mas igual ao primeiro. Que voulez-vous monseigneur?- como dizia Fígaro, - c'est la misère. Muitas cousas se deram depois do nosso encontro; irei cortá-las pelo miúdo, se me não fechar a porta. Saiba que já não trago aquelas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau da escada de S. Francisco; finalmente, almoço.
Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe um trabalho, fruto de longo estudo, um novo sistema de filosofia, que não só explica e descreve a origem e a consumação das cousas, como faz dar um grande passo adiante de Zenon e Sêneca, cujo estoicismo era um verdadeiro brinco de crianças ao pé da minha receita moral. E singularmente espantoso esse meu sistema; retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, e enche de imensa glória o nosso país. Chamo-lhe Humanitismo, de Humanitas, princípio das cousas. Minha primeira idéia revelava uma grande enfatuação; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia menos. Verá, meu caro Brás Cubas, verá que é deveras um monumento; e se alguma cousa há que possa fazer-me esquecer as amarguras da vida, é o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a felicidade. Ei-las na minha mão essas duas esquivas; após tantos séculos de lutas, pesquisas, descobertas, sistemas e quedas, ei-las nas mãos do homem. Até breve, meu caro Brás Cubas. Saudades do
Velho amigo
JOAQUIM BORBA DOS SANTOS.
(ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: W. C. Jackson, s. d., p. 275-6.)


130. RESERVA (Oswald de Andrade)
“21 de Abril
Seu Dr.
Peguei hoje na pena para vos Felicitar os nossos antes Passado sendo um dia de grande gala, para nós no nosso Grande Brasil sendo o dia do nobre Brasileiro Tiradentes que foi ezecutado na forca, mais tudo passa vamos tratar do nosso futuro que é melhor os passado eram bobos, por aqui todos Bom grassas a Deus o mesmo a todos que aí estão. Candoca, Rufina, Delina, Maria José, Bermira e a filha estão todos na mesma. Só eu saí sorteado para o Regemento Suprimetar de Paracatu no Goiás e queria que V. S. desse as providências para mim ficar em Caçapava no Regemento de Infantaria Montada fica mais perto aqui eu estudarei para ser a Luz de minha família. Representar talento com meu falecido avô Capitão Benedito da Força Pública, não estudando agora, quando mais o tempo passa e a Velhice chega conduz a Tristeza, porque este mundo é um passatempo que nós temos essa é a Verdade! Só temos que tratar do Futuro neste mundo não vale nada a Beleza as Festas as Inlusão do mundo só o talento com o grande Rio Branco o Ouro Preto, O Padre feijó, José Bonifácio, Rui Barbosa e outros que nem se sabe.
Seu criado às ordens
Minão da Silva”
(ANDRADE, Oswald de. Memórias sentimentais de João Miramar. Rio de Janeiro: Globo, 1990.)

2. RESPOSTA AO PROFESSOR AFRICANO (Miguel Sanches Neto)
Antes de mais nada, comunico que não pretendo responder ponto por ponto às suas questões, inclusive porque a maioria delas sequer merece resposta. Mas como o senhor solicita um pronunciamento meu, redijo esta carta que vai tratar maneira genérica o Caso Jabuticaba.
A vida particular de uma pessoa não é algo totalmente isolado da vida pública, principalmente quando estes dois espaços são confundidos. O senhor recebe constantemente em sua casa uma família que tem um filho estudando nesta escola. O aluno também freqüenta a casa do senhor e isso dá a ele credenciais para ser um braço do diretor, usado contra os demais alunos.
Assim, este comportamento particular do senhor diretor interfere, sim, na vida das demais pessoas e é de interesse não só meu, mas de toda a escola. Ele cria privilégios e gera injustiças. Está, portanto, ferindo o direito de outras pessoas. E, na minha opinião, não pode e não deve continuar.
Esse negócio de discriminação dos negros é algo que realmente não entendo. Nasci e cresci em um país em que todas as raças convivem misturadas. Não há, para mim, diferença entre um negro, um japonês ou um alemão. O que há é a diferença entre a pessoa que age corretamente e a que age de forma errada. Logo, discriminação racial não é um assunto sobre o qual eu possa falar, principalmente na {ren­te do senhor, um português que viveu anos da exploração dos negros de Angola, e que só deixou a África quando Por­tugal perdeu o poder. Passemos por cima deste item, portanto.
Agora, se o senhor quer saber se tenho procuração para falar em nome da minha turma, aviso que não, mas tenho um abaixo-assinado que vale muito mais. E eu não precisa­ria nem deste abaixo-assinado porque vivemos num país democrático, onde está assegurado o direito de questionar qualquer abuso de poder. A ditadura acabou há dois anos, senhor diretor. Sinto muito ter que ser o anunciador desta triste novidade.
Ah, mas existem ainda algumas regiões dominadas por Portugal. Quem sabe o senhor não encontre nelas ó ambi­ente propício para exercer a opressão?
Cordialmente,
Miguel Sanches Neto
(NETO, Miguel Sanches. Chove sobre a minha infância. Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 194-5.)


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

TRÊS SONETOS DE FLORBELA ESPANCA

Florbela nasceu no dia 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, distrito de Évora, na região do Alentejo, em Portugal. Foi batizada como Florbela Lobo, sobrenome de sua mãe, pois seu pai, de sobrenome Espanca, ironicamente não a perfilhou. Na sua certidão de nascimento consta: "filha de pai incógnito". Ela, porém, talvez pela imagem de um pai boêmio e complexo no modo de viver, preferiu seguir, no nome e no modo de viver, o pai que a não reconhecera.
Aos 8 anos de idade escreveu um soneto, A Vida e a Morte. Em 1919, publicou o primeiro livro de poemas, com edição às suas custas, numa tiragem de apenas 200 exemplares. Quatro anos depois, surgiu o segundo.
Florbela não alcançou reconhecimento na sua época. Poucos foram os críticos que souberam valorizar a sua poesia. Um desses poucos foi o idealizador e grande líder da revista Presença, o grande poeta, José Régio. Disse ele: “A sua poesia é dos nossos mais flagrantes exemplos de poesia viva”. Poesia viva, para Régio, é aquela que nasce, vibra e se alimenta do próprio autor; no caso, da vivência da própria Florbela Espanca.
Com o passar do tempo, porém, o nome e a obra de Florbela foram ganhando cada vez maior reconhecimento, principalmente dos leitores. É considerada hoje, pela força de sua poesia, a maior poeta feminina de Portugal. É também consenso em Portugal que Florbela é um dos quatro grandes sonetistas da literatura portuguesa: o clássico, apaixonado e filosófico Camões; o árcade e lírico intimista Bocage; o metafísico poeta realista Antero e ela, Florbela, a jovem que viveu um dos dramas mais intensos como mulher e como poetisa.


AMIGA
Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!...Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei prá minha boca!...

OS VERSOS QUE TE FIZ

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

SE TU VIESSES VER-ME HOJE À TARDINHA
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
]O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

LANÇAMENTO DE OS INVÓLUCROS DA MEMÓRIA NA FICÇÃO DE CARLOS HEITOR CONY


Dia 10 passado (10/12/2008), a professora Raquel Illescas Bueno lançou o livro de ensaio sobre a obra de Carlos Heitor Cony, Os Invólucros da Memória na Ficção de Carlos Heitor Cony, obra publicada pela Academia Brasileira de Letras nas comemorações do cinqüentenário de O Ventre, o primeiro romance de Cony. O lançamento aconteceu na Livraria e Editora Arte e Letra no espaço cultural Lucca Cafés Especiais do Batel, em Curitiba. Pelo que me pareceu foi tudo bem. A autora se encontrava calma e conseguiu atender a familiares, amigos, visitas ilustres, enfim a todos os participantes em momento muito especial para ela e de muita satisfação que estava vivendo naquela noite.
Segundo o jornalista Luís Celso Jr, que postou em seu blog o texto Conversa com um Imortal:
http://www.bardocelso.com.br/2008/12/conversa-com-um-imortal.html:
“Nesta quarta-feira (10), durante o lançamento do livro de minha professora Raquel Illescas Bueno na livraria Arte e Letra, aqui em Curitiba, conversei com o imortal que ocupa a cadeira de número 3 da
Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony. Ele esteve no lançamento para prestigiar. (...)
Cony está com 82 anos e não tem nada de sisudo, como muitos pensam principalmente ao ver suas fotos por aí. Claro, não perdi a oportunidade: peguei a dedicatória da autora, uma das responsáveis por eu estar no mundo das letras hoje, e um autógrafo do escritor.
Gostei muito de ter conhecido Cony pessoalmente. (...) Pensei em estender o papo, mas (...). Despedi-me e deixei a cena.O mesmo com a Raquel. Na correria do lançamento, não quis levar o papo muito adiante. Eu no lugar dela estaria estressadíssimo com tudo aquilo. Quero deixar registrado aqui os parabéns pela conquista e desejar tudo de bom para ela. Seu sucesso é inspirador, Raquel.”
Como pai, estou orgulhoso com o êxito que a Raquel vem alcançando em sua carreira profissional e como autora de textos ensaísticos e também de alguns literários que produz eventualmente.
De todos nós seus familiares ela merece e recebe os parabéns e o nosso carinho.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

LANÇAMENTO DO LIVRO OS INVÓLUCROS DA MEMÓRIA NA FICÇÃO DE CARLOS HEITOR CONY

Será lançado no dia 10 de dezembro de 2008, a partir das 18h30min, na Arte e Letras Livraria - na rua Presidente Taunay, 40 (no interior do Lucca Cafés Especiais), em Curitiba, o livro Os Invólucros da Memória na Ficcção de Carlos Heitor Cony, de autoria de Raquel Illescas Bueno.
A autora é professora de Teoria da Literatura e de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Paraná. Doutorou-se na Universidade de São Paulo com tese elaborada sobre alguns romances de Cony.
O livro é uma publicação da Academia Brasileira de Letras, em homenagem ao cinqüentenário da estréia do acadêmico Carlos Heitor, que se lançou no romance com o livro O Ventre. Referindo-se a esse romance, Antonio Carlos Secchin, diretor da Comissão de Publicações, escreve: "Apesar de imediatamente reconhecido e aclamado pela crítica, este extraordinário romance ainda não havia sido objeto de uma análise do porte da que Raquel Illescas Bueno desenvolveu...".
A Raquel aguarda todos os amigos, colegas e interessados em literatura e em crítica literária. Eu estarei lá.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

PORTUGAL E O 25 DE ABRIL

PORTUGAL E O 25 DE ABRIL

1. A data na história de Portugal
O dia 25 de abril de 1974, em Lisboa e em Portugal, amanheceu real e simbolicamente sob uma nova ordem. A Revolução dos Cravos estava nas ruas de todas as cidades e nos caminhos todos de Portugal. Soldados desfilavam com seus carros de guerra ao passo que iam recebendo as homenagens da população que enfeitava seus fuzis com cravo vermelho, o símbolo de Portugal. Essa flor empunhada pelos participantes do MFA - Movimento das Forças Armadas passou a ser também a referência da Revolução que derrubava, naquele momento, as últimas resistências de um Salazarismo já ultrapassado no tempo e na vontade dos portugueses.
A Revolução dos Cravos trouxe raios de esperança ao sofrido povo português daqueles tempos. O terror da ditadura, embora bem mais branda, ainda assustava. Eram prisões, eram exílios, eram separações. Tudo contribuía para um sofrimento que agora parecia haver sido extinto.

2. Os festejos do 25 de abril
Naquele ano de 1974 e nos que se seguiram, o povo saiu e continuava a sair para festejar o acontecimento. A data passou a ser oficial. Muitos edifícios, construções, escolas que ostentavam o nome pomposo de Salazar, passaram a denominar-se 25 de Abril.
Em 1981, tive a oportunidade de assistir aos festejos alusivos à data. O povo festejava nas ruas, nas praças, nos bosques. A alegria era incontida. O vermelho dominava a paisagem. As bandeiras desfraldadas enfeitavam a festa. Era tudo alegria, comemoração.



3. A literatura “pós-25 de abril”
O grande entusiasmo popular chegou aos escritores. Surgiu, então, uma literatura que chegou a ser chamada “Literatura Pós-25 de Abril”. Esta denominação, que alguns críticos a rejeitam, mas que não podem negar que, de qualquer modo, produziu numerosas grandes obras. Com ela, surgiram novos escritores, como Lídia Jorge, e outros, já autores conhecidos, como Almeida Faria, e outros ainda surgidos em épocas bem anteriores, como Fernando Namora, passaram a produzir novas obras.
Dentre as principais e mais conhecidas obras com o rótulo de “pós-25 de abril”, publicaram-se: Levantado do Chão, de José Saramago, romance influenciado pelo Neo-Realismo; Os romances inovadores O Triunfo da Morte, de Augusto Abelaira e Lusitânia, de Almeida Faria, e O Dia dos Prodígios, da iniciante Lídia Jorge; A narrativa meio realista, meio surrealista Os Cus de Judas, de Lobo Antunes; os policiais Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires, e O Rio Triste, de Fernando Namora; além de outros, como O Mosteiro, de Agustina Bessa Luís, e O Silêncio, de Teolinda Gersão.

4. Três textos de obras representativas do “pós-25 de abril”
Para ilustrar a “literatura pós-25 de abril”, selecionamos três textos de diferentes obras. O primeiro
é um fragmento de Lusitânia, de Almeida Faria; o segundo pertence à obra O Rio Triste, de Fernando Namora; e o terceiro é de O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge:

ALMEIDA FARIA – Lusitânia, p. 43.

RESPOSTA DE ARMINDA A JC EM MEMORÁVEL DATA:

Montemínimo, 25 de abril

Querido João Carlos,

quando a minha missiva aí chegar já estarás bem informado do que aqui se passa. Acho que, em vez de ser eu a partir como me aconselhas, deves ser tu a fazê-lo, não só por causa da morte do Pai, também porque a ditadura já não dura. Se anda­mos a lutar pelo fim dela, não tanto quanto Samuel mas o bastante para te zangares com o Pai, não faz sentido ficares num exílio voluntário agora que os exilados vão voltar, segundo parece mais provável. Ainda se não sabe até onde irão estes militares, nem se soará a hora das massas populares. Pelo menos porém fala-se em demo­cracia, quase novidade neste país.

FERNANDO NAMORA – O Rio Triste, p. 97.

Dessa vez, fora a própria polícia a contactar os jornais. Havia um caso bicudo, era preciso dar-lhe relevo. Um ho­mem desaparecido, telefonemas misteriosos, uma gabardina deixada num cacilheiro. O homem que a vestia (ou que, nesse dia, não chegara a vesti-la) fora visto num dos barcos que fazem a travessia do Tejo, encostado ao gradeamento da amurada, sozinho, num modo de quem não se sentia muito bem. Mesmo pondo em dúvida o rigor destas minúcias, a verdade é que o homem chamara as atenções da pessoa que ocasionalmente o observara e que, no fim da viagem, ao re­parar que o enigmático passageiro deixara a gabardina es­quecida no banco, fora sobre ele para o advertir, porém sem resultado, pois sumira-se entre a massa de gente que se dirigia para o ancoradouro. Então, a pessoa, depois de ter hesitado se deveria incomodar-se tanto com um desconheci­do desmazelado ou distraído, decidira-se a entregar a gabar­dina ao mestre do barco. Por último, a gabardina fora parar aos achados e perdidos da polícia, um agente, por mero pal­pite, recambiara-a para a secção de pessoas desaparecidas, talvez porque nessa tarde lera uma pequena notícia acerca de um tal Rodrigo Abrantes.

LÍDIA JORGE – O Dia dos Prodígios, p. 152-3.

Vamos. Vamos ser visitados por seres saídos do céu, e vindos de outras esferas. Onde os séculos têm outra idade. Afastem-se, vizinhos, que esta visão costuma fulminar. As crianças correram estrada fora, comandadas pela coragem. Sentiam que o mar ia chegar atrás dum barco de velas alvadias e soltas, desfraldadas à levíssima brisa da tarde. E também começaram a esbra­cejar, esboçando gestos de natação. Mas Macário. Tendo sido o último a enxergar, teve a visão exacta. No momento da surpresa ainda tinha os olhos fechados de repetir pela última vez. À espera de ocasião. À espera de ocasião.
- Isto é um carro de combate. Oh vizinhos.
Na verdade, a pleno meio da estrada avançava um carro singular, porque vinha pejado de soldados garbosos e épi­cos, penetrando já pelo centro de Vilamaninhos com ban­deiras e flores. E cantavam por um altifalante como se viessem munidos de uma poderosa orquestra. Agora já o espectáculo era tão real e tão bonito que todos. Esquecidos desses primeiros segundos de pasmo e confusão. Sentiram estar suspenso o toque, o canto e a audição desde há muito. Para só ouvirem e verem aquilo que chegava em cima duro carro aberto e blindado. Todos tinham a certeza que desde o tempo dos reis nunca mais se vira de igual. Ah mara­vilha. Então o carro: parou em frente do grupo, e fez-se um momento de silêncio tão solene que as pessoas 'Pensaram ir morrer. Mas um soldado. Particularmente bem feito, tendo sem dúvida nascido numa terra muito diferente; Começou a falar de cima do carro, agora, parado no largo. Dizia coisas. Que tinha - feito uma re vo lu ção, e que era pre­ciso animar os espíritos. porque tudo. Tudo. E abria uns braços de salvador. Tudo iria ser modificado. Falava tão bem, que todos se encontravam encantados no timbre daquela voz. E nas maneiras másculas, sendo contudo deli­cadas, como se não sentisse o soldado o peso do corpo. Na farda, no cabelo levemente encaracolado. E ninguém era capaz de dizer fosse o que fosse, presos, todos da surpresa e da maravilha. Nem Macário. Nem Manuel Ger­trudes. Os outros soldados sentindo sem dúvida a per­turbação que invadia os naturais de Vilamaninhos, le­vantaram então os braços e disseram o que os ouvintes por­ventura queriam dizer. Mas falaram os soldados em con­junto. Tão alto e tão vibrante. Que os vilamaninhenses só compreenderam que uma grande coisa eles haviam dito, e maiores a:inda teriam a dizer no futuro. Quando acabaram o largo estava cheio de gente que escutava. Nem se sentia o vazio dos ausentes. E Macário, receando que os habitan­tes de Vilamaninhos estivessem a desempenhar o papel de bêbados na perfeição, e animado, porque antes da chegada, acabara de ouvir da boca do seu vizinho, que o seu lugar não deveria ser ali. Sentindo-se patrício desses forasteiros. Disse.
- Nós aqui soubemos logo, dois dias depois, que vocês tinham feito a re vo lu ção. Mas nunca pensa­mos que chegássemos a ver os heróis.
O soldado que havia falado agradeceu com a mão. Todos os outros tinham um ar solene e marcial, não duvidando ninguém que tais homens venceriam as maiores batalhas. Disse também o soldado formosíssimo, com flores a desfo­lharem-se nas abotoadeiras. Que era preciso que aquela terra se capacitasse que o tempo da li ber da de tinha che­gado.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

POEMA DE GABRIEL BUENO

Gabriel de Carvalho Bueno é brasileiro de nascimento, mas espanhol de alma. Segundo quem o conhece: "Tiene sangre española en la medula". Mesmo atarefado com diversos vestibulares para a área das Engenharias, encontra tempo e disposição para contribuir com o Blog do seu avô.
Aqui se inclui um poema de sua autoria:

¡OLÉ!

Clarines suenan retumbantes
El torero en la arena
¡Qué venga el toro bravejante!
Pues la plaza ya está llena

Un niñato juega por la Calle del Agua
Gitanas bailan
Gitanas cantan
Por las calles de Granada

Giralda es la gran torre
Quién ya ha visto Sevilla
Por ella se muere

A las cinco en punto de la tarde
Federico miraba a la corrida
A las cinco en punto de la tarde
¡Qué recuerdo, qué penita!

Al toque de un pasodoble
Es que vibra toda la gente
Cuando se ponen el toro y el torero
Los dos frente a frente

El torero con mucha pena se quedó
Y a cambio de claveles
Aquél toro negro no lo mató


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sábado, 15 de novembro de 2008

GÊNERO EPISTOLAR

O gênero epistolar sempre teve seus cultores. Em Portugal, na época do Barroco, ficaram famosas as cartas de amor de Sóror Mariana Alcoforado e as cartas familiares de Dom Francisco Manuel de Melo, para citar apenas dois exemplos. Em vários outros estilos de época e em toda a literatura universal surgiram grandes autores de epístolas, tanto em prosa como em poesia.
Os séculos XVIII e XIX foram pródigos em autores de epístolas poéticas: Voltaire, Rousseau, Shelley, Byron, Filinto Elísio (Francisco Manuel do Nascimento), Castilho, Musset, Victor Hugo, Mallarmé e um grande número de outros.

O gênero epistolar inclui epístolas propriamente ditas, cartas, bilhetes e outras formas.
Aqui, incluem-se duas cartas e um denominado bilhete, cujo texto não deixa de ser uma carta poética.

Os poetas brasileiros selecionados foram os mineiros Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado, e o gaúcho Mário Quintana:

CARTA (Drummond)


Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
"Deus te abençoe", e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

BILHETE EM PAPEL ROSA (Adélia)

Ao meu amado secreto, Castro Alves.

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.

Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
"o cinamomo floresceem frente do teu postigo.
Cada flor murcha que desce,morro de sonhar contigo.
"Ó bardo, eu estou tão fracae teu cabelo é tão negro,
eu vivo tão perturbada,
pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim. Me dão mingaus,
caldos quentes, me dão prudentes conselhos,
eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vidas ligadas.
Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.

CARTA DESESPERADA (Quintana)

Como é difícil, como é difícil, Beatriz, escrever uma carta...
Antes escrever os Lusíadas! Com uma carta pode acontecer
Que qualquer mentira venha a ser verdade...
Olha! O melhor é te descrever, simplesmente,
A paisagem,
Descrever sem nenhuma imagem, nenhuma...
Cada coisa é ela própria a sua maravilhosa imagem! Agora mesmo parou de chover.
Não passa ninguém. Apenas
Um gato
Atravessa a rua
Como nos tempos quase imemoriais
Do cinema silencioso...
Sabes, Beatriz? Eu vou morrer!