quarta-feira, 31 de agosto de 2011

CEZAR TRIDAPALLI, NOVO ROMANCISTA

Nílton Cezar Tridapalli, nome oficial, mas, porém, conhecido na literatura por apenas Cezar Tridapalli, que adotou como uma espécie de pseudônimo, o que é bastante frequente na literatura. O cidadão Nílton Cezar é bastante jovem, nasceu em Curitiba, em 1974.
Lecionou Teoria da Literatura na PUCPR e atualmente exerce suas funções no Colégio Medianeira como um dos responsáveis por pensar a educação em suas múltiplas linguagens, das mais tradicionais às chamadas novas mídias no Colégio Jesuíta, um dos mais tradicionais de Curitiba.
Nilton Cezar Tridapalli recebeu o título de mestre pela Universidade Federal do Paraná, no ano de 2004, com a dissertação De luzes e de sombras: jogos barrocos em contos fantásticos.
Procurando-se material sobre o escritor Cezar Tridapalli se encontram informações, que, além de romancista, é um grande tradutor de obras teóricas sobre literatura, principalmente de obras da língua italiana para o português, como, por exemplo, o Fantástico, de Remo Ceserani.
Este livro explora uma região particular da literatura e da arte moderna: aquela imaginação perturbadora e fantástica. Seguindo as manifestações dessa modalidade, o autor faz emergir sua capacidade muito especial de colocar em xeque nossa forma de ver o mundo e, com isso, revelar momentos de perturbação, de alienação e de dilaceração da consciência.
Ultimamente, Cezar Tridapalli, publicou o romance Pequena biografia de desejos. Segundo a crítica esse é um romance que já nasceu maduro. Diz do livro André Tezza Consentino:
Romances de estreia, em geral, são aqueles que depois da maturidade o escritor se arrepende e recusa a paternidade. E esta é a primeira grande qualidade do romance de Cezar Tridapalli: é um livro maduro, envolvente, _ de um vigor narrativo que só encontramos em escritores com mais tempo de estrada. Mas as qualidades vão além. É um olhar singular sobre o Brasil, a partir de Curitiba, esta cidade que desde Dalton Trevisan soube construir uma escola literária muito peculiar, de distanciamento, racionalidade e um fino humor.
Nesta tradição, Pequena biografia de desejos apresenta tanto o Brasil privilegiado quanto o país de uma imensa maioria de trabalhadores anônimos, aqueles que dificilmente são protagonistas do imaginário da classe leitora brasileira.
Mas não se engane: não é um romance dedicado à pedagogia ou à defesa de bandeiras políticas - como toda grande literatura, o livro de Tridapalli aposta, como fio narrativo primordial, na investigação da condição humana, mais atemporal e mais livre de demonstrações de teses ou teorias.
Finalmente, é um livro escrito dentro da tradição literária contemporânea mais preocupada em saber contemporânea mais preocupada em saber contar uma boa história do que em revolucionar a linguagem (...)
O crítico encerra afirmando que a estréia de Cezar Tridapalli "não passará despercebida. Pequena biografia de desejos, com certeza, dará um novo rumo na literatura feita no Paraná".
Na quarta capa, a editora selecionou o seguinte trecho do livro:
De início, sonhava com um abraço, forte, quente e, enquanto durasse, infinito. Se conseguisse isso, veria depois o que fazer, conforme as vontades que lhe dessem. Jamais, no entanto, tomaria qualquer iniciativa. Algumas noites, passou a sonhar que ditava para Adele trechos de seu livro. Os caminhos longos do ônibus eram dedicados a imaginar cenas, às vezes cogitando-as possíveis, outras vezes dando livre arbítrio para a loucura. Lembrava quando criança, nas primeiras paixões, estar sempre salvando a menina de perigos mil. Ria, misturava tudo e a imaginação, enquanto estivesse mergulhado nela, já lhe saciava um pouco os desejos.
Tridapalli abre a narrativa com este início questionador, que muitos de nós, muitas vezes, fazemos. Para as quais, de modo geral, não temos resposta:
Algumas perguntas não ficam menos interessantes ou menos verdadeiras só porque se tornaram clichés: até onde vão os limites de um homem? Eis uma pergunta cliché. Mas os limites são elásticos e, assim como tém um coeficiente de flexibilidade grande, assim como podem se expandir muito além de seu ponto de repouso, também - e isso é uma pergunta - podem encolher, atrofiar e formar uma crosta inerte dentro da qual a expansão vai ter sempre um sinal de menos antes? A superfície, a membrana que limita - muito flexível, importante repetir -, pode ficar ressequida, como borracha velha. Desidério chegara ao seu limite? Eu, Desidério, ele também se perguntava, cheguei ao meu limite?

Essa pergunta que é um trunfo nas mãos de um bom romancista é aqui, no livro de Tridapalli, um recurso precioso que irá se desenrolar ao longo do romance. César soube explorar o recurso com grande maestria e assim conseguiu um efeito literário que poucos escritores com seguem.
Ao encerrar a narrativa, Cezar Tridapalli escreve: Minutos antes de adormecer e sonhar com a estátua de mármore e com o escritor do outro lado da vidraça, Desidério agarrara firme o bilhete em que pedia ao tio para procu¬rar Adele e levar a ela o caderno. Ela entenderia o significado daquilo tudo, ele tinha certeza disso, de que bastaria a ela digi¬tar seu romance, aproveitar para dar uma ou outra revisada nos aspectos formais da língua portuguesa, e quem sabe até - sem a presença censora do autor - promover uma ou outra mudança, mas nada essencial. Por tudo isso, estava sereno e as contrações do rosto não eram espelho fiel de seu espírito. Dormiria um pouco aflito, é verdade, mas sabedor de que a sorte estava lan-çada, bastando fazer Pauline e Gregório encontrarem seu pas¬sado perdido no outro caderno para, já à revelia de seu criador, viverem sua vida feliz. Por isso Desidério morreu sem dor. Por isso e também por ter tido uma boa noite de sono antes da via¬gem final. O sonho não o impediu de ter um sono reparador, que o fizesse descansar para morrer.
Foi melhor assim, que Desidério morresse pensando que bastariam corrigir pequenos detalhes para seu livro ficar pronto. Passara despercebido por ele, no entanto, um grande problema narrativo: na primeira parte, na descrição das angústias de Pauline, Desidério, fascinado pelo modo escorreito de Adele, resolvera experimentar vestir a pele da primeira pessoa, cuja narração era feita por Pauline. Já a pressa e a ansiedade para terminar a obra fizeram com que ele ignorasse o fato e escrevesse toda a última parte em terceira pessoa, assumindo o controle da vida do novo casal, que até agora estava lá, com os lábios unidos e já possíveis câimbras na boca. Ignorar muitas vezes diminui o sofrimento. Do eu ao eles, de mim ao outro em apenas uma mudança de caderno.
Vestir muitas peles e ser quem?
Não se pode dizer se Adele foi ou seria habilidosa na junção das partes. Uma metade ficou lá no apartamento de Santiago; Adele, por um respeito piedoso, não conseguia jogá-la fora, quem sabe até roubaria alguns trechos se acaso resolvesse mesmo escrever. A segunda metade ficou lá no criado-mudo de Macária, também inerte, em cima das agendas do condomínio e do registro de atas. Quem sabe o tio não resolvia devolver tudo e, por acidente, as duas partes se encontravam? Talvez fossem para o lixo e tivessem a sorte de ser encontradas em algum latão ou aterro comum - já se sabe que nos lixos se encontram grandes preciosidades - por um diletante catador de comida que, a exemplo de Desidério, nutrisse amor por livros. Os escritos precisavam deixar suas gavetas, precisavam ser lançados ao mar. Só assim poderiam, como duas taças que brindam ou duas garrafas de vinho que por acidente se tocam e fazem tim-tim, unir suas partes e consagrar a união necessária.
Assim se arrastam os desejos humanos, às vezes céleres, sorridentes e fagueiros como crianças no campo ou propagandas de margarina, às vezes entrevados, cujos movimentos únicos parecem ser fasciculações involuntárias. De uma forma ou de outra, compreendidos todos os matizes possíveis nesse entremeio, estão sempre morrendo sem se terem satisfeitos.
Dois dias de velório são demais, há perigos constrangedores. Também apenas algumas horas seguidas de um enterro súbito podem dar o que falar por entre a vizinhança futriqueira. Assim, Cevício fez todos zelarem pelos prazos de um velório respeitoso, tempo suficiente para as orações subirem aos céus antes de Desidério e prepararem o caminho da alma, adulando os santos e dizendo que quem vinha lá debaixo fora sempre um bom homem, merecedor de todos os créditos celestes, incapaz de fazer mal à mais minúscula das criaturas divinas.
O tempo passará, o hall de entrada do edifício ganhará mais luz e a guarita será toda reformada, aumentando um pouco o espaço interno. Os porteiros velhos agradecerão ao novo, que chegou reivindicando melhorias com uma retórica de dar inveja a qualquer bom falastrão.
Quinze pessoas compuseram o cortejo. Ainda durante as últimas colheradas de cimento, todos já começaram a se afastar, esboçando a volta para a vida. Desidério foi quem ficou para trás, estendido em cima do jazigo do pai. Lá, os dois terão a eternidade para resguardar a imobilidade de seus corpos e o silêncio de suas palavras.

As marcas de uma literatura contemporânea, como apontou o crítico, percorrem a obra toda. Pelos fragmentos já se pode notar uma tendência pela autoficção, ou, então, por uma metaliteratura, tudo no caminho do Pós-Modernismo, o que fortalece e enriquece a obra de Cezar Tridapalli.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

GALERIA DOS NOVOS ESCRITORES - Maria Célia Martirani

Maria Célia Martirani Bernardi Fantin nasceu em São Paulo, em 1959. Foi aí, quando estudante do Colégio Dante Alighieri, que começou a interessar-se pela língua italiana. Formou-se em Direito pela USP. Em seguida, mudou-se para Santa Catarina, onde permaneceu sete anos. Foi um tempo e um espaço que lhe conferiram muitas vivências que hoje apresenta em seus textos.
A autora atualmente reside em Curitiba, onde, além do exercício do magistério, inclusive na Universidade Federal do Paraná, leciona a língua e a literatura italianas. Ao lado dessas atividades profissionais, Maria Célia nunca deixa de lado o ofício de escrever. É já uma escritora consagrada nos meios literários da capital paranaense. Tem dois livros publicados: Recontando, de 1993, e Para que as árvores não tombem de pé-Affinché gli alberi non cadano in piedi, publicado, portanto,em edição bilíngue, português e italiano, em 2008.
Maria Célia Martirani publicou ainda na Revista de Literatura e arte etcetera, número 9, da Travessa dos Editores (2006), a “Entrevista com Alessandro Baricco: à procura do velho narrador que habita em cada um de nós”. Colabora com a Revista Ideias. Para esta escreve contos e resenhas sobre arte, literatura e cinema.
Maria Célia Martirani, seu nome literário, é uma surpreendente escritora da atualidade. As suas obras nos surpreendem principalmente pela inovação e pelo inesperado de sua narrativa, sempre densa, poética e atual.
Seus textos são de difícil classificação quanto ao gênero. São contos, crônicas, prosa poética, tudo numa profusão que deixam sempre no leitor uma sensação de novidade, de inovação. Marcelo Franz fala, acertadamente, em “fina arte de narrar poemas e poetizar narrativas”. Esse talvez seja o ponto fulcral da obra de Maria Célia, como forma de se classificar seus textos: narrativas poéticas e poemas narrativos. Os textos são poéticos, líricos, mas podem também ser trágicos. Às vezes, as narrativas nos apresentam uma certa ingenuidade, mas, logo, em contraste, surgem outras percorridas por um fino e permanente erotismo.
Pode-se encontrar na obra de Maria Célia textos extremamente líricos, como são alguns poemas em prosa de sua autoria: No orquidário; ou poemas que se voltam à virtude infantil, como Arapuca de soltar passarinho; ou, então, este doce poema de amor: Romance. Há tantos outros, mas esses indicados ficam como exemplos.
Alguns textos narrativos, crônicas poéticas, lembram o estilo de Cecília Meireles, pela suavidade do tema e pelo lirismo, como este A uma borboleta; outros apresentam estrutura de conto ou próxima a essa forma literária, como este, uma espécie de conto inconcluso: Paulo – estação – liberdade; ou, mesmo, um conto trágico, como: Um dia, ele voltará. Outros textos são como células de possíveis romances: Pro-vocação. Há, ainda, textos a nos mostrarem a consciência de problemas sociais, como o último conto daquele conjunto de três, em que entram o filho, o pai e a mãe: Vem comigo, mãe!, ou este outro com características do Existencialismo: Natal; e para concluir esta exemplificação, um conto que encerra em si um forte caráter existencialista à Vergílio Ferreira: O acorde final.
Ao colocar por último o conto que dá título à obra, Para que as árvores não tombem de pé..., a autora cria uma espécie do que os Formalistas Russos convencionaram denominar estranhamento, o que confere a um texto o grau de literariedade. Para nós, simples leitores, o texto de Maria Célia Martirani nos leva a considerar como uma atitude literária inovadora. Rompe com o comum, com o normal. Note-se ainda que esse texto Para que as árvores não tombem de pé constitui um hino às árvores, em especial ao pinheiro. Nas palavras entrecortadas pelas pausas marcadas pelas vírgulas, a autora parece demonstrar o sentimento de perda daquela que é a árvore-símbolo. Desse conto, aqui se reproduzem, em homenagem à autora, as suas próprias palavras: “Quando, triste e belo, do alto, começou a cair, tombou inteiro, sério, despencando, com a mesma pose das madeiras que tombam de pé... Ao lado, compadecidos diante da brusca morte, curvam-se, frágeis e simples, os solidários bambus...”.
Uma obra poliforme, multívoca, como é a de Maria Célia não se resume a simples exemplos. Mesmo que é um risco o leitor apontar textos, talvez tirando o prazer da descoberta de outros leitores. Eu, antes de tudo, quis fazer uma leitura atenta de um livro que me tocou fundo pela beleza literária do texto.
Para exemplificar a narrativa curta de Maria Célia Martirani, selecionei por critério estritamente pessoal, dois textos: Dessacralização e A uma borboleta. Embora pequenos fragmentos, espero que dêem uma idéia do que seja o texto de Para que as árvores não tombem de pé.
1.dessacralizaçãoDespreocupados e livres, caminhavam, matutinos, as calçadas de qualquer domingo. Uma alegria bêbada, não de quem bebeu muito, mas se embriagou demais com a simples presença de um na vida do outro. Que não era simples, mas era o bastante, eles que só assim se bastavam, puros de ar, água e sol... Falavam e riam, em risos falados mansos, fadados que estavam apenas àquela miúda felicidade... Os passos dele largos, os dela curtos, ela que tentava a todo custo o acompanhar... Daí, a igreja... Entraram pela lateral... Entraram só por entrar... Não, não que quisessem assistir missa, melhor a igreja assim vazia, só os dois, só um pouquinho, só agradecer... Que será que agradeciam? A mão dele envolvendo toda a frágil mãozinha dela, ela que de tão pequena, quase nem batia na altura do ombro dele... Ele, que de tão alto, baixava generoso olhar pra encontrar o dela... Ajoelharam e apenas se deixaram ver por alguma imagem, algum santo, algum anjo voando solto no redondo da alta cúpula-vitral de luz. E foi com essa espécie de sabe-se lá que luz, que de lá logo saíram agora enlaçados, nos novos laços de fita de alguma esperança...
(De Para que as árvores não tombem de pé, p. 169)

2.a uma borboleta
Empresta-me tua frágil asa frágil, eu quero ter forças para voar. Quero apreender só levezas... Não suporto mais o centro dessa gravidade toda de cenho franzido. Não posso com o peso dos pés, nesses trilhos imantados de ferro.
Ensina-me a polinizar o azul, tocando as hastes-pati¬nhas na volúpia do infinito. Faz-me mamar gotículas bran¬cas, na flor de um copo de leite... Eu preciso chover arcos de cores na íris do céu, conferir, à densidade verde, um farfalhar de pétalas ágeis. Pois a monotonia imóvel dos sérios silêncios da floresta, só perde o medo mistério, quando tuas asas aquareladas pousam na barriga das folhas e as fazem rir alegres cócegas. E o universo saltita numa efusão jocosa, dá gargalhadas de luz, apenas porque o tocaste no abre-fecha ligeiro do leque sedoso de tua se¬dução.
(De Para que as árvores não tombem em pé, p.237.)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

CASTRO, MINHA TERRA.

Todos nós que saímos da nossa terra natal, sempre temos o desejo de a ela um dia retornar, nem mesmo que seja na lembrança. É o mito do eterno retorno.
Eu, como muitos, sinto uma saudade muito grande da minha cidade. Trago de lá boas lembranças. São recordações de uma adolescência pobre de recursos materiais, mas rico de experiência, de vivência, de amizades, enfim, de tudo um pouco. Até mesmo das águas do Iapó, que eu transpunha várias vezes ao dia, a caminho do trabalho ou da escola.
Estudei, por último no Colégio Diocesano de Santa Cruz. De lá, não esqueço professores, como Bernardo Letzinger, João Baptista Cobbe, Nicolau Hampf, Lourival Leite de Carvalho e muitos outros.
Lembro também, e muito, dos colegas: Luiz Eduardo dos Santos, Georberto Flores, Jorge Alcy Jabczynski, e também das meninas. No começo eram várias: Josema Fiorrilo, Nanci Pereira, Neide Menarim, Perli Lopes, Salua Fadel. Mais tarde, o grupo se resumiu em apenas três. Com elas fomos até o final do curso Científico. Bons tempos aqueles dos anos de 1950. Tempos de sonhos, de voos da juventude, de esperanças, de projetos, que, alguns se realizaram, outros ficaram pelo caminho.
Sempre que para lá retorno, fico ao lado do velho prédio do antigo Cine Marajá. Que saudade das sessões de domingo, às 19 horas. Era lá que se viam muitas das meninas bonitas da cidade, como era também às margens do Iapó, nas areias, que, por isso, o local se chamava Areião.
Fica aqui a demonstração do meu amor por minha terra e da saudade que dela sinto. Saudade de um tempo, que, sem saber, eu fui feliz...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

CAIM, DE JOSÉ SARAMAGO

1. CAIM NA BÍBLIA
Caim, o primogênito de Adão e Eva, ao matar seu irmão Abel, torna-se o primeiro homicida da história da humanidade. Por esse crime, quando Deus ainda aparecia e conversava diretamente com as suas criaturas, apareceu ao assassino e cobrou dele contas do irmão. Caim, sem poder dar-lhe uma justa explicação, pois o seu crime fora meramente por ciúme de seu irmão - este recebera mais atenção do Senhor pelas oferendas que devotara ao Criador, quando as ofertas dele, Caim, foram pouco apreciadas. Então, o Senhor, dirigindo-se a Caim, amaldiçoou-o, dizendo: “Agora, pois, serás maldito sobre a terra, que abriu a sua boca e recebeu da tua mão o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, ela não te dará os seus frutos; serás vagabundo e fugitivo sobre a terra”. (Gên., IV, 10-13). Em cumprimento de sua maldição, “Caim tendo-se retirado de diante da face do Senhor, andou errante sobre a terra”. (Gên., IV, 16).
Desde então, com base em Caim e Abel, tem-se atribuído às ocupações de ambos alguns significados: Caim inicialmente dedicou-se à agricultura, profissão menos valorizada pelo Senhor; Abel, ao contrário, era pastor, o que o fez sobressair aos olhos do Senhor. Com a maldição de ter que vagar pelo mundo, Caim abandonou o cultivo, ocupação que exigia a fixação a determinado lugar, e tornou-se assim o primeiro andarilho sobre a face da terra, o primeiro “turista”.
2. CAIM NA FICÇÃO
Caim, alimentado pelo ciúme e atormentado pela maldição, tem sido um dos grandes temas da literatura. Personalidade complexa, como fratricida ou como símbolo do eterno viajante, Caim sai do texto bíblico para figurar em páginas de inúmeras obras literárias.
Recentemente, José Saramago lançou mais uma de suas polêmicas obras, exatamente com o título Caim. Como já fizera em O Evangelho segundo Jesus Cristo, o prêmio Nobel de Literatura volta-se agora para o Velho Testamento, lá para o Gênesis, início de tudo. Recontando o texto bíblico à sua maneira, Saramago vai temperando a sua narrativa com fatos relevantes da Bíblia enxertados com passagens fictícias, para conferir-lhe aquela ironia e o gosto por romper velhas tradições, quer das estruturas sociais, quer das religiosas.
Saramago visivelmente faz de Caim a personagem preferida, não só pelo título com que nomeia a obra, mas pelo desenrolar da narrativa. Para ele Abel chega a merecer a morte. Vejam-se os textos abaixo:
1.
E houve o dia em que adão pôde comprar um pedaço de terra, chamar-lhe sua e levantar, encostada a uma colina, uma casa de toscos adobes, aí onde já poderiam nascer os seus três filhos, caim, abel e set, todos eles, no momento próprio das suas vidas, gatinhando entre a cozinha e o salão. E também entre a cozinha e o campo, porque os dois mais velhos, quando já cresciditos, com a ingénua astúcia da sua pouca idade, usavam de todos os pretextos válidos e menos válidos para que o pai os levasse consigo, montados no burro da família, para o seu local de trabalho.
Cedo se viu que as vocações dos dois pequenos não coincidiam. Enquanto Abel preferia a companhia das ovelhas e dos cordeiros, as alegrias de Caim iam todas para as enxadas, as forquilhas e as gadanhas, um, fadado para abrir caminho na pecuária, outro, para singrar na agricultura. Há que reconhecer que a distribuição da mão-de-obra doméstica era absolutamente satisfatória, uma vez que cobria por inteiro os dois mais importantes sectores da economia da época.
2.

Desde a mais tenra infância Caim e Abel haviam sido os melhores amigos, a um ponto tal que nem irmãos pareciam, aonde ia um, o outro ia também, e tudo faziam de comum acordo. O senhor os quis, o senhor os juntou, assim diziam na aldeia as mães ciumentas, e parecia certo. Até que um dia o futuro entendeu que já era hora de se apresentar. Abel tinha o seu gado, Caim o seu agro, e, como mandavam a tradição e a obrigação religiosa, ofereceram ao senhor as primícias do seu trabalho, queimando Abel a delicada carne de um cordeiro e Caim os produtos da terra, umas quantas espigas e sementes. Sucedeu então algo até hoje inexplicado. O fumo da carne oferecida por Abel subiu a direito até desaparecer no espaço infinito, sinal de que o senhor
aceitava o sacrifício e nele se comprazia, mas o fumo dos vegetais de Caim, cultivados com um amor pelo menos igual, não foi longe, dispersou-se logo ali, a pouca altura do solo, o que significava que o senhor o rejeitava sem qualquer contemplação. Inquieto, perplexo, Caim propôs a Abel que trocassem de lugar, podia ser que houvesse ali uma corrente de ar que fosse a causa do distúrbio, e assim fizeram, mas o resultado foi o mesmo. Estava claro, o senhor desdenhava Caim. Foi então que o verdadeiro carácter de Abel veio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se, perante o atónito e desconcertado Caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus. O infeliz Caim não teve outro remédio que engolir a afronta e voltar ao trabalho. A cena repetiu-se, invariável, durante uma semana, sempre um fumo que subia, sempre um fumo que podia tocar-se com a mão e logo se desfazia no ar. E sempre a falta de piedade de Abel, os dichotes de Abel, o desprezo de Abel.
3.

Um dia Caim pediu ao irmão que o acompanhasse a um vale próximo onde era voz corrente que se acoitava uma raposa e ali, com as suas próprias mãos, o matou a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado, portanto com aleivosa premeditacão. Foi nesse exacto momento, isto é, atrasada em relação aos acontecimentos, que a voz do senhor soou, e não só soou ela como apareceu ele. Tanto tempo sem dar notícias, e agora aqui estava, vestido como quando expulsou do jardim do éden os infelizes pais destes dois. Tem na cabeça a coroa tripla, a mão direita empunha o ceptro, um balandrau de rico tecido cobre-o da cabeça aos pés. Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e Caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

PROFESSOR JOÃO BAPTISTA COBBE – Depoimento de um aluno

João Baptista Cobbe em foto da formatura no curso de Direito da então Universidade do Paraná, nos anos 50.


1 Introdução

Inicialmente, digo que eu fui um dos felizardos meninos que passaram por suas aulas de Português e de Latim no Colégio Diocesano de Santa Cruz, em Castro - Paraná, nos famosos anos dourados de 1950.

Nos anos de 1940 e 1950, o Colégio Diocesano de Santa Cruz, em Castro, pertencente à Diocese de Ponta Grossa, era parâmetro de bom ensino e principalmente de boa educação em todo sudeste e sul do Brasil. Para ele, acorriam alunos de todo o interior e mesmo da capital de São Paulo, de Minas, do próprio Paraná, enfim de diferentes estados do Brasil. A maior parte desses alunos vinha como alunos internos, outros que tinham parentes, ou que se hospedavam em velhas pensões, ou em casas que alugavam quartos, permaneciam como externos.

Eu, vindo do interior do próprio município de Castro, de uma localidade chamada Cerrado do Guararema, permaneci como externo, inicialmente morando com uma família que havia morado no velho Cerrado e agora se encontrava com comércio estabelecido na cidade sede do município. Mais tarde, meus pais construíram uma pequena casa de madeira em uma vila da cidade, e passei a morar inicialmente com uma irmã e um primo, depois com meus próprios pais.

Foi assim que pude cursar o ginásio e o científico no famoso Colégio e ter o professor Cobbe como um dos principais educadores. Posso afirmar que ele era o preferido por toda a turma.

2 Professor João Baptista Cobbe

No início do mês de março de 1950, quando iniciaram as aulas no Colégio, aguardávamos no pátio, quando soou uma sirene. Formamos fila de acordo com a série. Nós, os novatos, éramos instruídos pelos inspetores, geralmente alunos internos que já cursavam o científico, e recebiam uma espécie de bolsa-escola, para colaborar com a disciplina do Colégio.

Quem veio ao topo da escadaria para receber a turma de calouros foi o Prof. Cobbe. Portanto, ele foi o meu primeiro professor do Ginásio e um dos principais pela minha vida toda. Foi com ele que aprendi a gostar ainda mais de Português e receber lições de Latim, que já me chamava a atenção quando na Igreja Matriz de Castro, lia num pórtico: Ego sum panis vitae. Havia outras inscrições, mas essa era a que mais me chamava a atenção.

Brincando pelo pátio do Colégio, fui aos poucos encontrando placas gravadas no cimento com inscrições, como Ad perpetuam rei memoriam e Ad majorem Dei gloriam. Depois, fiquei sabendo que era o Prof. Cobbe quem reproduzia aquelas frases . Ele estudara em Seminário do estado de Santa Catarina e lá aprendera a língua do Lácio e entrara em contato com tais frases.

As aulas continuavam, para mim, como um encantamento. Muitos dos colegas talvez não dessem o valor que eu dava, porque eu sabia o sacrifício que meus pais tão pobres faziam para me manter no curso ginasial. Por isso, muitos tentavam brincadeiras nas aulas, mas o Prof. Cobbe sem usar de nenhum método ríspido para evitar a indisciplina, conseguia de modo tranquilo dominar a turma e sempre prosseguir em suas aulas.

Terminamos o ginásio e já no curso científico não tivemos mais o Prof. Cobbe como nosso professor. Vieram outros competente e também amigos, como o seu colega Prof. Lourival Leite de Carvalho, que passou a dar para nós aulas de Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa. Completava-se, assim, a minha formação no que se poderia chamar um proto-curso de Letras.

Mais tarde, também me tornei professor e procurei fazer como fazia aquele que eu erigira como professor e mestre, sempre tranquilo, compreensivo, competente. Procurava seguir o seu exemplo. E fui cursar Letras, graduação, especialização, mestrado e doutorado, mas as raízes estavm firmes lá nas aulas do Prof. Cobbe.

2 Novos rumos profissionais de João Baptista Cobbe

O Prof. Cobbe foi para Curitiba terminar o seu curso de Direito, que já havia começado. Mais tarde, seria o grande advogado, o vereador da cidade de Castro e o exemplar Promotor de Justiça por várias comarcas do Paraná: Castro, Jaguariaíva, Piraí do Sul, Tibagi, Arapongas, Mallet, Cascavel e Curitiba.

Em consequência da sua atuação, várias homenagens foram-lhe prestadas por câmaras municipais das cidades por onde passara como Promotor ou em outra função pública. Em Cascavel, assumiu papel de destaque na sociedade da grande cidade que surgia na terra ainda poeirenta do oeste do estado. Foi o fundador e presidente do Automóvel Clube de Cascavel; sócio-fundador do Cascavel Country; presidente do Tuiuti Esporte Clube. Em Castro, sua terra natal, recebeu o título de Cidadão Benemérito.

Depois foi atuante administrador público. Foi superintendente do novo IPE – Instituto de Previdência e Assistência do Paraná, atualmente, hoje, embora em formato diferente, o Paraná-Previdência; diretor-presidente da Famepar - Fundação de Assistência aos Municípios do Paraná , assessor da vice-governança do Estado do Paraná – governo Jayme Canet Junior; assessor da Secretaria de Justiça – governo Ney Braga; secretário e desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná; diretor geral da Corregedoria da Justiça do Tribunal de Justiça Secretaria de Administração do Paraná, além de outros inúmeros cargos públicos de relevância funcional e política.

3 O reencontro com o Professor Cobbe

Inicialmente o reencontro se deu por telefone por intermédio de uma então minha aluna no curso de Letras na PUCPR. Acredito que tenh sido pelo início do ano de 1987. Em uma noite, recebi um telefonema. A pessoa identificou-se dizendo que ela e sua filha eram minhas alunas na PUCPR e que soube pelo marido, que ele me conhecera. Ela era esposa de João Baptista Cobbe. Naquela, noite, falei com ele rapidamente por telefone.

Logo depois, creio que ainda no mesmo ano de 1987, quando eu tratava do andamento de minha aposentadoria no magistério estadual, fui até a Secretaria de Administração, que então funcionava no Edifício projetado por Oscar Niemeyer, inicialmente para sede do Instituto de Educação do Paraná e que hoje foi integrado em um novo projeto que constitui o MON – Museu Oscar Niemeyer. Lá, fui recebido por João Baptista Cobbe, um dos assessores da Secretaria e que me atendeu com a solicitude própria de uma pessoa educada, interessada e competente.

4 Um reencontro atual com a memória de João Baptista Cobbe

Há poucos dias, em uma agência bancária, casualmente, encontrei-me com uma senhora que se apresentou e me lembrou que era Hilda Souza Cobbe, minha ex-aluna no curso de Letras, e agora viúva de João Baptista Cobbe. A notícia chocou-me. O velho professor, talvez o único que ainda vivia daqueles professores do Colégio Diocesano de Santa Cruz, de Castro, lá do início dos anos 50.

Comecei a indagar sobre o acontecimento e fiquei sabendo que já haviam se passado aproximadamente cinco meses da morte do nosso professor. Faleceu em 4 de abril deste ano de 2010. Estávamos a 10 de setembro. Viveu 85 anos férteis de trabalho, dedicação à profissão e aos cargos públicos que exerceu e principalmente à família. Deixa uma lacuna na vida dos amigos, uma perda inconsolável para famliares, uma saudade para todos nós que o conhecemos.

A vida, como sabemos, é assim. O poeta português Fernando Pessoa, na voz do heterônimo Ricardo Reis, avisa-nos:

Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia


Essa “Barca que não vem senão vazia” costuma levar da terra os bons. Virão outros, mas nenhum igual. Esses nunca serão como aqueles que partem e nos deixam todos órfãos de sua companhia.

5. Homenagem in memoriam

Em homenagem ao professor que me despertou para o Latim e para as línguas clássicas, esta homenagem. Que aqui fiquem gravadas algumas inscrições latinas de que tanto ele gostava:

- Que a sua vida tenha servido Ad maiorem Dei Gloriam.
- Como disse Cristo em suas últimas palavras na cruz: Consummatum est!
- Agora, que sua vida findou, que seu corpo Requiescat in pace.
- Em oração, peço ao bondoso Pai: Requiem aeternam dona eis, Domine.

Concluindo este depoimento, deixo, como minhas últimas palavras, o seguinte: graduei-me em Letras Clássicas – Bacharelato, em 1959 e Licenciatura, em 1960 e fiz Especialização em Literatura Brasileira em 1965, esses cursos na Universidade Federal do Paraná. Mais tarde, em 1979, completei o Mestrado em Teoria Literária na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Finalmente, doutorei-me em Letras, em 1983, na USP – Universidade de São Paulo, com estágio em Portugal, junto à Biblioteca Nacional de Lisboa.
Tudo isto para declarar que, com todos esses cursos, a origem, os fundamentos mais profundos do meu conhecimento da Língua Portuguesa e das Letras e também o amor ao estudo se encontram lá nos anos de 1950, no Colégio Diocesano de Santa Cruz, de Castro, nas aulas do Prof. Cobbe.



°°°

Alguns dados biográficos:
- João Batista Cobbe nasceu em Castro, em 24 de janeiro de 1925, filho de Marcemino Cobbe e Maria Rosa Nogaroli Cobbe. Cursou o primário no Colégio José e no Colégio Santa Cruz, ambos da cidade de Castro. Fez o curso ginasial no Seminário Arquidiocesano, em Brusque, Santa Catarina. O Seminário Arquidiocesano de Brusque é também conhecido por Seminário Nossa Senhora de Lourdes Azambuja-Brusque. Pertencia à Arquidiocese de Florianópolis.
João Baptista Cobbe frequentou o Seminário nos anos 40, quando era reitor o Pe. Afonso Nieheus. Depois, vieram outros, como o então padre Jaime de Barros Câmara, que mais tarde se tornaria o célebre Arcebispo do Rio de Janeiro, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
- João Baptista Coaabbe prestou o sercviço militar em Castro. Mais tarde, cursou Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
- Profissionalmente, devido à sua origem modesta, exerceu diversas atividades profissionais, desde trabalhador em obras, sacristão da Matriz de Castro, secretário do Colégio Diocesano de Santa Cruz. No magistério, foi professor de latim, português e história, no Ginásio. No jornalismo, foi colaborador do importante jornal da época na região, o Castro-Jornal.
- Bacharel em Direito, exerceu a profissão como advogado e foi aprovado em concurso público no Ministério Público. Em 1956, assumiu como Promotor de Justiça, cargo que exerceu em Castro, Jaguariaíva, Piraí do Sul, Tibagi, Arapongas, Mallet, Cascavel e Curitiba.
- Em Cascavel, de 1961 a 1973, exerceu o cargo de Promotor de Justiç e foi também professor de Direito Usual e Legislação Aplicada no Colégio Marista de Cascavel. Na sociedade da jovem cidade que brotava pujante no oeste do Paraná, exerceu diversos cargos de relevância social e cultural e esportiva.
- Em cargos públicos administrativos, já em Curitiba, atuou em vários órgãos, como governança do estado, secretarias, institutos e fundações estaduais e também no judiciário paranaense.

Faleceu em paz ao lado de seus familiares, no dia 4 de abril de 2010.

sábado, 11 de setembro de 2010

MEU CARO CHICO Texto de Paulo Camargo

Ilustração: Felipe Lima
Meu caro Chico
“As dezenas, senão centenas de músicas que conheço de cor e salteado, têm o superpoder de me devolver a mim. E isso não tem preço.”

Publicado em 11/09/2010 pcamargo@gazetadopovo.com.br

A idolatria costuma estar associada à adolescência. Adultos, quando nutrem uma paixão tão intensa por alguém fora de seu alcance, correm o risco de parecer pueris, em descompasso com a idade que têm.
Mesmo assim, não são poucos os que carregam essa pulsão dos verdes anos à maturidade. Talvez porque seja uma forma de nos reconectarmos com instâncias menos cínicas. E assim, resgatar um pouco daquilo que um dia fomos e, de certa forma, mantemos engavetado em nome da dita maturidade.
Com o lançamento, pela editora Abril, de uma caprichada coleção que inclui quase toda a discografia oficial de Chico Buarque, em formato de CDs acompanhados de livretos, vi-me frente a um dilema dos mais prosaicos: comprar ou não discos que, em sua grande maioria, já tenho, à medida que chegam todas as semanas às bancas e livrarias. Existe o desejo, confesso, mas também o pé no freio, a cabeça que diz: “Não, bobagem”.
Esse conflito, aparentemente tolo, me fez pensar sobre por que gosto tanto do Chico. E, depois de enumerar vários motivos, todos muito racionais – como a qualidade e a importância histórica das composições e a riqueza poética das letras –, caiu a ficha.
As dezenas, senão centenas de músicas que conheço de cor e salteado, têm o superpoder de me devolver a mim. E isso não tem preço.
Quando ouço, por exemplo, pérolas como “O Que Será (À Flor da Terra)”, “Passaredo” ou “A Noiva da Cidade”, me vejo aos 11, 12 anos, contando os cruzeiros para comprar Meus Caros Amigos na filial da rede Rei do Disco em um velho shopping de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Não tinha ideia, pelo menos não à primeira audição em uma radiola Grundig, que a letra de “Meu Caro Amigo”, composta em parceria com Francis Hime, falava do Brasil sob a bota do governo militar.
Foram necessárias algumas aulas de Português e História com professores veladamente “subversivos” para compreender o que queriam expressar versos como “Meu caro amigo me perdoe, por favor/ Se eu não lhe faço uma visita/ Mas como agora apareceu um portador/ Mando notícias nessa fita/ Aqui na terra tão jogando futebol/ Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll/ Uns dias chove, noutros dias bate sol/ Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”.
Lembro-me do momento da revelação, o instante em que percebi que, por trás do delicioso samba de Chico e Francis, escondia-se amarga ironia. A letra era uma mensagem melancólica a amigos que (como o próprio Chico) tiveram de tirar o time de campo e deixar do país por estarem na mira da ditadura.
A idolatria, que aqui assumo sem pudores de jornalista cultural, está muito ligada à sensação, desengavetada nos últimos dias, de que ouvir Chico Buarque sempre foi, e ainda é, uma experiência estética. Algo que fratura minha rotina, de horários, obrigações, deveres e responsabilidades, e me recoloca em contato com territórios mais sensíveis.
Muitas de suas canções me provaram ao longo dos últimos 30 anos, por mais que o cotidiano por vezes me force a esquecer, que sou capaz de pensar e sentir ao mesmo tempo. São pedaços de mim.
E lá vou eu comprar a coleção da Abril.


(Paulo Camargo é editor do Caderno G. do jornal Gazeta do Povo.)
(CAMARGO, Paulo. Meu Caro Chico. Gazeta do Povo, Caderno G Idéias, 11.set.2010, p.5.)
.
Faço meu o texto de Paulo Camargo.
Acabo de resolver também o meu dilema. Vou correr a um shopping comprar a nova coleção.
.
Jayme Ferreira Bueno

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A POESIA DE JOSÉ SARAMAGO

José Saramago - (1922 - 2010), escritor português, prêmio Nobel de Literatura de 1988 tornou-se conhecidíssimo por sua obra em prosa, principalmente por seus romances. Pouco se fala dele, porém, como poeta e pensador. Valoriza-se bastante também na sua biografia a ação política que desenvolveu, sempre muito polêmica e utópica, principalmente por ter abraçado o Comunismo num país bastante tradicionalista e extremamente católico.
Aqui apenas daremos uma apagada ideia do pensador e do poeta Saramago.
1. Pensamentos de Saramago
Como em tudo que fazia, José Saramago se mostra em suas frases e pensamentos o crítico agudo, o homem de extrema lucidez, uma espécie de iluminado da palavra. Como autêntico vate, antecipa, como que vaticina, acontecimentos, como fez com a sua própria morte.
A seleção dos três pensamentos seguintes baseou-se no gosto pelos temas líricos, talvez até bastante platônico. Aliás, platônico se mostra José Saramago em seus pensamentos e em muitos de seus poemas.
1.Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.
2.Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos?
3.O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio.

Alguém poderá obstar: são pensamentos comuns, qualquer um poderia ter pronunciado frases como essas. É verdade, mas quem disse foi José Saramago. Ele, que, muito conscientemente, também disse:
strong>Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão, aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala.
2. A poesia de Saramago
O crítico que, ao avaliar a poesia de Saramago, afirmou que no gênero ele não estaria atualizado, pois, entre 1966 e 1975, já se escrevia em Portugal uma outra poesia, ou não percebeu, ou não valorizou que exatamente esse andar sozinho é que o tornava diferente, grande, original. O crítico justifica: : “Em comparação com o que um Ernesto de Melo e Castro, um Helberto Hélder, um Cesariny, ou mesmo os jovens saídos da “poesia 61” então publicavam ou teriam publicado nos últimos tempos, não se poderia afirmar que a produção poética de Saramago estivesse propriamente muito atualizada”.
(LOPES, João Marques. Saramago: biografia. São Paulo: Leya, 2010, p. 53).
Pode-se, em contrapartida, indagar, mesmo sem querer tirar ou diminuir a importância desses poetas e desse jovem movimento, se a poesia que produziram foi a melhor que então se fez em Portugal?.
Saramago, em alguns depoimentos se confessa admirador de José Régio e, talvez, por ele influenciado. Lembramos que Régio escreveu no poema Cântico Negro do livro Poemas de Deus e do Diabo (1925):
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Saramago jamais foi ou se mostrou um seguidor. Pelo contrário, foi sempre um autêntico inventor de mitos. Intuitivamente, seguia o que disseram os latinos: “Non ducor, duco”. De fato, Saramago não nasceu para ser conduzido, mas para conduzir. A obra poética que publicou compreende três livros:
1.Os poemas possíveis, 1966;
2.Provavelmente alegria, 1970;
3.O ano de 1993, 1975.
Há também um volume bilingue (português e italiano) de seus poemas.
Poemas:
A seleção dos nove poemas que seguem também se baseou no gosto pessoal. Procurou-se encontrar três poemas metapoéticos; outros três, mais voltados ao existencial; e finalmente três, de ordem lírica:

I série – temática: a poesia ou o poeta
1. Retrato do poeta quando jovem
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
2. Forja.
Forja o poema, e ruivo ardente
O metal duro da rima fragorosa,
Quero o corpo suado, incandescente,
Na bigorna sonora e corajosa,
E que a obra saída desta forja
Seja simples e fresca como a rosa
3. Eloquencia
Um verso que não diga por palavras,
Ou se palavras tem, que nada exprimam:
Uma linha no ar, um gesto breve
Que, num silêncio fundo, me resuma
A vontade que quer, a mão que escreve.

II série – Temática: existencial
1. Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
2. Não me Peçam Razões...
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
3. No Coração, Talvez
No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.

III – Temática: lírico-amorosa
1. Aprendamos, Amor
Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
2. Intimidade
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
De violetas se cobre…
De violetas se cobre o chão que pisas,
De aromas de nardo o ar assombra:
Nestas recurvas áleas, indecisas,
Olho o céu onde passa a tua sombra.
3. Declaração
Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto seta o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadencia do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.