sexta-feira, 9 de abril de 2010

SOBRE O HAICAI

Em um ensaio sobre o hai-kai, o pensador e literato Octavio Paz escreve:
“De um ponto de vista formal, o hai-kai divide-se em duas partes. Uma, da condição geral e da situação temporal e espacial do poema (outono ou primavera, meio-dia ou entardecer, uma árvore ou uma pedra, a lua ou um rouxinol); outra, relampejante, deve conter um elemento ativo. Uma descritiva e quase enunciativa; a outra, inesperada. A percepção poética surge do choque entre ambas. A índole mesma do hai-kai é favorável a um humor seco, nada sentimental, e aos jogos de palavras, onomatopéias e aliterações, recursos constantes de Bashô, como também de seus continuadores, Buson e Issa. Arte anti-intelectual, sempre concreta e anti-literária, o hai-kai é uma pequena cápsula carregada de poesia capaz de fazer saltar a realidade aparente. Um poema de Bashô - que tem resistido a todas as traduções e que dou aqui numa inepta versão - talvez esclareça o que quero dizer:

Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.
”


Esse hai-kai de Bashô, mestre dos haicaístas japoneses, é considerado paradigma do pensamento e do modo de poetar dos nipônicos. Estudado, traduzido e adaptado por diferentes poetas, tem sido divulgado por ensaístas do mundo todo, atraídos que foram pela beleza do poema e pela sensação do inesperado que ele nos causa.



(Foto - SUELY SHIBA)

Seguem algumas traduções ou adaptações:

Inicialmente, apresenta-se o mais famoso hai-kai de Bashô, em tradução literal da língua japonesa pelo escritor, poeta e pensador mexicano, prêmio Nobel de Literatura, Octavio Paz. Aqui, o poema aparece em versão do espanhol para o português de Olga Savary:

Sobre o tanque morto
Um ruído de rã
Submergindo


Em seguida, publicam-se traduções ou adaptações de vários haicaístas, uns poetas famposos, outros meros curiosos, como eu próprio:

1.Tradução de Cecília Meirelles:

Velho tanque
Uma rã mergulha
Barulho da água

2.Tradução de Paulo Leminski:

Velha lagoa
o sapo salta
o som da água


3.Tradução de Olga Savary

Ah, o velho lago.
De repente a rã no ar
e o baque na água


4.Tradução de Décio Pignatari:

VELHA LAGOA
UMA RÃ MERGULHA
UMA RÃ ÁGUÁGUA


5.Tradução de Paulo Franchetti e Elza Dói:

O velho tanque
Uma rã mergulha,
Barulho de água


6.Tradução de Estrela Ruiz Leminski:

Chuá, chuá
coach, coach
tchibum!


7.Adaptação de Jayme Bueno (eu não saberia traduzir do original):

Sobre águas paradas
A rã paira no espaço
as patas geladas


8.Adaptação - Jayme Bueno (eu não saberia traduzir do original):

Suspensa no espaço
Plástica a rã sobre as águas
Busca o seu regaço

sábado, 3 de abril de 2010

SOBRE O HAICAI - ENSAIO DE OCTAVIO PAZ

Publicado por Massao Ohno/Roswitha Kempf, 1980

É um lugar comum dizer que a primeira impressão que produz qualquer contato, ainda que o mais distraído e casual, com a cultura do Japão é a estranheza. Só que, ao contrário do que se pensa geralmente, este sentimento não provém tanto de nos sentirmos diante de um mundo di¬ferente quanto de nos darmos conta de que estamos dian¬te de um universo auto-suficiente e fechado sobre si mesmo. Organismo ao qual não falta nada, como essas plantas do deserto que segregam seu próprio alimento, o Japão vive de sua própria substância. Poucos povos criaram um estilo de vida tão inconfundível. E, no entanto, muitas das instituições japonesas são de origem estrangeira. A moral e a filosofia política de Confúcio, a mística de Chuang-Tseu, a etiqueta e a caligrafia, a poesia de Po-Chu-i e o Livro da piedade filial, a arquitetura, a escultura e a pintura dos Tang e dos Sung, modelaram os japoneses durante séculos. Graças a esta influência chinesa, o Japão conheceu também as especulações de Nagarjuna e outros grandes metafísicos do budismo Mahayana e as técnicas de meditação dos hindus.
A importância e o número de elementos chineses - ou previamente passados pelo crivo da China – não impedem e até acentuam o caráter único e singular da cultura japonesa. Várias razões explicam esta aparente anomalia. Em primeiro lugar, a absorção foi muita lenta: inicia-se nos primeiros séculos da era cristã e não termina senão quando se adentra na época moderna. Em segundo lugar, não se trata de uma influência sofrida, mas sim livremente escolhida. Os chineses não levaram sua cultura ao Japão; tampouco, exceto durante as malogradas invasões mongólicas, quiseram impô-la pela força. Os próprios japoneses enviaram embaixadores e estudantes, monges e mercadores à Coréia e à China para que estudassem e comprassem livros e obras de arte ou para que contratassem artesãos, professores e filósofos. Assim, a influência exterior jamais pôs em perigo o estilo de vida nacional. E cada vez que apareceu um conflito entre o próprio e o alheio, encontrou-se uma solução feliz, como no caso do budismo, que pode conviver com o culto nativo. A admiração que os japoneses sempre professaram pela cultura chinesa, não os levou à imitação suicida nem a desnaturalizar suas próprias inclinações. A única exceção foi, e continua sendo, a escrita. Nada mais alheio à índole da língua japonesa que o sistema ideográfico dos chineses; e ainda nisto encontrou-se um método que combina a escrita fonética com a ideográfica e que talvez torne desnecessária essa reforma que é pregada por muitos estrangeiros com mais apressuramento que bom senso.
A literatura é o exemplo mais alto da naturalidade com que os elementos próprios conseguiram triunfar sobre os modelos estranhos. A poesia, o teatro e o romance são criações realmente japonesas. Apesar da influência dos clássicos chineses, a poesia nunca perdeu, nem nos momentos de maior debilidade, essas características - brevidade, clareza do desenho, mágica condensação - que a situam, precisamente, no extremo contrário da chinesa. Pode-se dizer o mesmo do teatro e do romance. Em troca, a especulação filosófica, o pensamento puro, o poema longo e a história não parecem ser gêneros propícios ao gênio japonês.
No início do século V é introduzida oficialmente a escrita sínica. Pouco depois, em 760, aparece a primeira antologia japonesa, o Manyoshu ou Coleção das dez mil folhas. Trata-se de uma obra de rara perfeição, da qual estão ausentes os titubeios de uma língua que se busca.
A poesia japonesa inicia-se com um fruto de maturidade. Para encontrar acentos mais espontâneos e populares, é preciso esperar até Bashô. No final do século VIII a Corte Imperial se translada de Nara para Heian-Kio (a atual Kioto). Como a antiga capital, a nova foi traçada conforme o modelo da dinastia chinesa então reinante. Na primeira parte desse período acentua-se a influência chinesa, mas desde o princípio do século X a arte e a literatura produzem algumas de suas obras clássicas. Trata-se de uma época de brilho excepcional, da qual temos dois documentos extraordinários: um diário e um romance. Ambos são obras de duas damas da Corte: as senhoras Murasaki Shikubi e Sei-Shonagon.
Bashô e o hai-kai
A poesia japonesa não conhece a rima nem a versificação acentual e seu recurso principal, como ocorre com a poesia francesa, é a medida silábica. Essa limitação não é uma pobreza, pois o japonês é rico em onomatopéias, aliterações e jogos de palavras que são também combinações insólitas de sons. Todo poema japonês está composto por versos de sete e cinco sílabas. A forma clássica consiste em um poema curto - waka ou tanka - de trinta e uma sílabas, dividido em duas estrofes: a primeira de três versos (5, 7 e 5 sílabas) e a segunda de dois (ambos de 7 síla¬bas). A própria estrutura do poema permitiu, desde o princípio, que dois poetas participassem na criação de um poema: um escrevia as três primeiras linhas e o outro as duas últimas. Logo, em lugar de um só poema, começaram a escrever séries inteiras, ligados tenuemente pelo tema da estação. Estas séries de poemas em cadeia foram chamadas renga ou renku. O gênero leve, cômico ou epigramático foi chamado de renga hai-kai e o poema inicial, hokku. Bashô praticou com seus discípulos e amigos,dando-lhe novo sentido, a arte do renga hai-kai ou cadeia de poemas, antecipando-se assim à profecia de Lautréamont e a uma das tentativas do surrealismo: a criação poética coletiva.
O poema solto, desprendido do renga hai-kai, começou a ser chamado haiku, palavra composta de hai¬kai e hokku. Um haiku é um poema de 17 sílabas e três versos: 5, 7 e 5. Bashô não inventou esta forma. Tampouco a alterou. Simplesmente transformou seu sentido. Quando começou a escrever, a poesia tinha se convertido num passatempo: poema queria dizer poesia cômica, epigrama ou jogo de sociedade. Bashô recolhe esta nova linguagem coloquial e com ela busca o mesmo que os antigos: o instante poético. O haiku converte-se na anotação rápida, verdadeira recriação, de um momento privilegiado: exclamação poética, caligrafia, pintura e escola de meditação, tudo junto. Discípulo do monge Buccho - e ele mesmo meio ermitão que alterna poesia com meditação - o haiku de Bashô é exercício espiritual. A filosofia zen-budista reaparece em sua obra como reconquista do instante. Ou melhor, como abolição do instante. E provavelmente o gênio de Bashô esteja em ter descoberto que, apesar de sua aparente simplicidade, o haiku (ou hai-kai) é um organismo poético muito complexo. Sua própria brevidade obriga o poeta a significar muito dizendo o mínimo.
De um ponto de vista formal, o hai-kai divide-se em duas partes. Uma, da condição geral e da situação temporal e espacial do poema (outono ou primavera, meio-dia ou entardecer, uma árvore ou uma pedra, a lua ou um rouxinol); outra, relampejante, deve conter um elemento ativo. Uma descritiva e quase enunciativa; a outra, inesperada. A percepção poética surge do choque entre ambas. A índole mesma do hai-kai é favorável a um humor seco, nada sentimental, e aos jogos de palavras, onomatopéias e aliterações, recursos constantes de Bashô, como também de seus continuadores, Buson e Issa. Arte anti-intelectual, sempre concreta e anti-literária, o hai-kai é uma pequena cápsula carregada de poesia capaz de fazer saltar a realidade aparente. Um poema de Bashô - que tem resistido a todas as traduções e que dou aqui numa inepta versão - talvez esclareça o que quero dizer:
Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.
Assim nos deparamos com uma quase prosaica enunciação de fatos: o tanque, o salto da rã, o ruído da água. Nada menos “poético”: palavras comuns e um fato insignificante. Bashô nos deus simples esboços, como se nos mostrasse com o dedo duas ou três realidades desconexas que, no entanto, têm um “sentido” que cabe a nós descobrir. O leitor deve recriar o poema. Na primeira linha encontramos o elemento passivo: o tanque morto e seu silêncio. Na segunda, a surpresa do salto da rã que rompe a quietude. Do encontro destes dois elementos deve brotar a iluminação poética. E esta iluminação consiste em voltar ao silêncio do qual partiu o poema, só que agora carregado de significação. A maneira da água que se expande em círculos concêntricos, nossa consciência deve expandir-se em ondas sucessivas de associações. O pequeno hai-kai é um mundo de ressonância, ecos e correspondências:
Trégua de vidro:
o canto da cigarra
perfura rochas.
A paisagem não pode ser mais nítida. Meio-dia num lugar deserto: o sol e as pedras. A única coisa viva no ar seco é o rumor das cigarras. Há um grande silêncio. Tudo está quieto e nos coloca diante de algo que não podemos nomear. A natureza se apresenta para nós como algo concreto e, ao mesmo tempo, inaceitável, que rechaça qualquer compreensão. O canto das cigarras se funde como calar das rochas. E nós também ficamos paralisados e, literalmente, petrificados. O hai-kai é satori.
O mar já escuro:
os gritos dos patos
apenas brancos.

Aqui predomina a imagem visual: o branco brilha debilmente sobre o dorso escuro do mar. Porém não é a plumagem dos patos nem a crista das ondas mas, sim, os gritos dos pássaros o que, estranhamente, é branco para o poeta. Em geral, Bashô prefere alusões mais sutis e contrastes mais velados:
Este caminho
ninguém já o percorre,
salvo o crepúsculo.
O hai-kai não é somente poesia escrita - ou, mais exatamente, desenhada - mas sim poesia vivida, experiência poética recriada. Com imensa delicadeza, Bashô não nos diz tudo: limita-se a nos entregar alguns elementos, o suficiente para acender -a chispa. É um convite à viagem, uma viagem que devemos fazer com nossas próprias pernas, como ele mesmo diz.
Os diários de viagem são um gênero muito popular na literatura japonesa. Bashô escreveu cinco diários de viagem, cadernos de esboços, impressões e apontamentos. Estes diários são exemplos perfeitos de um gênero em voga na época de Bashô e do qual ele é um dos grandes mestres: o haibun, texto em prosa que rodeia, como se fossem pequenas ilhas, os hai-kais. Poemas e paisagens em prosa se completam e reciprocamente se iluminam. O melhor desses diários, segundo a opinião geral, é o famoso Oku¬no-Hoso-Michi (Sendas de Oku). Neste pequeno caderno, feito de velozes desenhos verbais e súbitas alusões - signos de inteligência que o autor troca com o leitor – a poesia se mistura à reflexão, o humor à melancolia, a anedota à contemplação. É difícil ler um livro, e mais ainda quando quase todo seu sabor perdeu-se na tradução, que não nos ofereça apoio algum e que se desenvolva, como uma sucessão de paisagens. Talvez seja preciso lê-lo como se olha o campo: sem prestar muita atenção ao princípio, percorrendo com olhar distraído a colina, as árvores, o céu e suas nuvens, as pedras... Súbito nos detemos diante de uma pedra qualquer, da qual não podemos apartar a vista e então conversamos, por um instante sem medida, com as coisas que nos rodeiam. Neste livro de Bashô não acontece nada, salvo o sol, a chuva, as nuvens, algumas cortesãs, uma menina, outros viajantes. Não acontece nada, exceto a vida e a morte:
É primavera:
a colina sem nome
por entre a névoa.

A idéia da viagem - uma viagem das nuvens desta existência em direção às nuvens da outra - está presente em toda a obra de Bashô.De uma forma voluntariamente anti-heróica, a poesia de Bashô nos chama para uma aventura verdadeiramente importante: a de nos perdermos no cotidiano para encontrar o maravilhoso. Viagem imóvel, ao término da qual nos encontramos conosco mesmo: o maravilhoso é nossa verdade humana. Em três versos o poeta insinua o sentido deste encontro:
Um relâmpago
e o grito da garça
perdido no escuro.
O grito do pássaro funde-se com o relâmpago e ambos desaparecem na noite. Um símbolo da morte? A poesia de Bashô não é simbólica. A noite é a noite e nada mais. Ao mesmo tempo, é algo mais que a noite, porém um algo que, rebelde à definição, recusa-se a ser nomeado. Se o poeta o nomeasse, se evaporaria. Não é o rosto escondido da realidade; ao contrário, é seu rosto de todos os dias... e é aquilo que não está em rosto algum. O hai¬kai é uma crítica da realidade. Em toda realidade existe algo mais do que aquilo que chamamos realidade. Simultaneamente, é uma critica da linguagem:
Admirável
aquele que diante do relâmpago
não diz: a vida foge.

Crítica do lugar-comum, mas também crítica à nossa pretensão de identificar o significar e o dizer. A linguagem tende a dar sentido a tudo o que vemos e uma das missões do poeta é fazer a crítica do sentido. E fazê-la com as palavras, instrumentos e veículos do sentido. Se dizemos que a vida é curta como o relâmpago, não só repetimos um lugar-comum como também atentamos contra a originalidade da vida, contra aquilo que efetivamente a faz única. A verdade original da vida é sua vivacidade e essa vivacidade é consequência de ser mortal, finita: a vida está tecida de morte. Porém, ao dizer isso, convertemos em dois conceitos, vida e morte, a vivaz e fúnebre unidade vida-morte. Há uma linguagem que diga essa unidade sem dizê-la? Há, o hai-kai: uma palavra que é a crítica da realidade, uma realidade que é a burla oblíqua do significado. O hai-kai de Bashô nos abre as portas de satori: sentido e falta de sentido, vida e morte, coexistem. Não é tanto a anulação dos contrários nem sua fusão como uma suspensão do ânimo. Instante da exclamação ou do sorriso: a poesia já não se distingue da vida, a realidade reabsorve a significação. A vida não é nem longa nem curta mas é como o relâmpago de Bashô. Esse relâmpago não nos avisa de nossa mortalidade; sua mesma intensidade de luz, semelhante à intensidade verbal do poema, nos diz que o homem não é unicamente escravo do tempo e da morte, mas que, dentro de si, leva outro tempo. E a visão instantânea desse outro tempo chama-se poesia - crítica da linguagem e da realidade, crítica do tempo. A subversão do sentido produz uma reversão do tempo: o instante do hai-kai é incomensurável. A poesia de Bashô - esse homem frugal e pobre que escreveu já entrado em anos e que perambulou por todo o Japão dormindo em ermidas e pousada populares, esse reconcentrado que contemplava longamente uma árvore e um corvo sobre a árvore, o brilho da luz sobre uma pedra, esse poeta que depois de remendar suas roupas surradas lia os clássicos chineses, esse silencioso que falava nos caminhos com os lavradores e as prostitutas, os monges e as crianças - é algo mais que uma obra literária. E um convite para viver verdadeiramente a vida e a poesia. Duas realidades inseparáveis e que, no entanto, jamais se fundem inteiramente: o grito do pássaro e a luz do relâmpago.


sábado, 19 de dezembro de 2009

CRISTOVÃO TEZZA - UMA CRÔNICA: ZELIG À BRASILEIRA

1. Cristovão Tezza

Cristovão Tezza, o professor, o intelectual.
Tezza, o preocupado torcedor do Clube Atlético Paranaense

O paranense nascido em Santa Catarina, é, hoje, um dos grandes escritores brasileiros e inclusive reconhecido no mundo, principalmente depois de ter suas obras traduzidas e publicadas em vários países da Europa. Personalidade versátil e bastante jovem, já foi um pouco de tudo na vida: ator de teatro; aluno da Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante; relojoeiro; viajante meio clandestino pela Europa depois de não poder seguir o curso de Letras em Coimbra pelo acontecimento histórico português, a Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974; Professor de Língua Portuguesa na Unaiversidade Federal de Santa Catarina; depois, professor na Universidade Federal do Paraná.
Desta última, recentemente solicitou demissão como nos conta na crônica Adeus às Aulas:
"Se é verdade que um bom texto é aquele capaz de transformar a vida, acabo de escrever uma obra-prima. Quem me conhece sabe que não sou de alardear minhas poucas e ralas qualidades, mas dessa vez não resisto ao impulso cabotino. Pois as cinco linhas que redigi, enxutas e precisas, atentas à força da tradição e com um toque tranquilo de modernidade, têm (modéstia à parte) essa perfeição transformadora. Em suma: pedi demissão da Universidade em que dou aulas há 24 anos. O requerimento ganhará alguns carimbos, duas ou três rubricas, rolará pelos escaninhos e em breve estarei livre co­­mo um pássaro".
Como escritor, é ensaísta, co-autor de livros didáticos, poeta, contista, romancista. Depois dos quatro livros iniciais, começou a ser conhecido nacionalmente com o romance Trapo, de 1988. Desde então destaca-se como grande romancista, principalmente com O Filho Eterno, de 2007. Foi com este livro que Tezza alcançou dimensão verdadeiramente internacional. A obra foi publicada em Portugal, na França, Itália, Holanda e na Espanha, em língua catalã. Em breve, o romance sairá na Austrália e na Nova Zelândia.
É um grande colecionador de Prêmios: Prêmio Petrobrás de Literatura, 1989, com Aventuras Provisórias; Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (melhor romance do ano), 1998, com Breve Espaço entre a Cor e a Sombra; Prêmio da Academia Brasileira de Letras de melhor romance do ano e o Prêmio Bravo! de melhor obra, 2004, com O Fotógrafo. Com o último romance O Filho Eterno, recebeu: Prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor obra de ficção do ano; em 2008, recebeu os prêmios Jabuti de melhor romance e o Prêmio Bravo! de melhor obra; Prêmio Portugal-Telecom de Literatura em Língua Portuguesa (1.º lugar) e Prêmio São Paulo de Literatura, melhor livro do ano; em 2009,recebeu o prêmio Zaffari & Bourbon, da Jornada Literária de Passo Fundo, como o melhor livro dos últimos dois anos.
É autor de textos, principalmente crônicas, para vários periódicos: revista Veja; jornal Folha de S.Paulo; Caderno Ilustrado, da mesma Folha de S. Paulo; e O Estado de São Paulo. Como um dos cronistas do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, tem publicado semanalmente crônicas fundamentais para o jornalismo e para a literatura.
Concluindo esta breve notícia sobre o homem, o escritor e o ex - mas eterno professor - Cristovão Tezza, reproduzo o comentário da blogueira Camila Batista, também atleticana, como se confessa: "Io sono atleticana, insegnante d'inglese, correttore di bozze e persona normale nel mio tempo libero": "Quem foi aluno do Tezza, foi; quem não foi não será mais: - 15th Dec, 2009", o que será uma grande pena! Mas, com certeza, perde-se, formalmente, um professor do ensino superior, mas, com certeza, ganha-se um escritor ainda maior e, assim, eterno professor de literatura e de vida.

2. Uma crônica: Zelig à Brasileira
Lula me lembra Zelig, o hilariante personagem do filme homônimo de Woody Allen, que vai se transformando fisicamente diante dos outros, para ficar parecido com eles. Como no “documentário” sobre Zelig, o tempo todo vemos nosso herói sorrindo com Obama na Casa Branca, falando sério em Copenhague, altissonante no Mercosul, companheiro na Bolívia, nobre em Buckingham, comunista em Cuba, católico no Vaticano e por aí vai. Segundo a tradição miscigenante da cultura brasileira, Lula, como Zelig, transforma-se camaleônico no que for preciso de modo a ficar sempre no mesmo lugar – é uma “metamorfose ambulante”, como ele mesmo se definiu. Na lógica astuta do país, tudo se rege por um senso perpétuo de amortecimento de conflitos e adequação biológica ao meio ambiente.
Seu governo é a expressão de nada; o herói carismático vê-se carregado nos ombros da mais azeitada e obediente máquina partidária do Brasil moderno, que funde um projeto messiânico-revolucionário com a burocracia democrática colocada a seu serviço, a cada dia mais esvaziada politicamente. A única ideologia que resta é uma política externa esfarrapada que dá tapinhas nas costas de Ahmadinejad e ruge furioso contra a eleição de Honduras, que poderia, pela simples força do bom-senso, recolocá-la nos trilhos; que devolve em poucas horas à ditadura cubana dois atletas fugitivos e resiste tenazmente a extraditar para a Itália alguém condenado por crimes comuns num Estado de Direito. Fala em “pragmatismo” e perde todas as eleições em que se mete nos fóruns internacionais, enquanto ri na fotografia.
O imenso Brasil popular que veio à tona por força do Plano Real e do otimismo econômico dos anos 90 parece ter encontrado em Zelig o seu mantra político-religioso. O que fazer com o povo brasileiro que, súbito, está nas ruas, de celular na mão direita e tacape na esquerda? Nada a estranhar nos maços de dinheiro enfiados em cuecas e bolsos do DEM e do PT, abençoados por rezas compungidas de ladrões sinceros – como Lula se apressou a dizer, são cenas “que não falam por si”. Afinal, o país de maior mobilidade social do mundo é também o único em que um deputado fraudando um painel de um Congresso Nacional vai se tornar em pouco tempo, inocente, governador do Distrito Federal.
Nada melhorou em nenhuma área. A educação básica patina nos seus piores índices de sempre – enquanto abrem-se dezenas de universidades federais prontas a ocupar o rabagésimo lugar de relevância sob qualquer critério. A lógica que nos arrasta é a da mendicância e a do pátio dos milagres – empresários mendigos, políticos mendigos e povo mendigo, esperando de boca aberta e mão espalmada o sorriso de Silvio Santos a jogar dinheiro na plateia. Faltava um bom ator para o papel – o próprio Silvio Santos até que tentou, mas levou uma rasteira jurídica mais esperta ainda na alvorada de Collor. Agora, Lula é o cara.
(Gazeta do Povo, 15/12/09, p. 3 - contato@cristovaotezza.com.br)

3. Comentário
Comentar é totalmente desnecessário. Aí está um retrato vivo do que vivemos. Temos um líder mundial, "o cara"!... mas quem ganha o Prêmio Nobel da Paz é outro, "the man"!... temos um defensor do meio ambiente... que exige sejam as despesas pagas pelos outros países, como se mandasse no mundo! (chega a lembrar Carlitos, em O Grande Ditador, a dar piparotes em um grande balão com o mapa-mundi); antes, tínhamos exames - ENC, ENEM - exemplos para o mundo em termos de avaliação educacional, hoje esses exames são fraudados, anulados, desprezados por alunos e universidades, tudo por incompetência de técnicos elevados a altos cargos por força da Carteirinha do PT.
Diz-se popularmente que "não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar". O povo brasileiro jamais será pescador! Para quê? Recebe as mais estranhas bolsas para não ter que trabalhar, nem mandar seus filhos à escola. Estudar? Com que finalidade, se há outros critérios para ingressar em uma Universidade, que não é o da competência? E para vencer na vida?
O Silvio Santos com suas histrionices - histrionice, no sentido original do termo - é mais correto no proceder. Distribui dinheiro claramente à frente das câmeras da sua rede de TV criada e mantida pelo tino comercial do eterno camelô que foi e que deseja continuar a ser. Sorri satisfeito pela migalha que distribui a quem vai até a um auditório em procura do pequeno óbulo. E o que dizer do governante que só repete que "não sabe de nada"?
Parabéns, Tezza, por cumprir com sua arte a função social de formador de opinião! Abrir os olhos do povo é preciso! Viver nas trevas da ignorância não é preciso! (Homenagem a navegadores antigos e a Fernando Pessoa).

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

NEUZA APARECIDA RAMOS – Uma Enfermeira a Serviço da Educação


1. Neuza Aparecida Ramos: a trajetória de uma enfermeira

O convívio na Universidade Católica do Paraná, mais tarde Pontifícia Universidade
Ao longo do exercício do magistério superior, tive a oportunidade de conviver com educadores das mais diversas áreas do conhecimento. Uma educadora que sempre esteve presente na luta pelo ensino e pela formação de profissionais competentes e com consciência social foi a Enfermeira Neuza Aparecida Ramos.
Participamos juntos ou em paralelo de diversos projetos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR por mais de três décadas. Trabalhamos na criação de cursos; em comissões da carreira docente; em bancas examinadoras de concursos de professores; em exames seletivos de estudantes; em análises de documentos dos Conselhos Superiores da Instituição; na Pró-Reitoria de Graduação, quando ela exerceu o cargo de Pró-Reitora; enfim em atividades acadêmicas e de assessoria à Reitoria da PUCPR.
Na Universidade Católica, ela exerceu a direção do curso de Enfermagem; a vice-direção do CCBS - Centro de Ciências Biológicas e da Saúde; Pró-Reitora; Diretora da Biblioteca, dentre outros elevados cargos universitários. Cursou o Mestrado em Educação, no qual a conheci como aluna dedicada e consciente daquela forma de aperfeiçoamento universitário e profissional. A professora Neuza sempre foi referência como pessoa, docente, profissional e gestora da Educação.
Por essas e outras qualidades, recentemente Neuza Aparecida Ramos recebeu honroso convite de uma sua ex-aluna, Juliana Rodrigues, doutoranda em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – USP, para depoimento sobre a trajetória como Enfermeira. Suas declarações passaram a fazer parte de um trabalho acadêmico para o curso de doutorado em Enfermagem, na Universidade de São Paulo. O texto foi publicado com o título A trajetória de uma enfermeira: Neuza Aparecida Ramos na Revista Brasileira de Enfermagem. Brasília: maio/jun. 2009, v. 62, p. 400-6.
2. A formação e o exercício da profissão
Após a parte introdutória que normalmente aparece nas dissertações e teses e na qual se colocam tema, objetivos, metodologia e outros dados relativos a o estudo, chega-se ao depoimento. Inicialmente, faz-se um relato sobre a formação e o início da carreira como Enfermeira, cursos de aperfeiçoamento e de pós-graduação, atividades em hospitais, dentre os quais o recém-inaugurado Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná. Segue-se uma vasta lista de trabalhos desenvolvidos e o seu ingresso no magistério, primeiramente na Escola de Enfermagem Madre Leonie, estabelecimento pioneiro da Enfermagem em Curitiba e que mais tarde passou a fazer parte da PUCPR. Com a incorporação do Hospital Cajuru pela Universidade Católica, Neuza assumiu o cargo de diretora do Serviço de Enfermagem. Com bolsa do Ministério de Educação, fez curso de Administração Hospitalar na França, na École Nationale de la Santé Publique, na cidade de Rennes, região da Bretanha.
No magistério superior na PUCPR, Neuza Aparecida Ramos trilhou toda uma trajetória de atividades e cargos, como já se expôs neste texto, sempre enfrentando e superando desafios próprios de uma carreira de sucesso.
3. O futuro da profissão
Falando sobre o futuro da profissão, Neuza Aparecida Ramos declara:
“Vejo um futuro promissor para a profissão. A demanda pelo curso vem aumentando, o que possibilita melhor seleção dos candidatos. E como toda profissão que cresce precisa se preocupar com a formação de seus profissionais. As escolas terão que preparar os jovens para viverem novas concepções de mundo, de sociedade, de ser humano e de humanidade. Seus currículos deverão contemplar não apenas o ensino dos fenômenos físicos, biológicos, químicos ou sociais, mas também, os políticos, filosóficos e os religiosos”.
O amor à profissão fica claro ao longo de todo o depoimento. Afirma: “Se eu tivesse que escolher hoje uma profissão, começaria com a Enfermagem de novo”.
Nas Considerações Finais do trabalho, a autora, Juliana Rodrigues, destaca a importância da publicação: “possibilitou-nos resgatar a história de vida de uma testemunha ocular de fatos importantes da História da Enfermagem Brasileira e do Paraná, assim como verificar a participação efetiva desta enfermeira na construção e desenvolvimento da enfermagem”.
4.
Para mim, que convivi e participei de muitas das atividades na PUCPR ao lado da Enfermeira Neuza Aparecida Ramos é uma satisfação este reencontro motivado por um trabalho acadêmico de uma sua ex-aluna, doutoranda na USP. Tenho a certeza que Juliana Rodrigues seguirá os passos de sucesso de sua mestra. A Enfermagem irá ganhar muito com a atuação da futura doutora em Enfermagem.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

OS CEM LIVROS ESSENCIAIS DA LITERATURA BRASILEIRA

1. Uma outra lista
Retornamos a uma outra lista. Antes, foi sobre os 100 gênios da literatura universal. Esta se refere aos cem livros da literatura brasileira considerados essenciais pela revista Bravo!, edição especial de 2009. Como os próprios organizadores comentam na Carta do Editor: “É evidente que este ranking das 100 obras obrigatórias da literatura não encontrará unanimidade entre os leitores. Alguns discordarão da ordem, outros eliminariam títulos ou acrescentariam outros”. Eu não farei nenhuma dessas alterações, inclusive por considerá-la uma boa lista.
2. Eis a lista
1. 200 Crônicas Escolhidas, Rubem Braga; 2. A Alma Encantada das Ruas, João do Rio; 3. A Coleira do Cão, Rubem Fonseca; 4. A Escrava Isaura, Bernardo Guimarães; 5. A Estrela Sobe, Marques Rebelo; 6. A Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo; 7. A Obscena Senhora D, Hilda Hilst; 8. A Paixão Segundo G. H., Clarice Lispector; 9. A Rosa do Povo, Carlos Drummond de Andrade; 10. A Senhorita Simpson, Sérgio Sant'Anna; 11. A Vida como Ela É, Nelson Rodrigues; 12. As Meninas, Lygia Fagundes Telles; 13. As Metamorfoses, Murilo Mendes, Avalovara, Osman Lins; Bagagem, Adélia Prado; Baú de Ossos, Pedro Nava; Brás, Bexiga e Barra Funda, Antônio de Alcântara Machado; Broquéis, Cruz e Sousa; Canaã, Graça Aranha; Cartas Chilenas, Tomás Antônio Gonzaga; O Cortiço, Aluísio Azevedo; Catatau, Paulo Leminski; Claro Enigma, Carlos Drummond de Andrade; Contos Gauchescos, João Simões Lopes Neto; Crônica da Casa Assassinada, Lúcio Cardoso; Dom Casmurro, Machado de Assis; Espumas Flutuantes, Castro Alves; Estrela da Manhã, Manuel Bandeira; Eu, Augusto dos Anjos; Febeapá, Stanislaw Ponte Preta; Fogo Morto, José Lins do Rego; Gabriela, Cravo e Canela, Jorge Amado; Galáxias, Haroldo de Campos; Galvez, Imperador do Acre, Márcio Souza; Grande Serão: Veredas, Guimarães Rosa; Harmada, João Gilberto Noll; O Homem e sua Hora, Mário Faustino; I-Juca Pirama, Gonçalves Dias; Inocência, Visconde de Taunay; Invenção de Orfeu, Jorge de Lima; Juca Mulato, Menotti del Picchia; Laços de Família, Clarice Lispector; Lavoura Arcaica, Raduan Nassar; Libertinagem, Manuel Bandeira; Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo; Lucíola, José de Alencar; Macunaíma, Mário de Andrade; Malagueta, Perus e Bacanaço, João Antônio; Mar Absoluto, Cecília Meireles; Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga; Memórias de um Sargento de Milícias, Manuel Antônio de Almeida; Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis; Memórias Sentimentais de João Miramar, Oswald de Andrade; Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu; Morte e Vida Severina, João Cabral de Meio Neto; Navalha na Carne, Plínio Marcos; Noite na Taverna, Álvares de Azevedo; Nova Antologia Poética, Mário Quintana; Nova Antologia Poética, Vinicius de Moraes; O Analista de Bagé, Luis Fernando Veríssimo; O Ateneu, Raul Pompéia; O Braço Direito, Otto Lara Resende; O Coronel e o Lobisomem, José Cândido de Carvalho; O Encontro Marcado, Fernando Sabino; O Ex-Mágico, Murilo Rubião; O Guarani, José de Alencar; O Pagador de Promessas, Dias Gomes; O Que é Isso, Companheiro, Fernando Gabeira; O Quinze, Rachel de Queiroz; O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo; O Tronco, Bernardo Elis: O Uraguai, Basílio da Gama; O Vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan; Obra Poética, Gregório de Matos; Ópera dos Mortos, Autran Dourado; Os Cavalinhos de Platiplanto, José J. Veiga; Os Escravos, Castro Alves; Os Ratos, Dyonélio Machado; Os Sertões, Euclides da Cunha; Paulicéia Desvairada, Mário de Andrade; Poema Sujo, Ferreira Gullar; Poesias, Olavo Bilac; Quarup, Antonio Callado; Romance da Pedra do Reino, Ariano Suassuna; Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles, Sagarana, Guimarães Rosa; São Bernardo, Graciliano Ramos; Seminário dos Ratos, Lygia Fagundes Telles; Serafim Ponte Grande, Oswald de Andrade; Sermões, Padre Vieira; Terras do Sem Fim, Jorge Amado; Tremor de Terra, Luiz Vilela; Triste Fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto; Um Copo de Cólera, Raduan Nassar; O Picapau Amarelo, Monteiro Lobato; Vestido de Noiva, Nelson Rodrigues; Vidas Secas, Graciliano Ramos; Viva o Povo Brasileiro, João Ubaldo Ribeiro; Viva Vaia, Augusto de Campos; Zero, Ignácio de Loyola Brandão.
3. Comentário
Como se pode observar, trata-se de uma lista bastante criteriosa. Percorre a literatura brasileira, desde o seu início, lá no Barroco, com Gregório de Matos; passa pelo Arcadismo com Tomás Antônio Gonzaga e Basílio da Gama; chega ao Romantismo, inclusive com o romance que inaugura esse estilo no Brasil, A Moreninha; segue pelo Realismo/Parnasianismo com Aluísio Azevedo e Olavo Bilac, além de outros; continua pelo Simbolismo com Cruz e Sousa; pela porta do Pré-Modernismo, com Canaã, Os Sertões, Juca Mulato, ingressa no Modernismo, inicialmente com as obras famosas da Semana de Arte Moderna e continua com inúmeros outros; finalmente, chega à atualidade, e aqui são inúmeros os poetas e escritores. Há autores de diferentes tendências e gêneros, inclusive humoristas, como Veríssimo, e de literatura infanto-juvenil, como Monteiro Lobato.
Assim, torna-se difícil não aceitar a lista como ela é. O que se pode fazer, e é isso que apresentarei a seguir, é um extrato dessa lista com aqueles autores de nossa preferência. Desse modo, aventuro-me a apresentar uma seleção segundo o meu gosto e com algum critério muito pessoal, como, por exemplo, o momento da leitura de determinada obra.
4. Um extrato da lista com as obras de minha preferência
Apenas, irei destacar 20 obras de que gosto. Não digo que goste mais das que selecionei, porque inclusive gosto de todas as que eu li. Inicialmente, pensei ressaltar somente 10 delas, mas não resisti a omitir tantas obras em lista tão restrita. Ficariam obras que me tocaram muito quando as li. Não quero com isso dizer que essas sejam melhores que outras, mas apenas que me vêem à lembrança sempre que penso em literatura brasileira. É lógico que muitas outras também me tocam a sensibilidade, mas, ou por não constarem da lista, ou por falta de espaço, fico com estas vinte.
4. Segue a minha lista com 20 obras
1. Bagagem, Adélia Prado; 2. Claro Enigma, Drummond; 3. Dom Casmurro, Machado de Assis; 4. Espumas Flutuantes, Castro Alves; 5. Estrela da Manhã, Manuel Bandeira; 6. I-Juca Pirama, Gonçalves Dias; 7. Juca Mulato, Menotti Del Picchia; 8. Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo; 9. Mar Absoluto, Cecília Meireles; 10. O Coronel e o Lobisomem, José Cândido de Carvalho; 11. O Quinze, Rachel de Queiroz; 12. O Uraguai, Basílio da Gama; 13. O Vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan; 14. Obra Poética, Gregório de Matos; 15. Ópera dos Mortos, Autran Dourado; 16. Os Sertões, Euclides da Cunha; 17. Poesias, Olavo Bilac; 18. Sagarana, Guimarães Rosa; 19. São Bernardo, Graciliano Ramos; 20. Sermões, Padre Vieira.
5. Comentário à minha lista
Como disse, essa lista foi ditada pelo critério do meu próprio gosto e, portanto, trata-se de algo bastante subjetivo. É bom, porém, frisar que há uma “estética ou padrão do gosto”. O problema é que para isso se exige o denominado “bom gosto”, que nenhum teórico, até agora, foi capaz de definir ou estabelecer qual seja. Há, portanto, que confiar no nosso quantum de bom gosto. Para a estética medieval, era belo: “aquilo cuja apreensão agrada” (id cujus ipsa apprehensio placet). Harold Osborne, em Estética e Teoria da Arte, no capítulo Estética Inglesa do Século XVIII, ao tratar de O Padrão do Gosto, afirma: “Foi o conflito entre a crença num padrão universal de gosto e o reconhecimento de que o sentimento e a emoção são essenciais à apreciação estética que preparou o palco para o sistema lógico de Kant, a primeira filosofia sistemática dos problemas lógicos nela envolvidos” (p. 154).
Algumas observações sobre o motivo da escolha são necessárias:
1ª – Bagagem, uma obra poética que surpreendeu a nova literatura, ela e a sua autora, pela forma que retoma e reescreve determinados temas de poetas consagrados, como o próprio poema que dá título à obra;
2ª – Claro Enigma e seu autor se explicam por si sós, ambos consagrados pela crítica nacional e internacional;
3ª – De Machado poderia ser qualquer das duas, preferi, porém, Dom Casmurro pela criação do perfil de Capitu e pela eterna ambiguidade da obra;
4ª – O mesmo poderia se dizer de Castro Alves, tanto poderia constar com uma ou outra das obras listadas, mas Espumas Flutuantes se justifica pelo seu lirismo-amoroso e por ser menos discursiva de que Os Escravos;
5ª – Assim, pelo mesmo critério do puro lirismo, seguiria com Estrela da Manhã, de Bandeira;
6ª – I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, pelo que representa de um legítimo indianismo na literatura brasileira;
7ª – Juca Mulato, de Del Picchia, pela consagração do amor impossível de um simples subalterno por alguém de uma outra classe social e, inclusive, de outra raça;
8ª – Lira dos Vinte Anos é a representante legítima do byronismo no Romantismo brasileiro;
9ª – Mar Absoluto e Cecília não poderiam estar ausentes. É o nosso lirismo ao estilo de Portugal;
10ª – O Coronel e o Lobisomem, um livro hoje esquecido, espécie de romance picaresco, é marco de um tipo de estilo, jocoso e irônico na nova narrativa brasileira;
11ª – O Quinze, obra de estréia da grande Rachel de Queiroz, um dos romances inaugurados e talvez o melhor Regionalismo do Nordeste dos anos 30;
12ª – O Uraguai representa o espírito árcade nesta lista. Poderia ser também Marília de Dirceu, mas ficaria faltando um representante do épico;
13ª – Dalton, com O Vampiro de Curitiba ou com outra obra, não pode ficar fora de qualquer lista da literatura brasileira;
14ª – Gregório de Matos e sua Obra Poética também não podem ficar fora, pelo lirismo barroco do poeta baiano;
15ª – Ópera dos Mortos, como O coronel e o Lobisomem, é obra renovadora da narrativa brasileira;
16ª – Os Sertões representa aqui o Pré-Modernismo, um painel grandioso de uma terra inóspita e guerreira;
17ª – A poesia parnasiana não poderia ficar de fora e assim comparece com a Obra Poética, do visionário, mas engajado Bilac;
18ª – Por que Sagarana e não Grande Sertão: Veredas? Talvez por ser um grande livro mesmo com histórias curtas;
19ª – São Bernardo, para mim, é superior ao elogiadíssimo Vidas Secas, duas grandes obras de um grande prosador;
20ª – Os Sermões e o Padre Vieira serão eternos tanto na literatura brasileira como na portuguesa.
Dez ausências notáveis de autores também notáveis:
a) Andrade, Mario e Oswald, dois vultos da Semana de Arte, lídimos representantes do início do Modernismo brasileiro, acabaram cedendo espaço a outros autores dessa época, como Bandeira e Del Picchia;
b) Clarice Lispector: a obra de minha preferência é outra, Perto do Coração Selvagem, e não a listada;
c) Cruz e Sousa: preferir Os Últimos Sonetos não justifica a ausência do grande simbolista. Faltou espaço;
d) João Cabral de Melo Neto: prefiro a obra poética propriamente dita e não a mista poesia/teatro;
e) João Ubaldo Ribeiro: com certeza foi a ausência na lista principal do picaresco Sargento Getúlio, muito próxima de O Coronel e o Lobisomem;
f) Jorge Amado: grande contador de histórias, idolatrado em Portugal, ficou sem o seulugar nesta lista;

g) José de Alencar: no indianismo prefiro Iracema a O Guarani; e no romance social, Senhora a Lucíola;
h) Luiz Vilela: de longe que No Bar é superior a Tremor de Terra, a obra listada;
i) Lima Barreto: grande escritor, famoso por grandes obras, como Triste Fim de Policarpo Quaresma, O Homem que Sabia Javanês, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, e outros. Faltou espaço;
j) Veríssimo, pai e filho: é pena que nenhum participe da minha lista, nem o grande romancista regionalista do Sul, nem o filho, criador de um tipo de humor inteligente, sutil.
Para concluir, sei da limitação de qualquer lista, como já afirmei e reafirmei, mas sei que fiquei devendo. E muito!

Para reparar tanta injustiça, deixo aqui a simples transcrição de um texto de Veríssimo, e que o dedico aos leitores, em especial às leitoras:
MULHERES
Certo dia parei para observar as mulheres e só pude concluir uma coisa: elas não são humanas. São espiãs. Espiãs de Deus, disfarçadas entre nós. Pare para refletir sobre o sexto-sentido.

Alguém duvida de que ele exista?
E como explicar que ela saiba exatamente qual mulher, entre as presentes, em uma reunião, seja aquela que dá em cima de você?
E quando ela antecipa que alguém tem algo contra você, que alguém está ficando doente ou que você quer terminar o relacionamento?
E quando ela diz que vai fazer frio e manda você levar um casaco? Rio de Janeiro, 40 graus, você vai pegar um avião pra São Paulo. Só meia-hora de vôo. Ela fala pra você levar um casaco, porque "vai fazer frio". Você não leva. O que acontece?
O avião fica preso no tráfego, em terra, por quase duas horas, depois que você já entrou, antes de decolar. O ar condicionado chega a pingar gelo de tanto frio que faz lá dentro!
"Leve um sapato extra na mala, querido. Vai que você pisa numa poça...
"Se você não levar o "sapato extra", meu amigo, leve dinheiro extra para comprar outro. Pois o seu estará, sem dúvida, molhado... O sexto-sentido não faz sentido!
É a comunicação direta com Deus!
Assim é muito fácil... As mulheres são mães!
E preparam, literalmente, gente dentro de si. Será que Deus confiaria tamanha responsabilidade a um reles mortal?
E não satisfeitas em ensinar a vida elas insistem em ensinar a vivê-la, de forma íntegra, oferecendo amor incondicional e disponibilidade integral. Fala-se em "praga de mãe", "amor de mãe", "coração de mãe"...
Tudo isso é meio mágico...
Talvez Ele tenha instalado o dispositivo ‘coração de mãe’ nos "anjos da guarda" de Seus filhos (que, aliás, foram criados à Sua imagem e semelhança).
As mulheres choram. Ou vazam? Ou extravazam?
Homens também choram, mas é um choro diferente. As lágrimas das mulheres têm um não sei quê que não quer chorar, um não sei quê de fragilidade, um não sei quê de amor, um não sei quê de tempero divino, que tem um efeito devastador sobre os homens... É choro feminino. É choro de mulher... Já viram como as mulheres conversam com os olhos?
Elas conseguem pedir uma à outra para mudar de assunto com apenas um olhar.
Elas fazem um comentário sarcástico com outro olhar.
E apontam uma terceira pessoa com outro olhar.
Quantos tipos de olhar existem?
Elas conhecem todos... Parece que freqüentam escolas diferentes das que freqüentam os homens! E é com um desses milhões de olhares que elas enfeitiçam os homens.
EN-FEI-TI-ÇAM!
E tem mais! No tocante às profissões, por que se concentram nas áreas de Humanas?
Para estudar os homens, é claro!
Embora algumas disfarcem e estudem Exatas... Nem mesmo Freud se arriscou a adentrar nessa seara. Ele, que estudou, como poucos, o comportamento humano, disse que a mulher era "um continente obscuro".
Quer evidência maior do que essa?
Qualquer um que ama se aproxima de Deus. E com as mulheres também é assim. O amor as leva para perto dEle, já que Ele é o próprio amor. Por isso dizem “estar nas nuvens”, quando apaixonadas. É sabido que as mulheres confundem sexo e amor. E isso seria uma falha, se não obrigasse os homens a uma atitude mais sensível e respeitosa com a própria vida.
Pena que eles nunca verão as mulheres-anjos que têm ao lado.
Com todo esse amor de mãe, esposa e amiga, elas ainda são mulheres a maior parte do tempo.
Mas elas são anjos depois do sexo-amor.
É nessa hora que elas se sentem o próprio amor encarnado e voltam a ser anjos.
E levitam.
Algumas até voam.
Mas os homens não sabem disso.
E nem poderiam.
Porque são tomados por um encantamento que os faz dormir nessa hora.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

GÊNIO E GÊNIOS – UM ESTUDO MAGISTRAL DE HAROLD BLOOM

O gênio Harold Bloom, professor universitário, teórico e crítico literário (New York, 1930.)
I - A OBRA
Um livro decididamente de peso nos dois sentidos é Gênio: os 100 autores mais criativos da História da Literatura, de Harold Bloom, publicado em 2002, pela Objetiva. Em mais de 800 páginas o autor enumera, segundo ele, os mais importantes escritores e poetas da Literatura Universal. Seria difícil tentar transcrever apenas alguns nomes, porque realmente todos são bem conhecidos e merecidamente famosos. A única solução é listá-los todos por blocos de Lustros, como fez o autor.
(Observação, aqui, como explica Bloom, Lustro, não significa apenas espaço de cinco anos. Como na obra cada conjunto de dez se encontra regido por um sefirah, o Lustro, ou seja a metade desse espaço, também está regido por esse mesmo safirah). Portanto, são dez os safirat, mas vinte os Lustros. Para cada dois Lustros de um mesmo conjunto de dez há um mesmo safirah.
Um sefirah faz parte do conjunto dos sefirot. Estes, por sua vez, segundo Bloom “constituem o centro da Cabala, pois pretendem representar a interioridade de Deus, os segredos do caráter e da personalidade divina. São atributos do gênio de Deus, em todos os sentidos em que o termo “gênio” é empregado neste livro”.
O livro é todo ele cabalístico. Assim, o próprio autor define Lustro, que na Cabala possui um sentido especial: “Lustros, nesse sentido, refere-se ao brilho decorrente da luz refletida, o lustre, o esplendor de um gênio refletido em outro...”
(p. 19).
Aqui seguem os 20 Lustros com seus correspondentes sefirah e os literatos neles incluídos (cinco por Lustro):
Lustro I: Keter - Shakespeare, Cervantes, Montaigne, Milton, Tolstói.
Lustro II: idem - Lucrécio, Virgílio, Santo Agostinho, Dante, Chaucer.
Lustro III: Hokmah - O Javista, Sócrates, Platão, São Paulo, Maomé.
Lustro IV: idem - Samuel Johnson, James Boswell, Goethe, Freud, Thomas Mann.
Lustro V: Binah -Nierzsche, Kierkegaard, Kafka, Proust, Samuel Beckett.
Lustro VI: idem - Molière, Ibsen, Tchekhov, Oscar Wilde, Pirandello.
Lustro VII: Hesed - John Donne, Pope, Jonathan Swift, Jane Austen, Lady Murasaki.
Lustro VIII: idem - Nathaniel Hawthorne, Melville, Charlotte Brame, Emily Jane Brame, Virginia Wolf.
Lustro IX: Din - Emerson, Emily Dickinson, Robert Frast, Wallace Stevens, T. S. Eliot.
Lustro X: idem - Wordsworth, Shelley, Keats, Leopardi, Tennyson.
Lustro XI: Tiferet - Swinburne, Gabriel Rossetti, Christina Rossetti, Walter Pater, Hofmannsthal.
Lustro XII: idem - Victor Hugo, Gérard de Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Paul Valéry.
Lustro XIII: Nezat - Homero, Camões, James Joyce, Carpentier, Octavio Paz.
Lustro XIV: idem - Stendhal, Mark Twain, Faulkner, Hemingway, Flannery O'Connor.
Lustro XV: Hod - Walt Whitman, Fernando Pessoa, Hart Crane, García Lorca, Luis Cernuda.
Lustro XVI: idem - Eliot, Willa Cather, Edith Wharton, F. Scott Fitzgerald, Iris Murdoch.
Lustro XVII: Yesod - Flaubert, Eça de Queirós, Machado de Assis, Borges, Italo Calvino.
Lustro XVIII: idem - William Blake, D. H. Lawrence, Tennessee Williams, Rilke, Eugenio Montale.
Lustro XIX: Malkhut - Balzac, Lewis Carroll, Henry James, Robert Browl, Yeats.
Lustro XX: idem - Dickens, Dostoievski, Isaac Babei, Paul Celan; Ellison.
II - COMENTÁRIOS:
1. A listas e listas
Poder-se-ia perguntar por que esses e não outros os literatos listados? Porém, temos de reconhecer que nenhuma lista com o número que fosse de autores iria contentar a todos. Esta parece incluir uma boa e criteriosa seleção, própria do nome do livro e do próprio autor, que é também um gênio. Saudado pelos grandes periódicos, Harold Bloom é: “Um gigante entre os críticos... Seu entusiasmo pela literatura é contagiante” (New York Times Sunday Magazine); “Um mestre do entretenimento” (Newsweek); “Bloom é simplesmente um sacerdote da grandeza humana” (The Iris Time).
Felizmente, nesta seleção de autores, a Literatura Brasileira conta com um representante, e, merecidamente, ele é Machado de Assis. Não poderia aí estar também um poeta, como, por exemplo, Carlos Drummond de Andrade? A nossa coirmã Literatura Portuguesa foi um pouco mais bem aquinhoada (3 nomes): Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queirós. E por onde andará Padre Vieira, que não aparece nem na Portuguesa, nem na Brasileira?
2. O grupo do nosso representante
Já que contamos com Machado de Assis incluído no Lustro XVII, regido pelo sefirah Yesod, vamos nos fixar neste grupo e especialmente no autor brasileiro. O nosso representante está ao lado do francês Flaubert, do português Eça de Queirós, do argentino descendente de portugueses e ingleses Borges, e do cubano-italiano Italo Calvino.
Os três primeiros são fundamentalmente romancistas e contistas; o quarto, é mais especificamente contista e filósofo; e o último, além de ficcionista, também é filósofo e crítico literário.
Por estilo de época, Flaubert foi o único verdadeiramente representante do Realismo. Eça de Queiros, embora também realista, é bastante influenciado inicialmente pelo Romantismo e depois pelo Impressionismo. Machado de Assis é um escritor que, embora classificado de realista, pouco tem desse movimento e está acima de qualquer classificação literária. Por isso, tem sido considerado um verdadeiro precursor de determinado tipo de Modernismo e mesmo de Pós-Modernismo, aqueles da introspecção, do psicologismo, do Existencialismo e, portanto, anunciador e muito próximo de autores muito recentes, como o português Virgílio Ferreira e a brasileira Clarice Lispector. Borges, por outro lado, pertence ao que se convencionou chamar de Realismo Mágico, Realismo Fantástico, ou, ainda, Realismo Maravilhoso, frequente em grande parte da literatura hispano-americana do séc. XX. Finalmente, temos Italo Calvino, fiel discípulo de Borges e de suas idéias, e também ele um seguidor do Realismo Fantástico e que segue rumo a uma literatura do absurdo.
3. O nosso representante Machado de Assis
Machado de Assis, como os outros do Lustro XVII, está sob o signo de Yesod, o safirah que, em tradução livre, segundo o autor, significa “fundação” e encerra dois significados afins: “o impulso sexual masculino e o mistério do equilíbrio entre o feminino e o masculino, nos processos naturais”. É também “a base da vida apaixonada”. De modo geral, neste Lustro XVII estão autores marcados pela ironia. Na outra metade, que corresponde ao Lustro XVIII, encontram-se autores que Bloom chama de visionários (William Blake, D. H. Lawrence, Tennessee Williams, Rilke e Eugenio Montale). Estes, porém, não serão tratados aqui.
Da obra de Machado de Assis, depois de transcrever textos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, disse Bloom: “O verdadeiro tema de Machado de Assis é a nossa mortalidade, o que não constitui assunto para descaso e gracejo; no caso de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o tema enseja uma perspectiva, ao mesmo tempo, distanciada e hilária”.
Sobre o escritor Machado de Assis, assim se referiu o crítico Bloom: “O gênio da ironia propiciou-nos poucos exemplos à altura do escritor afro-brasileiro Machado de Assis, a meu ver o maior literato negro surgido até o presente”. E para concluir o seu parecer, brinca, como brincaria o próprio autor de Memórias Póstumas: “Machado de Assis teria desprezado a minha observação, como mais uma piada digna de Tristram Shandy”.
Tristram Shandy é a personagem principal da obra homônima, de autoria do irlandês Laurence Sterne (1713-1768). Uma das características da personagem Shandy e da própria obra é a transcrição de documentos. Com isso, busca que o seu texto se pareça mais verdadeiro do que ficcional. Essa técnica mais tarde foi bastante empregada na ficção. Esse forma de indicação de fontes às vezes é feita de modo sério e outras vezes como se fosse uma brincadeira.
Sterne, citado por Machado de Assis, emprega uma linguagem constantemente carregada de ironia. Influenciado pelo modo de narrar do escritor irlandês e de um outro, o autor sardo de Viagem à Roda do meu Quarto, Machado de Assis os cita no início de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio”.
Paulo Sérgio Rouanet no estudo “Tempo e Espaço na Forma Shandiana: Sterne e Machado de Assis”, sobre “forma shandiana”, afirma: “Ela designa uma atitude entre libertina e sentimental, um sensualismo risonho, um humor afável e tolerante, capaz de perdoar transgressões próprias e alheias, mas também de zombar, sem excessiva malícia, dos grandes e pequenos ridículos do mundo”. Continua Rouanet: “É uma forma caracterizada 1. pela presença constante e caprichosa do narrador, ilustrada enfaticamente pelo pronome de primeira pessoa: "Eu, Brás Cubas ; 2. por uma técnica de composição difusa e livre, isto é, digressiva, fragmentária, não-discursiva; 3. pela interpenetração do riso e da melancolia; e 4. pela subjetivação radical do tempo (os paradoxos da cronologia) e do espaço (as viagens)”.
Foi assim que Machado de Assis no prólogo da 3.ª edição de Memórias Póstumas de Brás Cubas, acrescentou mais um “viajante”, o português Almeida Garrett, de Viagens na Minha Terra. Diz Machado que todos esses realizavam determinado tipo de viagem: “Xavier de Maistre à roda do quarto, Garrett na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas se pode dizer que viajou à roda da vida”.

No fragmento, percebe-se a profundeza do velho Machado: o que pode ser mais profundo, difícil e irônico do que “viajar ao redor da vida”. Parafraseando Drummond - Entanto, viajamos “mal rompe a manhã”.
4. Final
Assim são os gênios. Assim é o gênio Machado de Assis. Em todos eles está representada “a interioridade de Deus”, e, portanto, em todos eles se encontra “o espírito de Deus”. E, por fim, deve-se lembrar de que "a arte aproxima o homem do seu Criador” (frase atribuída a vários pensadores do Renascimento e retomada recentemente pelo papa João Paulo II, na Carta aos Artistas): “A música, como todas as linguagens artísticas, aproxima o homem de Deus”.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

CLAUDE LÉVI-STRAUSS – PENSADOR FRANCÊS E AMIGO DO BRASIL

Claude Lévi-Strauss dans son bureau du Collège de France, en 2001 à Paris. (photo : AFP)

Infelizmente, os grandes homens também morrem. Jornais de todo o mundo noticiaram nesta quarta-feira, 4 de novembro, a morte de Lévi-Straus, na França, na madrugada de domingo, 1.º de novembro, mas só agora anunciada em comunicado conjunto da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales e de de seu editor, Plon.
Aqui, em Curitiba, a manchete da Gazeta do Povo estampava: MORRE AOS 100 ANOS LÉVI-STRAUSS, PAI DA ANTROPOLOGIA MODERNA; No Le Figaro: CLAUDE LÉVI-STRAUS EST MORT, para ficar somente com dois períodicos, um local e outro da terra do falecido, o grande criador da Antropolgia Estrutural.
Recentemente, Lévi-Strauss recebeu importantes homenagens do mundo inteiro pela passagem do seu centésimo aniversário, comemorado no dia 28 de novembro do ano passado. Portanto, há pouco menos de um ano.
O grande pensador francês é considerado o fundador da antropologia estrutural, principalmente por seus estudos sobre a língua, costumes e lendas de povos indígenas do Brasil. Aqui, ele permaneceu de 1935 a 1939, quatro anos fundamentais para seus estudos e para a apresentação de uma nova teoria antropológica ao final dos anos 40 e iníco dos anos 50. Com suas obras, principalmente As Estruturas Elementares do Parentesco, de 1949, e Tristes Trópicos, de 1955, tornou-se reconhecido e admirado mundialmente como cientista e pensador.
Foi professor honorário do Collège de France, no qual regeu a Cátedra de Antropologia Social de 1959 a 1982. Foi membro da Academia Francesa, o primeiro a atingir 100 anos de idade. É considerado um dos mais importantes intelectuais dos nossos tempos.
No Brasil, Lévi-Strauss esteve inicialmente como membro de uma grande missão francesa, que veio para a consolidação da recém-criada Universidade de São Paulo, a USP, de janeiro de 1934. Permsaneceu como professor na Instituição até 1938, quando abandonou o magistério para dedicar-se exclusivamente às suas pesquisas junto aos povos indígenas de Goiás, Mato Grosso e Paraná. Segundo ele, foram essas viagens que despertaram o seu grande interesse pela antropologia e pela pesquisa. Como resultado desses estudos, escreveu uma obra fundamental, Tristes Trópicos.
Inicialmente, por conhecer somente os indígenas do Norte do Paraná, na região do rio Tibagi, os Kaingang, pensou tratar-se de um povo não totalmente índios e nem verdadeiros selvagens. Só mais tarde com a incursão por terras dos Kadiweu, na divisa com o Paraguai e conhecimento dos Bororo do Mato Grosso é que conseguiu reunir os dados necessários para uma nova teoria antropológica. Foi com esses estudos que conseguiu prestar provas na França para o ingresso no magistério, pois não era formado em Antropologia.
Graças a essas pesquisas de 1936 é que conseguiu dinheiro e reconhecimento necessários para fazer nova expedição, esta em 1938, para estudar os índios Nambiqwara, de Mato Grosso. A missão também visitou os últimos homens e mulheres Tupi- Kaguahib, na região do rio Machado, considerados já desaparecidos.
Além do casal francês, Lévi e Diana Strauss, participaram dessa última expedição, o médico e etnólogo francês Jean Vellard e o antropólogo brasileiro Luís de Castro Faria. Este último revela os problemas que a missão enfrentou com os órgãos públicos brasileiros, porque contava com o patrocínio de Paul Rivet, um político ligado ao Partido Socialista Francês.
Denis Bertholet, um de seus biógrafos, assim descreve Claude Lévi-Strauss: “Philosophe de formation, ce pionnier du structuralisme qui arpentait le monde pour en étudier les mythes, ce précurseur dans le domaine de l'écologie qui écrivait admirablement, a oeuvré à la réhabilitation de la pensée primitive, avec parfois le regard d'un moraliste. A cheval entre philosophie et science (…), son oeuvre est indissociable d'une réflexion sur notre société et son fonctionnement. Il a une approche écologique du monde et des individus, avant la lettre” (Filósofo por formação, este pioneiro do estruturalismo que avaliava o mundo pela ótica dos mitos, este precursor no domínio da ecologia que escreveu admiravelmente uma obra de reabilitação do pensamento primitivo, com o olhar às vezes de um moralista. Colocada entre a a filosofia e a ciência (...)sua obra é indissociável de uma reflexão sobre nossa sociedade e seu funcionamento. ela apresenta um enfoque ecológico do mundo e dos indivíduos, antes mesmo de tal acontecer). Vê-se, assim, a importância do pensamento de Lévi-Strauss, classificado inclusive como um ambientalista antes mesmo de existir tal conceito e tanta preocupação com a natureza, como há em nossos dias.
De volta à França em 1939, com o surgimento da Segunda Grande Guerra, muda-se para os Estados Unidos e passa a lecionar em Nova Yorque. Em 1959, com o retorno à França, torna-se professor no Collège de França e se torna o primeiro antropólogo eleito para a Academia Francesa.
O grande mérito científico de Lévi-Strauss e a base de sua teoria foi ter aplicado ao conjunto dos fatos humanos de natureza simbólica um método, o método estruturalista. Com isso, ele passa a tratar do “pensamento selvagem” e não mais do “pensamento do selvagem”. Aparentemente apenas um jogo de palavras, mas em verdade uma total mudança no enfoque das pesquisas antropológicas. Sua obra O Pensamento Selvagem, de 1962, é o marco histórico dessa mudança. Catherine Clément, autora de um ensaio sobre o etnólogo, explica: “Quand il nous explique que la ‘pensée sauvage’ est en chacun de nous, il n'y a plus de distinction de fonctionnement mental entre les primitifs et nous. C'est une révolution intellectuelle considérable”. (Quando ele nos explica que o “pensamento selvagem” se encontra em cada um de nós, ele deixa de fazer a distinção do funcionamento mental entre os povos primitivos e nós. Isso é uma revolução intelectual considerável).
Lévi-Strauss costumava se definir como um “viajante, arqueólogo do espaço, que procurava em vão reconstituir o exotismo com o auxílio de fragmentos e de destroços”. Segundo seus contemporâneos, era um homem elegante, gentil, de olhar claro e penetrante, dotado de grande presença e marcado pela grande capacidade de escutar os outros. Como cientista dedicado a pesquisas, é autor de uma frase que se tornou célebre, pela verdade que encerra. Encontra em O Cru e o Cozido: “O sábio não é o homem que fornece as verdadeiras respostas. É o que faz as verdadeiras perguntas.” Sabe-se, hoje, que um estudo científico surge com base em um problema, sempre proposto em forma de questionamento pelo próprio pesquisador. Lévi-Strauss antecipou-se a nossos tempos em que as pesquisas se expandiram de forma exponencial.
CLAUDE LÉVI-STRAUSS E O ESTRUTURALISMO
Um grande pensador, considerado um gigante do pensamento moderno, Claude Lévi-Strauss é um verdadeiro mago do Estruturalismo. Essa corrente do pensamento científico iniciou-se na Lingüística com os estudos de Saussure (filósofo e lingüista suíço – 1857-1913) já no início do século XX. Teve vários desdobramentos até eclodir nos anos 60 no que se convencionou chamar de “Estruturalismo Francês”. Segundo a teoria estruturalista, por trás de toda a atividade humana, estão as “estruturas universais”. São elas que dão forma a culturas e às criações de todo tipo do ser humano. Assim, a linguagem, os mitos, as religiões, a poesia, tudo é resultado dessas “estruturas” e são próprias do gênero humano. O homem passa a ser identificado como “homo symbolicum”, de que nos fala Ernst Cassirer, e não mais o “homo erectus” dos primeiros antropólogos, nem mesmo o “homo sapiens”, de algumas outras teorias.
Como bom estruturalista, ele baseou seus estudos nas oposições binárias (na Linguística de Saussure, como exemplos, os conceitos significante e significado; forma e conteúdo.). Estudou oposições como: o cru e o cozido; o quente e o frio, o animal e o humano. Distinguia-se dos demais antropólogos pelo fato de que os outros buscavam revelar as diferenças entre povos e culturas, e ele buscava as estruturas universais, também chamadas “estruturas profundas”. Os seus estudos colaboraram mais para a igualdade de povos e culturas do que para as diferenças entre eles. Essas semelhanças, porém, encontravam-se naquilo que era essencial e não apenas externo, como viam os demais antropólogos. Um dos fundamentos do Estruturalismo é exatamente a oposição essência / aparência.
Em o Cru e o Cozido, Lévi-Strauss declarou haver orientado suas pesquisas etnográficas na direção da psicologia, da lógica e da filosofia (a essência). Ele não estava interessado nos propósitos a que serviam as práticas rituais de uma determinada sociedade (a aparência).
CLAUDE LÉVI-STRAUSS ESCRITOR
Em suas obras, o autor estudou principalmente a correlação do processo formador de mitos com o pensamento ocidental.
As principais são:
· As Estruturas Elementares do Parentesco (1949) - Marco fundador da antropologia estrutural. Lévi-Strauss repensa o problema universal da proibição do incesto.
· Tristes Trópicos (1955) – ­Espécie de autobiografia intelectual, a obra relata a vinda de Lévi-Strauss ao Brasil nos anos 1930.
· Antropologia Estrutural (1958) – ­Nesta coletânea, o autor apresenta paralelos estruturais entre as figuras do xamã e do psicanalista e lança as bases teóricas da mitologia.
· Mitológicas (1964-71) - Análise de cerca de 800 mitos ameríndios inspirado nos moldes da música.
· Via das Máscaras (1975) – Strauss retoma a questões fundamentais da estética e da história da arte.
· História de Lince (1991) - O autor investiga as fontes filosóficas e éticas do dualismo ameríndio com base nas lendas.
· Saudades do Brasil (1994) - Álbum fotográfico que remonta às raízes da aventura antropológica de Lévi­-Strauss e que traz imagens de São Paulo e do Centro-Oeste.
(Fonte: Folhapress)
Segundo seus estudiosos, os livros do cientista apresentam argumentos complexos expressos em uma linguagem metafórica, simbólica. Seus textos em nada lembram os escritos antropológicos anteriores a ele.
TEXTO DO LIVRO O PENSAMENTO SELVAGEM
A idéia de que o universo dos primitivos (ou que se supõe que o sejam) consiste principalmente em mensagem não é nova. Mas, até uma época recente, atribuía-se um valor negativo ao que, erradamente, se tomava por um caráter distintivo, como se esta diferença entre o universo dos primitivos e o nosso con­tivesse a explicação de sua inferioridade mental e tecnológica, quando ela os põe antes em pé de igualdade com os modernos teóricos da documentação. Era preciso que a ciência física descobrisse que um universo semântico possui todos os carac­teres de um objeto absoluto, para que se reconhecesse que. a maneira pela qual os primitivos conceptualizam seu mundo é, não apenas coerente, mas a mesma que se impõe em presença de um objeto cuja estrutura elementar oferece a imagem de uma complexidade descontínua.
De uma só vez achava-se superada a falsa antinomia entre mentalidade lógica e mentalidade pré-lógica. O pensamento selvagem é lógico, no mesmo sentido e da mesma forma que o nosso, mas como o é apenas o nosso quando se aplica ao conhecimento de um universo a que reconhece, simultaneamen­te, propriedades físicas e propriedades semânticas. Uma vez dissipado este mal-entendido, não é menos verdade que, con­trariamente à opinião de Lévy-Bruhl, este pensamento progri­de pelas vias do entendimento, não da afetividade; com o au­xílio de distinções e de oposições, não por confusão e parti­cipação. Se bem que o termo não tivesse ainda entrado em uso, numerosos textos de Durkheim e Mauss mostram que eles haviam compreendido que o pensamento dito primitivo era um pensamento quantificado
.

(p. 304-305).
LÉVI-STRAUSS NO BRASIL
No Brasil, além de professor e pesquisador da USP, Lévi-Strauss tornou-se Doutor Honoris Causa pela Universidade que muito aprendeu com ele. Como Acadêmico, desprezava a elite e valorizava os índios.
Ao mesmo tempo em que enaltecia um Brasil de que os próprios brasileiros se envergo­nhavam, Lévi-Strauss pode ser descrito como "carinhoso" ao falar de povos como os nambiquaras e os bororos. Foi duro, porém, e mesmo implacável às vezes, ao tratar da sociedade brasileira urbana, que considerava sempre à procura de status.
Lévi-Strauss se utilizava das lições aprendidas com grupos indígenas do cerrado (Goiás) e da floresta (Mato Grosso) - principalmente como relacio­nar natureza e cultura -, para a criação de um dos pensamentos mais in­fluentes da segunda metade do século 20. Enquanto isso, muitos brasileiros ainda olhavam esses mesmo índios co­mo um sinal de atraso a ser superado ou esquecido.
As suas lições só foram realmente aprendidas pelos antropólogos brasi­leiros entre os anos de 1950 e 1980. Portanto, depois de 10 e mais anos após o seu regresso à França. De certo modo, é compreensível, pois foi por essa época que seus livros saíram publicados.
Assim como Claude Lévi-Strauss aprendeu bastante com o Brasil, o Brasil também aprendeu muito com Claude Lévi-Straus. Resta, porém, muito ainda a aprender com esse sábio ligado ao nosso país.