sexta-feira, 13 de novembro de 2009

GÊNIO E GÊNIOS – UM ESTUDO MAGISTRAL DE HAROLD BLOOM

O gênio Harold Bloom, professor universitário, teórico e crítico literário (New York, 1930.)
I - A OBRA
Um livro decididamente de peso nos dois sentidos é Gênio: os 100 autores mais criativos da História da Literatura, de Harold Bloom, publicado em 2002, pela Objetiva. Em mais de 800 páginas o autor enumera, segundo ele, os mais importantes escritores e poetas da Literatura Universal. Seria difícil tentar transcrever apenas alguns nomes, porque realmente todos são bem conhecidos e merecidamente famosos. A única solução é listá-los todos por blocos de Lustros, como fez o autor.
(Observação, aqui, como explica Bloom, Lustro, não significa apenas espaço de cinco anos. Como na obra cada conjunto de dez se encontra regido por um sefirah, o Lustro, ou seja a metade desse espaço, também está regido por esse mesmo safirah). Portanto, são dez os safirat, mas vinte os Lustros. Para cada dois Lustros de um mesmo conjunto de dez há um mesmo safirah.
Um sefirah faz parte do conjunto dos sefirot. Estes, por sua vez, segundo Bloom “constituem o centro da Cabala, pois pretendem representar a interioridade de Deus, os segredos do caráter e da personalidade divina. São atributos do gênio de Deus, em todos os sentidos em que o termo “gênio” é empregado neste livro”.
O livro é todo ele cabalístico. Assim, o próprio autor define Lustro, que na Cabala possui um sentido especial: “Lustros, nesse sentido, refere-se ao brilho decorrente da luz refletida, o lustre, o esplendor de um gênio refletido em outro...
(p. 19).
Aqui seguem os 20 Lustros com seus correspondentes sefirah e os literatos neles incluídos (cinco por Lustro):
Lustro I: Keter - Shakespeare, Cervantes, Montaigne, Milton, Tolstói.
Lustro II: idem - Lucrécio, Virgílio, Santo Agostinho, Dante, Chaucer.
Lustro III: Hokmah - O Javista, Sócrates, Platão, São Paulo, Maomé.
Lustro IV: idem - Samuel Johnson, James Boswell, Goethe, Freud, Thomas Mann.
Lustro V: Binah -Nierzsche, Kierkegaard, Kafka, Proust, Samuel Beckett.
Lustro VI: idem - Molière, Ibsen, Tchekhov, Oscar Wilde, Pirandello.
Lustro VII: Hesed - John Donne, Pope, Jonathan Swift, Jane Austen, Lady Murasaki.
Lustro VIII: idem - Nathaniel Hawthorne, Melville, Charlotte Brame, Emily Jane Brame, Virginia Wolf.
Lustro IX: Din - Emerson, Emily Dickinson, Robert Frast, Wallace Stevens, T. S. Eliot.
Lustro X: idem - Wordsworth, Shelley, Keats, Leopardi, Tennyson.
Lustro XI: Tiferet - Swinburne, Gabriel Rossetti, Christina Rossetti, Walter Pater, Hofmannsthal.
Lustro XII: idem - Victor Hugo, Gérard de Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Paul Valéry.
Lustro XIII: Nezat - Homero, Camões, James Joyce, Carpentier, Octavio Paz.
Lustro XIV: idem - Stendhal, Mark Twain, Faulkner, Hemingway, Flannery O'Connor.
Lustro XV: Hod - Walt Whitman, Fernando Pessoa, Hart Crane, García Lorca, Luis Cernuda.
Lustro XVI: idem - Eliot, Willa Cather, Edith Wharton, F. Scott Fitzgerald, Iris Murdoch.
Lustro XVII: Yesod - Flaubert, Eça de Queirós, Machado de Assis, Borges, Italo Calvino.
Lustro XVIII: idem - William Blake, D. H. Lawrence, Tennessee Williams, Rilke, Eugenio Montale.
Lustro XIX: Malkhut - Balzac, Lewis Carroll, Henry James, Robert Browl, Yeats.
Lustro XX: idem - Dickens, Dostoievski, Isaac Babei, Paul Celan; Ellison.
II - COMENTÁRIOS:
1. A listas e listas
Poder-se-ia perguntar por que esses e não outros os literatos listados? Porém, temos de reconhecer que nenhuma lista com o número que fosse de autores iria contentar a todos. Esta parece incluir uma boa e criteriosa seleção, própria do nome do livro e do próprio autor, que é também um gênio. Saudado pelos grandes periódicos, Harold Bloom é: “Um gigante entre os críticos... Seu entusiasmo pela literatura é contagiante” (New York Times Sunday Magazine); “Um mestre do entretenimento” (Newsweek); “Bloom é simplesmente um sacerdote da grandeza humana” (The Iris Time).
Felizmente, nesta seleção de autores, a Literatura Brasileira conta com um representante, e, merecidamente, ele é Machado de Assis. Não poderia aí estar também um poeta, como, por exemplo, Carlos Drummond de Andrade? A nossa coirmã Literatura Portuguesa foi um pouco mais bem aquinhoada (3 nomes): Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queirós. E por onde andará Padre Vieira, que não aparece nem na Portuguesa, nem na Brasileira?
2. O grupo do nosso representante
Já que contamos com Machado de Assis incluído no Lustro XVII, regido pelo sefirah Yesod, vamos nos fixar neste grupo e especialmente no autor brasileiro. O nosso representante está ao lado do francês Flaubert, do português Eça de Queirós, do argentino descendente de portugueses e ingleses Borges, e do cubano-italiano Italo Calvino.
Os três primeiros são fundamentalmente romancistas e contistas; o quarto, é mais especificamente contista e filósofo; e o último, além de ficcionista, também é filósofo e crítico literário.
Por estilo de época, Flaubert foi o único verdadeiramente representante do Realismo. Eça de Queiros, embora também realista, é bastante influenciado inicialmente pelo Romantismo e depois pelo Impressionismo. Machado de Assis é um escritor que, embora classificado de realista, pouco tem desse movimento e está acima de qualquer classificação literária. Por isso, tem sido considerado um verdadeiro precursor de determinado tipo de Modernismo e mesmo de Pós-Modernismo, aqueles da introspecção, do psicologismo, do Existencialismo e, portanto, anunciador e muito próximo de autores muito recentes, como o português Virgílio Ferreira e a brasileira Clarice Lispector. Borges, por outro lado, pertence ao que se convencionou chamar de Realismo Mágico, Realismo Fantástico, ou, ainda, Realismo Maravilhoso, frequente em grande parte da literatura hispano-americana do séc. XX. Finalmente, temos Italo Calvino, fiel discípulo de Borges e de suas idéias, e também ele um seguidor do Realismo Fantástico e que segue rumo a uma literatura do absurdo.
3. O nosso representante Machado de Assis
Machado de Assis, como os outros do Lustro XVII, está sob o signo de Yesod, o safirah que, em tradução livre, segundo o autor, significa “fundação” e encerra dois significados afins: “o impulso sexual masculino e o mistério do equilíbrio entre o feminino e o masculino, nos processos naturais”. É também “a base da vida apaixonada”. De modo geral, neste Lustro XVII estão autores marcados pela ironia. Na outra metade, que corresponde ao Lustro XVIII, encontram-se autores que Bloom chama de visionários (William Blake, D. H. Lawrence, Tennessee Williams, Rilke e Eugenio Montale). Estes, porém, não serão tratados aqui.
Da obra de Machado de Assis, depois de transcrever textos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, disse Bloom: “O verdadeiro tema de Machado de Assis é a nossa mortalidade, o que não constitui assunto para descaso e gracejo; no caso de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o tema enseja uma perspectiva, ao mesmo tempo, distanciada e hilária”.
Sobre o escritor Machado de Assis, assim se referiu o crítico Bloom: “O gênio da ironia propiciou-nos poucos exemplos à altura do escritor afro-brasileiro Machado de Assis, a meu ver o maior literato negro surgido até o presente”. E para concluir o seu parecer, brinca, como brincaria o próprio autor de Memórias Póstumas: “Machado de Assis teria desprezado a minha observação, como mais uma piada digna de Tristram Shandy”.
Tristram Shandy é a personagem principal da obra homônima, de autoria do irlandês Laurence Sterne (1713-1768). Uma das características da personagem Shandy e da própria obra é a transcrição de documentos. Com isso, busca que o seu texto se pareça mais verdadeiro do que ficcional. Essa técnica mais tarde foi bastante empregada na ficção. Esse forma de indicação de fontes às vezes é feita de modo sério e outras vezes como se fosse uma brincadeira.
Sterne, citado por Machado de Assis, emprega uma linguagem constantemente carregada de ironia. Influenciado pelo modo de narrar do escritor irlandês e de um outro, o autor sardo de Viagem à Roda do meu Quarto, Machado de Assis os cita no início de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio”.
Paulo Sérgio Rouanet no estudo “Tempo e Espaço na Forma Shandiana: Sterne e Machado de Assis”, sobre “forma shandiana”, afirma: “Ela designa uma atitude entre libertina e sentimental, um sensualismo risonho, um humor afável e tolerante, capaz de perdoar transgressões próprias e alheias, mas também de zombar, sem excessiva malícia, dos grandes e pequenos ridículos do mundo”. Continua Rouanet: “É uma forma caracterizada 1. pela presença constante e caprichosa do narrador, ilustrada enfaticamente pelo pronome de primeira pessoa: "Eu, Brás Cubas ; 2. por uma técnica de composição difusa e livre, isto é, digressiva, fragmentária, não-discursiva; 3. pela interpenetração do riso e da melancolia; e 4. pela subjetivação radical do tempo (os paradoxos da cronologia) e do espaço (as viagens)”.
Foi assim que Machado de Assis no prólogo da 3.ª edição de Memórias Póstumas de Brás Cubas, acrescentou mais um “viajante”, o português Almeida Garrett, de Viagens na Minha Terra. Diz Machado que todos esses realizavam determinado tipo de viagem: “Xavier de Maistre à roda do quarto, Garrett na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas se pode dizer que viajou à roda da vida”.

No fragmento, percebe-se a profundeza do velho Machado: o que pode ser mais profundo, difícil e irônico do que “viajar ao redor da vida”. Parafraseando Drummond - Entanto, viajamos “mal rompe a manhã”.
4. Final
Assim são os gênios. Assim é o gênio Machado de Assis. Em todos eles está representada “a interioridade de Deus”, e, portanto, em todos eles se encontra “o espírito de Deus”. E, por fim, deve-se lembrar de que "a arte aproxima o homem do seu Criador” (frase atribuída a vários pensadores do Renascimento e retomada recentemente pelo papa João Paulo II, na Carta aos Artistas): “A música, como todas as linguagens artísticas, aproxima o homem de Deus”.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

CLAUDE LÉVI-STRAUSS – PENSADOR FRANCÊS E AMIGO DO BRASIL

Claude Lévi-Strauss dans son bureau du Collège de France, en 2001 à Paris. (photo : AFP)

Infelizmente, os grandes homens também morrem. Jornais de todo o mundo noticiaram nesta quarta-feira, 4 de novembro, a morte de Lévi-Straus, na França, na madrugada de domingo, 1.º de novembro, mas só agora anunciada em comunicado conjunto da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales e de de seu editor, Plon.
Aqui, em Curitiba, a manchete da Gazeta do Povo estampava: MORRE AOS 100 ANOS LÉVI-STRAUSS, PAI DA ANTROPOLOGIA MODERNA; No Le Figaro: CLAUDE LÉVI-STRAUS EST MORT, para ficar somente com dois períodicos, um local e outro da terra do falecido, o grande criador da Antropolgia Estrutural.
Recentemente, Lévi-Strauss recebeu importantes homenagens do mundo inteiro pela passagem do seu centésimo aniversário, comemorado no dia 28 de novembro do ano passado. Portanto, há pouco menos de um ano.
O grande pensador francês é considerado o fundador da antropologia estrutural, principalmente por seus estudos sobre a língua, costumes e lendas de povos indígenas do Brasil. Aqui, ele permaneceu de 1935 a 1939, quatro anos fundamentais para seus estudos e para a apresentação de uma nova teoria antropológica ao final dos anos 40 e iníco dos anos 50. Com suas obras, principalmente As Estruturas Elementares do Parentesco, de 1949, e Tristes Trópicos, de 1955, tornou-se reconhecido e admirado mundialmente como cientista e pensador.
Foi professor honorário do Collège de France, no qual regeu a Cátedra de Antropologia Social de 1959 a 1982. Foi membro da Academia Francesa, o primeiro a atingir 100 anos de idade. É considerado um dos mais importantes intelectuais dos nossos tempos.
No Brasil, Lévi-Strauss esteve inicialmente como membro de uma grande missão francesa, que veio para a consolidação da recém-criada Universidade de São Paulo, a USP, de janeiro de 1934. Permsaneceu como professor na Instituição até 1938, quando abandonou o magistério para dedicar-se exclusivamente às suas pesquisas junto aos povos indígenas de Goiás, Mato Grosso e Paraná. Segundo ele, foram essas viagens que despertaram o seu grande interesse pela antropologia e pela pesquisa. Como resultado desses estudos, escreveu uma obra fundamental, Tristes Trópicos.
Inicialmente, por conhecer somente os indígenas do Norte do Paraná, na região do rio Tibagi, os Kaingang, pensou tratar-se de um povo não totalmente índios e nem verdadeiros selvagens. Só mais tarde com a incursão por terras dos Kadiweu, na divisa com o Paraguai e conhecimento dos Bororo do Mato Grosso é que conseguiu reunir os dados necessários para uma nova teoria antropológica. Foi com esses estudos que conseguiu prestar provas na França para o ingresso no magistério, pois não era formado em Antropologia.
Graças a essas pesquisas de 1936 é que conseguiu dinheiro e reconhecimento necessários para fazer nova expedição, esta em 1938, para estudar os índios Nambiqwara, de Mato Grosso. A missão também visitou os últimos homens e mulheres Tupi- Kaguahib, na região do rio Machado, considerados já desaparecidos.
Além do casal francês, Lévi e Diana Strauss, participaram dessa última expedição, o médico e etnólogo francês Jean Vellard e o antropólogo brasileiro Luís de Castro Faria. Este último revela os problemas que a missão enfrentou com os órgãos públicos brasileiros, porque contava com o patrocínio de Paul Rivet, um político ligado ao Partido Socialista Francês.
Denis Bertholet, um de seus biógrafos, assim descreve Claude Lévi-Strauss: “Philosophe de formation, ce pionnier du structuralisme qui arpentait le monde pour en étudier les mythes, ce précurseur dans le domaine de l'écologie qui écrivait admirablement, a oeuvré à la réhabilitation de la pensée primitive, avec parfois le regard d'un moraliste. A cheval entre philosophie et science (…), son oeuvre est indissociable d'une réflexion sur notre société et son fonctionnement. Il a une approche écologique du monde et des individus, avant la lettre” (Filósofo por formação, este pioneiro do estruturalismo que avaliava o mundo pela ótica dos mitos, este precursor no domínio da ecologia que escreveu admiravelmente uma obra de reabilitação do pensamento primitivo, com o olhar às vezes de um moralista. Colocada entre a a filosofia e a ciência (...)sua obra é indissociável de uma reflexão sobre nossa sociedade e seu funcionamento. ela apresenta um enfoque ecológico do mundo e dos indivíduos, antes mesmo de tal acontecer). Vê-se, assim, a importância do pensamento de Lévi-Strauss, classificado inclusive como um ambientalista antes mesmo de existir tal conceito e tanta preocupação com a natureza, como há em nossos dias.
De volta à França em 1939, com o surgimento da Segunda Grande Guerra, muda-se para os Estados Unidos e passa a lecionar em Nova Yorque. Em 1959, com o retorno à França, torna-se professor no Collège de França e se torna o primeiro antropólogo eleito para a Academia Francesa.
O grande mérito científico de Lévi-Strauss e a base de sua teoria foi ter aplicado ao conjunto dos fatos humanos de natureza simbólica um método, o método estruturalista. Com isso, ele passa a tratar do “pensamento selvagem” e não mais do “pensamento do selvagem”. Aparentemente apenas um jogo de palavras, mas em verdade uma total mudança no enfoque das pesquisas antropológicas. Sua obra O Pensamento Selvagem, de 1962, é o marco histórico dessa mudança. Catherine Clément, autora de um ensaio sobre o etnólogo, explica: “Quand il nous explique que la ‘pensée sauvage’ est en chacun de nous, il n'y a plus de distinction de fonctionnement mental entre les primitifs et nous. C'est une révolution intellectuelle considérable”. (Quando ele nos explica que o “pensamento selvagem” se encontra em cada um de nós, ele deixa de fazer a distinção do funcionamento mental entre os povos primitivos e nós. Isso é uma revolução intelectual considerável).
Lévi-Strauss costumava se definir como um “viajante, arqueólogo do espaço, que procurava em vão reconstituir o exotismo com o auxílio de fragmentos e de destroços”. Segundo seus contemporâneos, era um homem elegante, gentil, de olhar claro e penetrante, dotado de grande presença e marcado pela grande capacidade de escutar os outros. Como cientista dedicado a pesquisas, é autor de uma frase que se tornou célebre, pela verdade que encerra. Encontra em O Cru e o Cozido: “O sábio não é o homem que fornece as verdadeiras respostas. É o que faz as verdadeiras perguntas.” Sabe-se, hoje, que um estudo científico surge com base em um problema, sempre proposto em forma de questionamento pelo próprio pesquisador. Lévi-Strauss antecipou-se a nossos tempos em que as pesquisas se expandiram de forma exponencial.
CLAUDE LÉVI-STRAUSS E O ESTRUTURALISMO
Um grande pensador, considerado um gigante do pensamento moderno, Claude Lévi-Strauss é um verdadeiro mago do Estruturalismo. Essa corrente do pensamento científico iniciou-se na Lingüística com os estudos de Saussure (filósofo e lingüista suíço – 1857-1913) já no início do século XX. Teve vários desdobramentos até eclodir nos anos 60 no que se convencionou chamar de “Estruturalismo Francês”. Segundo a teoria estruturalista, por trás de toda a atividade humana, estão as “estruturas universais”. São elas que dão forma a culturas e às criações de todo tipo do ser humano. Assim, a linguagem, os mitos, as religiões, a poesia, tudo é resultado dessas “estruturas” e são próprias do gênero humano. O homem passa a ser identificado como “homo symbolicum”, de que nos fala Ernst Cassirer, e não mais o “homo erectus” dos primeiros antropólogos, nem mesmo o “homo sapiens”, de algumas outras teorias.
Como bom estruturalista, ele baseou seus estudos nas oposições binárias (na Linguística de Saussure, como exemplos, os conceitos significante e significado; forma e conteúdo.). Estudou oposições como: o cru e o cozido; o quente e o frio, o animal e o humano. Distinguia-se dos demais antropólogos pelo fato de que os outros buscavam revelar as diferenças entre povos e culturas, e ele buscava as estruturas universais, também chamadas “estruturas profundas”. Os seus estudos colaboraram mais para a igualdade de povos e culturas do que para as diferenças entre eles. Essas semelhanças, porém, encontravam-se naquilo que era essencial e não apenas externo, como viam os demais antropólogos. Um dos fundamentos do Estruturalismo é exatamente a oposição essência / aparência.
Em o Cru e o Cozido, Lévi-Strauss declarou haver orientado suas pesquisas etnográficas na direção da psicologia, da lógica e da filosofia (a essência). Ele não estava interessado nos propósitos a que serviam as práticas rituais de uma determinada sociedade (a aparência).
CLAUDE LÉVI-STRAUSS ESCRITOR
Em suas obras, o autor estudou principalmente a correlação do processo formador de mitos com o pensamento ocidental.
As principais são:
· As Estruturas Elementares do Parentesco (1949) - Marco fundador da antropologia estrutural. Lévi-Strauss repensa o problema universal da proibição do incesto.
· Tristes Trópicos (1955) – ­Espécie de autobiografia intelectual, a obra relata a vinda de Lévi-Strauss ao Brasil nos anos 1930.
· Antropologia Estrutural (1958) – ­Nesta coletânea, o autor apresenta paralelos estruturais entre as figuras do xamã e do psicanalista e lança as bases teóricas da mitologia.
· Mitológicas (1964-71) - Análise de cerca de 800 mitos ameríndios inspirado nos moldes da música.
· Via das Máscaras (1975) – Strauss retoma a questões fundamentais da estética e da história da arte.
· História de Lince (1991) - O autor investiga as fontes filosóficas e éticas do dualismo ameríndio com base nas lendas.
· Saudades do Brasil (1994) - Álbum fotográfico que remonta às raízes da aventura antropológica de Lévi­-Strauss e que traz imagens de São Paulo e do Centro-Oeste.
(Fonte: Folhapress)
Segundo seus estudiosos, os livros do cientista apresentam argumentos complexos expressos em uma linguagem metafórica, simbólica. Seus textos em nada lembram os escritos antropológicos anteriores a ele.
TEXTO DO LIVRO O PENSAMENTO SELVAGEM
A idéia de que o universo dos primitivos (ou que se supõe que o sejam) consiste principalmente em mensagem não é nova. Mas, até uma época recente, atribuía-se um valor negativo ao que, erradamente, se tomava por um caráter distintivo, como se esta diferença entre o universo dos primitivos e o nosso con­tivesse a explicação de sua inferioridade mental e tecnológica, quando ela os põe antes em pé de igualdade com os modernos teóricos da documentação. Era preciso que a ciência física descobrisse que um universo semântico possui todos os carac­teres de um objeto absoluto, para que se reconhecesse que. a maneira pela qual os primitivos conceptualizam seu mundo é, não apenas coerente, mas a mesma que se impõe em presença de um objeto cuja estrutura elementar oferece a imagem de uma complexidade descontínua.
De uma só vez achava-se superada a falsa antinomia entre mentalidade lógica e mentalidade pré-lógica. O pensamento selvagem é lógico, no mesmo sentido e da mesma forma que o nosso, mas como o é apenas o nosso quando se aplica ao conhecimento de um universo a que reconhece, simultaneamen­te, propriedades físicas e propriedades semânticas. Uma vez dissipado este mal-entendido, não é menos verdade que, con­trariamente à opinião de Lévy-Bruhl, este pensamento progri­de pelas vias do entendimento, não da afetividade; com o au­xílio de distinções e de oposições, não por confusão e parti­cipação. Se bem que o termo não tivesse ainda entrado em uso, numerosos textos de Durkheim e Mauss mostram que eles haviam compreendido que o pensamento dito primitivo era um pensamento quantificado
.

(p. 304-305).
LÉVI-STRAUSS NO BRASIL
No Brasil, além de professor e pesquisador da USP, Lévi-Strauss tornou-se Doutor Honoris Causa pela Universidade que muito aprendeu com ele. Como Acadêmico, desprezava a elite e valorizava os índios.
Ao mesmo tempo em que enaltecia um Brasil de que os próprios brasileiros se envergo­nhavam, Lévi-Strauss pode ser descrito como "carinhoso" ao falar de povos como os nambiquaras e os bororos. Foi duro, porém, e mesmo implacável às vezes, ao tratar da sociedade brasileira urbana, que considerava sempre à procura de status.
Lévi-Strauss se utilizava das lições aprendidas com grupos indígenas do cerrado (Goiás) e da floresta (Mato Grosso) - principalmente como relacio­nar natureza e cultura -, para a criação de um dos pensamentos mais in­fluentes da segunda metade do século 20. Enquanto isso, muitos brasileiros ainda olhavam esses mesmo índios co­mo um sinal de atraso a ser superado ou esquecido.
As suas lições só foram realmente aprendidas pelos antropólogos brasi­leiros entre os anos de 1950 e 1980. Portanto, depois de 10 e mais anos após o seu regresso à França. De certo modo, é compreensível, pois foi por essa época que seus livros saíram publicados.
Assim como Claude Lévi-Strauss aprendeu bastante com o Brasil, o Brasil também aprendeu muito com Claude Lévi-Straus. Resta, porém, muito ainda a aprender com esse sábio ligado ao nosso país.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 2009 - HERTA MÜLLER



Herta Müller - Prêmio Nobel de Literatura 2009

1. O Prêmio Nobel
O Prêmio Nobel foi instituído em 1895 pelo industrial sueco Alfred Nobel (1833-1896). A fortuna adquirida com a patente da dinamite foi destinada à criação de uma fundação e de um prêmio. Os prêmios concedidos oficialmente desde 1901 são cinco: Medicina, Física, Química, Literatura e da Paz. O de Economia foi instituído em 1968 pelo Banco Central da Suécia com recursos próprios. Este prêmio, que começou a ser atribuído em 1969, só como homenagem pode ser chamado de Prêmio Nobel.
O Nobel, segundo alguns críticos, tem assumido um caráter político. É o caso do Prêmio de Economia. A Fundação Humboldt, incumbida de distribuí-lo, tem concedido o Prêmio sistematicamente a economistas humboldtianos. O presidente do Comitê de Outorga procura abrandar a situação: “as tendências políticas dos ganhadores do prêmio são muito variadas. Alguns são claramente conservadores ou de direita, enquanto que outros são obviamente de esquerda, ou pelo menos do centro do espectro político”.
No caso específico da concessão do Prêmio de Literatura deste ano de 2009 a Herta Müller, a Academia justificou com argumento literário e ao mesmo tempo político. A obra: “com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, descreve a paisagem dos despos­suídos”.
Lya Luft, tradutora da versão portuguesa de Heute wär ich mir lieber nicht begegnet, declara: “Prêmios de literatura são em geral muito estranhos. Muitos autores premiados não são interessantes, nem muito bons, e a gente não sabe por que ganha”.
Herta Müller assumiu o número107 na lista dos ganhadores do Nobel de Literatura. Ela é a 12.ª mulher a receber o Prêmio.
2. Herta Müller, escritora romeno-alemã
Nasceu em 1953, em Nitzkydorf, vilarejo de Banat, na Romênia. Aí vivia um grande número de imigrantes alemães, os Donauschwaben, “suábios do Danúbio” (no Paraná se encontra importante colônia de imigrantes suábios, a de Entre Rios). Na época do Nazismo, romenos de ascendência alemã foram deportados para campos de trabalhos forçados na União Soviética, inclusive a mãe de Herta Muller. O livro Atemschaukel (“Ritmo da respiração”) retrata o exílio desses romenos sob o regime comunista da então URSS.
Entre os anos de 1972 e 1976, Herta Müller estudou filologia germânica e romanística na Universidade de Timisoara, capital de Banat. Nessa época, ingressou no Aktions-gruppeBanat, que reunia intelectuais contrários ao regime de Ceausescu e que lutavam pela liberdade de ex­pressão. Depois de 1976, passou a trabalhar em uma fábrica de máquinas. Foi despedida por não ter aceito colaborar com policia secreta do regime romeno. Assumiu o magistério, mas foi impedida de exercer a função. Essas experiências com o regime comunista da Romênia vão-se tornar tema de suas obras. Os livros de Herta Müller são como um ajuste de contas com esse passado de sofrimento.
O primeiro livro de Herta Müller, Niederung (Depressões - terras baixas) são contos que focalizam a vida em pequeno vilarejo com o cenário de repressão que aí se vivia. A obra foi censurada. Em 1984, o livro foi contrabandeado para a Alemanha, onde alcançou grande sucesso. Nesse ano de 1984, lançou na Romênia Drückender Tango (Tango opressivo). A obra também se tornou proibida, e a autora foi impedida de publicar em sua própria terra. Perseguida, Herta e seu marido emigraram para a Alemanha em 1987, dois anos antes da queda de Ceausescu.
Dentre suas obras principais, além das já referidas, destacam-se: os romances Der Fuchs war damals schon der Jäger,1992 (“A raposa era o próprio o caçador”), Herztier 1994 (“Animal do coração” – Coração selvagem) e Heute wär ich mir lieber nicht begegnet,1997 (“Hoje eu não gostaria de me encontrar”). Para o Comitê do Prêmio, essas obras: “apresentam, com detalhes primorosos, um retrato da vida sob a estagnação da ditadura”. Além desses, publicou: Der Mensch ist ein groβer Fasan auf der Welt, 1986 (“O homem é um grande faisão sobre a terra”); Barfüβiger Februar, 1987 (“Fevereiro descalço”); Reisende auf einem Bein, 1989 (“Viajante em uma só perna”); Der Teufel sitzt im Spiegel, 1991 (“O diabo está no espelho”); Eine warme Kartoffel ist ein warmes Bett, 1992 (“Uma batata quente é uma cama quente”); Der Wächter nimmt seinen Kamm, 1993 (“O vigia toma – rouba - o seu pente”); In der Falle, 1996 (“Na armadilha”); Im Haarknoten wohnt eine Dame, 2000 (“No nó do cabelo – coque - vive uma senhora”); Heimat ist das, was gesprochen wird, 2001 (“Pátria é o que é falado” – é o que se fala); Der König verneigt sich und tötet, 2003 (“O rei se inclina e mata”); e Die blassen Herren mit den Mokkatassen, 2005 (“Os pálidos homens com as xícaras de cafezinho”). Publicou ainda um livro de ensaios, Hunger und Seide,1995 (“Fome e seda”).
As suas obras estão traduzidas para o inglês, espanhol, francês e sueco. A única obra em português é a tradução brasileira de Heute wär ich mir lieber nicht begegnet feita por Lya Luft e publicada pela Editora Globo, em 2004. Aqui, recebeu o título O Compromisso contra a vontade da própria tradutora. A Editora o escolheu provavelmente influenciada pelo título da tradução americana, The Appointment. É interessante notar que em francês o livro recebeu o título La Convocation, coerente com a ideia que aparece já no início da narrativa: “Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto... e que se repete ao longo da narrativa.
Lya Luft, por qualquer motivo, não deu importância ao livro que traduziu. Ao receber a notícia que Herta Müller
havia vencido o Prêmio Nobel de Literatura, reagiu como muitos: “nunca ouvi falar”. No momento da notícia, disse: “Esqueci dele. Não foi um livro particular para mim, nem nunca mais tinha ouvido falar da autora”. Alegou que o esquecimento se deveu ao fato de o livro ter saído com título diferente do que havia proposto. Acrescenta: “Na minha opinião, não era um livro importante. Era só um dos muitos que já traduzi. Confesso que nunca pensei, ‘puxa, isso ainda vai dar o Prêmio Nobel’.” Lya Luft se declara não especialista em literatura alemã. Porém, já traduziu escritores alemães, como Hermann Hesse (também suábio); Thomas Mann (Prêmio Nobel de Literatura, 1929); e Günter Grass (Prêmio Nobel de Literatura, 1999). Para estes, ela não economiza elogios, mas sobre Herta Muller e seu livro, insiste: “não tenho coisas interessantes para dizer”.

Capa da edição original com o intrigante cavalo branco

3. O literário na obra de Herta Müller
A obra de Herta Müller na sua maioria versa o tema da vida sob uma ditadura socialista. A autora retrata em seus livros as dificuldades, humilhações e sofrimentos infligidos a imigrantes e também aos próprios romenos que se colocassem contra o governo.
Na obra traduzida para o português, um oficial da polícia secreta persegue, assedia e leva à demissão uma trabalhadora de uma fábrica de roupas (a autora, como a personagem, foi empregada em uma fábrica e sofreu os mesmos problemas). A personagem com frequencia é “convocada”, para ser interrogada em datas aleatórias e sobre acusações completamente sem sentido. Essa fixação na convocação torna-se um dos motivos condutores da obra. Vários outros de seus livros falam da vida da minoria alemã sob um regime opressivo, principalmente por falta de liberdade, intolerância racial e cultural, e opressão dos homens sobre as mulheres.
Ao ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, Herta Müller declarou:
1. “Estou surpresa e ainda não consigo acreditar; neste momento não consigo dizer mais nada”.
2. “Minha escrita sempre tratou de como uma ditadura surge, como uma situação pode ocorrer em que um punhado de pessoas poderosas dominam um país e o país desaparece, e só resta um Estado”.
3. “Acho que a literatura sempre emerge de coisas que fizeram dano a alguém, e há um tipo de literatura em que os autores não escolhem seu assunto, mas lidam com um que lhes foi lançado - não sou a única escritora assim”.
No caso da edição brasileira, a tradutora assim se refere à personagem da obra: “É uma personagem bastante kafkiana, com essa coisa persecutória da pessoa que se vê envolvida em uma situação a que não sabe como chegou, sempre muito fragilizada”.


Capa da tradução brasileira com o selo de Prêmio Nobel de Literatura 2009

A leitura de fragmentos de O Compromisso nos dará a oportunidade de tecer comentários sobre aspectos da estrutura da obra:
1.
Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto.
Sou convocada cada vez com maior freqüência: às dez em ponto na quinta, às dez em ponto no sábado, na quarta ou na segunda. Como se os anos fossem uma semana, fico imaginando que depois do fim de verão logo teremos outra vez inverno.
No trajeto até o bonde os arbustos voltam a emergir através das cercas, com suas frutinhas brancas. Como botões de madrepérola costurados embaixo, talvez até terra adentro, ou como migalhas de pão. Para cabecinhas de pássaros com bicos tortos, as frutinhas são pequenas demais, mesmo assim penso em cabeças de pássaros brancos. E isso dá vertigem. Prefiro pensar em flocos de neve no capim, mas aí a gente se perde, e pensar em giz nos dá sono.
O bonde não tem horários fixos.
Penso que é ele que chega rumorejando, se não forem os choupos com suas folhas duras. Está chegando, o bonde, e hoje me levará logo. Estou decidida a deixar o velho de chapéu de palha embarcar na minha frente. Quando cheguei ele já estava na parada, sabe lá fazia quanto tempo. Não parece frágil, mas é magro como sua sombra, meio corcunda, e abatido. Não tem bunda para encher os fundilhos, nem quadris, só os joelhos marcam a calça.
Mas se no exato momento em que a porta do bonde se abrir ele resolver escarrar no chão, eu embarco antes dele. Quase todos os assentos estão livres, ele os examina com o olhar e fica de pé.
Como é que gente tão velha não fica cansada e insiste em ficar de pé mesmo quando se pode sentar. Às vezes, ouvimos os velhos dizerem: Já vamos ficar deitados tempo suficiente no cemitério. Mas nem estão pensando em morrer, e têm razão. Não há uma ordem fixa, jovens também morrem. Sempre que não preciso ficar de pé, eu me sento. Viajar sentado é como caminhar sentado. O homem me examina, é fácil perceber isso no carro vazio. Hoje estou sem vontade de conversar, senão perguntaria o que é que ele vê em mim. Nem se apercebe que seu olhar me incomoda. Lá fora passa metade da cidade, alternando-se entre árvores e casas. Dizem que gente de idade sente mais do que pessoas jovens. Talvez ele até perceba que hoje tenho na bolsa uma toalhinha de rosto e pasta de dentes, além de uma escova. Mas nada de lenço, pois não pretendo chorar.
(Início da narrativa, p. 7)
2.
Desde as três desta manhã escuto o tique-taque do despertador: convocada, convocada, convocada ... Quando dorme, Paul encosta o pé em mim, em diagonal sobre a cama, e se afasta tão depressa que, sem acordar, ele próprio se sobressalta. É um hábito seu. Meu sono passou. Fico deitada, acordada, e sei que deveria fechar os olhos para adormecer de novo. Mas não os fecho. Várias vezes desaprendi o sono e tive de aprendê-lo de novo, do jeito que podia. É um processo bem simples, ou então não funciona. Tudo dorme na madrugada, até gatos e cachorros só rondam as latas de lixo metade da noite. Quando se sabe que não se pode mesmo dormir, é mais fácil pensar em algo claro no quarto escuro do que fechar os olhos com força, em vão. Pensar em neve, em troncos de árvore bran­cos, em aposentos brancos, em muita areia ­com isso eu passei o tempo muitas vezes até o dia clarear, quando me dava vontade. Esta manhã podia ter pensado em girassóis, e fiz isso, mas não consegui esquecer que estava convocada para as dez em ponto. Como o des­pertador tiquetaqueava convocada, convocada, convocada, tive de pensar no major Albu, antes mesmo de pensar em mim e em Paul. Hoje, quando Paul se sobressaltou, eu já estava acor­dada. Quando a janela ficou de cor cinza, eu já tinha visto no teto do quarto a boca de Albu, muito grande, a ponta da língua cor-de-rosa atrás dos dentes inferiores e sua voz zombeteira:
- Não precisa ficar nervosa, estamos apenas começando.
(p. 11)
3.
Prefiro espiar pela janela da cozinha. As andorinhas atravessam um grande pedaço de céu, girando em seu círculo particular. Esta manhã elas voavam baixo, eu mastigava minha noz e, vendo-as, per­cebi que lá fora era dia. Como fui convocada, será só um dia atra­vés da vidraça, ainda que ao lado da mesa do major eu enxergue metade de uma árvore. Desde que comecei a ser convocada, ela certamente cresceu pelo menos o comprimento de um braço. No inverno é a madeira que assinala o tempo, no verão é a folhagem. A folhagem balança ou sacode a cabeça, segundo o vento. Não posso me distrair com isso. Quando Albu faz uma pergunta breve, quer resposta imediata. Perguntas breves não são as mais simples.
Eu preciso refletir.
(p. 37)
4.
Eu pensava sobre as peças que a vida prega, e no caminho de casa, voltando do sapateiro, repassei todas as maneiras de se can­sar do mundo. Primeira e melhor: Nunca ser convocado e nunca enlouquecer, como a maioria. Nunca ser convocada mas enlouque­cer, como a mulher do sapateiro e a sra. Micu ao lado da entrada lá embaixo, é a segunda. Terceira: Ser convocada e enlouquecer, como as duas mulheres no hospício, que alguém fez enlouque­cer. Ser convocado e jamais enlouquecer como Paul e eu, é a quarta maneira. Não muito boa, mas em nosso caso é ainda a melhor pos­sibilidade. Na calçada havia uma ameixa esmagada, vespas matando a fome, recém-nascidas ou velhas. Se toda uma família se acomo­da na ameixa, como será isso. O sol preferiu trocar a cidade pelos campos. A um primeiro olhar, o sol estava maquilado em cores ber­rantes para a noite, a um segundo olhar via-se que levara um tiro - vermelho como todo um canteiro de papoula, dissera o oficial de Lili. Sim, essa é a quinta possibilidade: Ser muito jovem, bela a mais não poder, nada louca, mas morta. Para morrer não é preciso chamar-se Lili. (p. 117)
5.
Antes de comprar as batatas eu fora ver os doces na mercea­ria. Nos potes de vidro amontoados vi bombons vermelhos onde se grudavam vespas mortas, depois lâminas de barbear enferruja­das, depois biscoitos quebrados, depois caixas de fósforo, depois bombons verdes grudados, também com vespas. E na prateleira as garrafas alternavam suas cores, licor de ovos amarelo, suco de gro­selha rosado, uma aguardente esverdeada, removedor de unhas claro como água. O que estava ali realmente parecia achar que era outra coisa. O vendedor dava a impressão de ser uma pessoa feita de fósforos, lâminas, bombons grudentos e biscoitos, que logo iria se desmanchar.
Cem gramas daquelas lâminas de barbear doces, eu disse.
Trate de sumir daqui, ele gritou, compre alguma coisa na farmácia que lhe devolva o juízo.
Eu tinha mesmo perdido o juízo, todas as mercadorias se confundiam em minha cabeça. Fui até a quitanda e fiquei contente porque as batatas do caixote não se transformaram em sapatos ou pedras na balança. Levei na mão dois quilos de batatas e na cabeça a irrefutabilidade das coisas. Depois fui até a farmácia e comprei o olho de vidro. Quando pararem de me convocar, quero que Paul cole nele um pequeno aro, e eu o usarei como enfeite no pes­coço, pensei então. Quando se ouve, do patamar, o elevador descendo com o men­sageiro de Albu, a voz dele soa baixinho na minha cabeça: Terça, dez em ponto, sábado, dez em ponto, quinta, dez em ponto. Quantas vezes depois de fechar a porta eu disse a Paul:
Não vou mais lá.
Paul me pegava pelo braço:
Se você não for, eles virão te apanhar aqui, e não te soltam mais.
Eu balançava a cabeça concordando.
(p. 202-203)
6.
Quando alguém sai do elevador, a porta bate como pedras no andar acima ou abaixo. E aqui no andar como ferro. Quando escuto ferro, vou até o patamar. Hoje Albu virá. Quando fui convocada pela primeira vez, ele me mostrou sua identificação. Fiquei olhando boquiaberta a foto dele, em vez de ler como alguém que esmaga seus dedos ao beijar sua mão é cha­mado pela mãe, pela mulher. Devia haver dois, três nomes, tarde demais, a identificação já fora guardada. Se Albu disser que eu devo sumir, vou lhe dizer a verdade:
Meu avô pintou aquele cavalo na casa dele, e eu esperei você aqui diante da porta do apartamento.
E se Paul sair do elevador, também direi isso, então ele não terá de mentir até eu indagar:
Onde é que você esteve.
E como tantas vezes e!e dirá:
Na minha camisa e junto de você.
A Java vermelha recém-pintada brilha. Por tédio, por acaso, o velho olha para o arbusto e inclina-se junto do ouvido de Paul. Agora Paul se levanta e me enxerga. Por que está abotoando sua camisa.
Há, há, nada de enlouquecer.
(Trecho final da obra, p. 204)
4. Comentário sobre o texto

Os trechos, embora muito parcialmente, dão-nos uma idéia de aspectos da temática, da construção e da linguagem de O Compromisso, de Herta Müller. Aí se encontram a tortura das seguidas convocações da personagem (nunca nomeada no livro) pelo regime comunista (representada pelo major Albu), numa linguagem transparente (embora se trate de uma tradução) e sem grandes novidades no modo de narrar.
Mesmo tratando-se de uma obra com tendências realistas, a autora não se restringe a mostrar-nos uma realidade apenas mimeticamente. Ela o faz de modo variado, às vezes cruel, outras vezes poeticamente. Mescla a dura vida com alguns momentos de amor ou meramente de prazer.
A sua temática é a social, mas há também o aprofundamento psicológico das personagens. O espectro de observação da narradora percorre toda a vida que a rodeia naquela cidade escura e entristecida, em que nada acontece a não ser uma massacrante rotina e o contínuo medo que acompanha a todos.
Quanto às personagens, que não são muitas no livro, variam de velhos devassos a jovens sedutoras; de trabalhadores sofridos a agentes da polícia política; de velhinhas meio loucas a doentes, feridos, bêbados. Todas elas marcadas pelas contínuas perseguições, delações, traições, dificuldades de viver em um regime opressivo. Aos poucos vão se abeirando da loucura e outras enlouquecem de vez. Mas há também a luta para não se deixarem enlouquecer.
O tom que paira sobre as pessoas e a paisagem, geralmente sufocante, mostra-se às vezes poético: um fundo de paisagem deprimente de céu cinzento, espaços sombrios, ruas escuras, fábricas opressivas, bondes lotados, mas há também lugar para amores que percorrem o livro. A narrativa em algumas passagens desperta um certo suspense, como o segredo que reveste um instigante cavalo branco, que inclusive aparece na capa da edição original.
Quanto à linguagem, varia da dureza da prosa realista, a uma linguagem de pura poesia. É transparente, sem grandes invenções, um tanto conservadora e muito pouco experimental. Assim, o texto pode ser facilmente fluido pelo leitor.
Como ao lado da atmosfera de penumbra e medo, há também um sentido de esperança, a linguagem se adequa perfeitamente a cada uma dessas situações. Por exemplo, com a chegada da primavera e o renascer das plantas e flores, que sucede a um rigoroso inverno coberto de neve, nessas passagens, a linguagem se torna poética. Com passagens líricas, a narrativa nos apresenta ambiente de amor, alguns implícitos, como aquele entre a narradora e sua melhor amiga. Por outro lado, há cenas de sexo, alguns incestuosos. O amor muitas vezes se apresenta como uma forma de fuga daquela vida de rotina.
Concluindo, O Compromisso de Herta Müller é um painel de sofrimento e paixão, de amor e de ódio, de sentimentos humanos tão contraditórios, mas que têm de ser superados. Se não é uma obra-prima da literatura universal, possui o seu valor e não pode ser menosprezada pela crítica, como tem sido às vezes, apesar do sucesso que vem alcançando nos países em que foi traduzida e na própria Alemanha. É livro que merece ser lido como genuína literatura que realmente é.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

POESIA E LOUCURA



1. Alguns conceitos básicos
Erasmo de Rotterdam ao escrever O Elogio da Loucura tocou em um dos temas mais complexos da produção poética. De onde provém o processo criador?
Os Antigos, principalmente os gregos, consideravam que havia necessidade de um furor divino para o humano tornar-se um poeta, um demiurgo, um criador. O fenômeno que alguns denominavam inspiração poética, os gregos chamavam de entusiasmo (de en + theos = estar com deus em si). Assim, o poeta é um possesso, um possuído. O poeta produz quando abandona a sua própria consciência e se deixa invadir por uma divindade.
A palavra poesia (grego poésis) significa “uma ação para fazer algo”. O poeta (poietés) é “aquele que age, que faz”. Segundo Platão, é o entusiasmo que leva à ação.
Para Erasmo, o que move o ser humano à ação deixa de ser o entusiasmo, ou inspiração divina, e passa a ser a loucura. Segundo ele, a sobriedade inibe a ação. Só age quem está possuído pela loucura: “O louco, ao contrário, tomando a iniciativa de tudo, arrostando todos os perigos, parece-me alcançar a verdadeira prudência” (p. 47). Continua a afirmar: “Se a prudência consiste no uso comedido das coisas, eu desejaria saber qual dos dois merece mais ser honrado com o título de prudente: o sábio que, parte por modéstia, parte por medo, nada realiza, ou o louco, que nem o pudor (pois não o conhece) nem o perigo (porque não o vê) podem demover de qualquer empreendimento” (p. 47).
2. Poetas que enaltecem a loucura
Inúmeros poetas prestaram homenagem à loucura. Na literatura portuguesa, o exemplo a ser citado será um poema de Fernando Pessoa. O exemplo da poesia brasileira, neste espaço, será um texto de Mario Quintana:
GAZETILHA - Álvaro de campos, heterônimo de Fernando Pessoa:
Dos Lloyd Georges da Babilônia

Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egito,
Dos Trotskys de qualquer colônia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geômetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!

O AUTO-RETRATO - Mário Quintana
No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Terminado por um louco!

. 2. Poetas tomados pela loucura
Em Portugal, o aparecimento do Modernismo, em 1915, deu-se com a revista Orpheu. A poesia que nela se publicou foi taxada de “poesia de loucos”. Os organizadores e editores da Revista, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, foram, então, à busca de poemas de alguém que realmente fosse doente mental. Como já conheciam a poesia de um interno de Hospício, a tarefa não foi difícil. O interno era o poeta Ângelo de Lima.

Ângelo de Lima (Porto, 1872 – Lisboa, 1921) - Por haver participado da revolução republicana de 1891 (Portugal foi monarquia até 1910), Ângelo de Lima foi enviado para a África. Na volta a Portugal, dois anos depois, começou a sentir os primeiros sintomas da doença. Esteve internado por quatro anos (1894-1898) no Hospital Psiquiátrico Conde Ferreira no Porto. Mais tarde, em 1901, foi novamente internado. Desta vez, em Lisboa, no Manicômio Rilhafoles. Aí permaneceu praticamente o resto de sua vida até a morte, em 1921.
A sua poesia foi adotada pelos primeiros modernistas e começou a ser difundida. O segundo número de Orpheu publicou um conjunto de poemas. O soneto seguinte, publicado na Revista, é um exemplo:
EDD´ORA ADDIO... – MIA SOAVE!...
— Mia Soave... — Ave?!... — Almeia?!...
— Mariposa Azual...— Transe!...
Que d’Alado Lidar, Canse...
— Dorta em Paz...— Transpasse Ideia!...

— Do Ocaso pela Epopeia...
Dorto...Stringe... o Corpo Elance...
Vai à Campa... — Il c’or descanse...
— Mia soave... — Ave!... — Almeia!...

— Não dói Por Ti Meu Peito...
— Não Choro no Orar Cicio...
— Em Profano... — Edd’ora...Eleito!...

— Balsame — a campa — o Rocio
Que Cai sobre o Ultimo Leito!...
— Mi’Soave!... Eddora Addio!...

Quanto à forma, os poemas de Ângelo de Lima sempre se mostrou perfeitamente bem estruturada. O mesmo, porém, não se pode dizer da sua linguagem, que se apresenta bastante desviada da linguagem considerada normal. A sua poesia foi altamente valorizada pelos simbolistas e depois pelos modernistas, principalmente pelo emprego de neologismos e pela sonoridade de seus versos. Há também, nessa poesia, sinais precursores do Surrealismo, que só iria aparecer na França, em 1924.

São notáveis alguns outros sonetos de Ângelo de Lima, como este:

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...

Pára surpreso, escrutador, atento,

Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na doida correria...

Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora...

Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.


Neste poema, pode-se observar uma estrutura perfeitamente definida e uma linguagem de alguém que se encontra de posse de suas faculdades mentais. Acontecia com Ângelo de Lima, o que é normal em pessoas com tal doença, momentos de lucidez em meio a tantos outros de desvarios. Por vezes, a sua poesia abandona aquele estilo de alucinação e passa a retratar estados de lucidez.
Um outro texto típico da poética de Ângelo de Lima é este:

OLHOS DE LOBAS
Teus olhos lembram círios
Acesos n'um cemitério...
(Dr. Rogério de Barros)

Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris... Incendiados!...

Como os Clarões Finais... - Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados...
— Nas criptas d'um Jazigo Tumular!...

— Como a Luz que na Noute Misteriosa
— Fantástica - Fulgisse nas Ogivas
Das Janelas de Estranho Mausoléu!...

— Mausoléu, das Saudades do Ideal!...

— Oh Saudades... Oh Luz Transcendental!
— Oh memórias saudosas do Ido ao Céu!...

— Oh Pérpetuas Febris!... - Oh Sempre Vivas!...
— Oh Luz do Olhar das Lobas Amorosas!...

Este poema se destaca por uma espécie de dedicatória a um médico, possivelmente aquele que o atendia. A epígrafe denota, além do carinho pelo clínico, o estado em que muitas vezes se encontrava Ângelo de Lima e que se refletia em seus olhos.
Quanto à estrutura se mostra perfeitamente regular como uma forma pouco mais livre do que um soneto, porém conservando o equilíbrio na construção de dos versos, perfeitos decassílabos. Quanto à linguagem fica a meio-termo entre aquela que retrata momentos de lucidez e outra em que aparecem estranhas percepções. Emprega termos exóticos, o que era comum entre os simbolistas, e que não chegam a pertubar o entendimento do texto
.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

SAFO - A POESIA LÍRICA GREGA

Antigo busto grego de Safo, do séc. V a.C.
A inscrição ΣΑΠΦΩ ΕΡΕΣΙΑ=Safo, a eresiana
(alguns a consideram nascida em Éreso)

Museu Capitolino, Roma, Itália.

Safo e Alcaios - Pintura sobre
jarro helênico do séc. V a.C.

1. A POESIA LÍRICA GREGA - SAFO
Na Grécia Antiga deu-se o que normalmente acontece ao início das manifestações literárias de um povo. Primeiramente surgem os textos épicos, depois os líricos, em seguida os dramáticos, para finalmente aparecerem os filosóficos. Dessa forma, na literatura grega, temos a sequência: a) séc. VIII a.C. – Epopéia: Homero; b) séc. VII a.C. - Poesia Lírica: Safo; c) séc. VI a.C. – Teatro: Ésquilo; c) finalmente, séc. V - Filosofia, a pré-socrática; e séc. IV - os grandes filósofos Platão e Aristóteles.
A poesia lírica surge na Grécia principalmente com Safo, Alceu, Estesícoro e Alcmano. Nesta época, a poesia era a única forma de expressão literária, como é comum acontecer. Primeiro surgem os mitos (formas simples), depois a atualização desses mitos sob a forma literária: poesia e prosa artística.
Os poetas que mais influenciaram a época inicial da literatura grega foram, sem dúvida, Safo e Alceu. Eram da mesma região e também contemporâneos. Ambos escreviam no dialeto eólico, um dos muitos da Grécia. Como o nome indica, era o dialeto da região da Eólia, na Ásia Menor, onde se encontrava a ilha de Lesbos, terra natal dos dois grandes poetas.
2. SAFO (séc. VII a.C.)
Safo viveu provavelmente em meados do séc. VII a.C. Portanto, logo depois do grande épico Homero, do séc. VIII a.C. Foi ela talvez a primeira mulher a fazer poesia no mundo ocidental. É considerada a mais importante poetisa lírica da Antiguidade. Se Homero ficou conhecido como “o poeta”, ela era chamada “a poetisa”.
Segundo alguns teria nascido em Mitilene, na ilha de Lesbos, no mar Egeu. Outros, porém, afirmam ser ela de Éreso. De família nobre, teve acesso à cultura e às artes. Estudou música, canto e dança. Há que se considerar também o estágio avançado da cultura da Eólia, na Ásia Menor, pela influência da rica cultura jônica.
Provavelmente em consequencia de agitações políticas, Safo teve de deixar a ilha de Lesbos, e se transferiu para a Sicília, para onde também foi desterrado o poeta Alceu. Segundo alguns, foi aí que morreu já com certa idade, pois, por essa época, confessara-se uma geraitera, “um tanto idosa”.
Segundo descrições, teria sido mulher de exuberante beleza e de grande atrativo pessoal, principalmente por seus olhos negros. O historiador Plutarco (entre os séc. II e I a.C.) a chamou “A Bela”. Para o poeta Alceu, Safo era aquela de “cabelos violetas e sorriso de mel.” Para o historiador Estrabão, Safo era maravilhosa tanto física como moralmente. Com tais atrativos e conduta livre, atraiu homens e mulheres. Teria casado e tido uma filha de nome Cleis, a quem dedicou um poema.
Viúva do marido, um industrial da Sicília, tornou-se rica e exigente em termos de bem aproveitar a vida. Retornou a Mitilene E passou a viver faustosamente. Teria dito que necessitava de luxo como do sol.
Safo buscou partilhar seus conhecimentos com outras jovens. Criou um espaço de arte e cultura, que passou a ser considerado a primeira “Escola de Aperfeiçoamento”. Não seria exatamente uma escola, mas um templo de adoração às musas. Ali, ela instruía suas companheiras em música, dança e poesia e havia também ritos de adoração à deusa Afrodite. Por seus dotes culturais e físicos, Safo não só ensinava como também inspirava as suas hetaíras (o grego hetaíra, inicialmente companheira).
Como a Escola passou a ser denunciada pelas atividades desenvolvidas, os pais começaram a preocupar-se com o que suas filhas ali aprendiam. Com a desistência de muitas delas, a Escola entrou em declínio, até que fechou pela saída da hetaíra preferida de Safo, a jovem Átis. Falhou a “experiência pedagógica” de Safo na ilha de Lesbos (de onde provém o termo lesbianismo).
O grande golpe amoroso sofrido com a perda de Átis inspirou a Safo um de seus mais belos poemas de amor. Aqui, duas estrofes:
"- Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro, Safo".-
"Seja feliz", eu disse.

E lembre-se de quanto a quero.

Ou já esqueceu?
Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.
Segundo o poeta latino Ovídio (séc. I. A.C.), Safo na idade madura teria voltado a amar os homens. Há inclusive uma lenda segundo a qual teria se suicidado ao saltar de um rochedo pela paixão não correspondida por um jovem barqueiro de nome Faón. Em outras narrativas, Safo teria morrido conformada com a sua idade. Segundo ela própria, encontrava-se cheia de rugas, e sem poder compartilhar novos tálamos. Segundo ela: “o amor já não me alcança com o açoite de suas deliciosas penas”.
Segundo Quintino Cataudella: “Para muchos de los antiguos, Safo es digna de admiración. Para Estrabón, es pura, pero es condenable moralmente para otros, es una viciosa, una mujer de malas costumbres; evidente­mente, la condena moral surgió cuando se dejó de comprender la ver­dadera naturaleza de aquel sentimiento, substraído a su ambiente y a su tiempo y visto a una luz que no era la suya, según un criterio que no podía convenirle, tan lejanos se hallaban el espíritu y la atmósfera moral en que había brotado”.
3. A OBRA
Safo teria escrito nove livros de poemas. Sua poesia engloba odes, epitalâmios, elegias e hinos. Infelizmente, chegaram até nós fragmentos de poemas e talvez uma única ode completa.
A matéria poética de Safo, como não poderia deixar de ser, era o amor, o amor puro, mas também o amor erótico. A sua linguagem, no dialeto eólico, procurava ser simples e natural. Exprimia a ternura, o amor apaixonado e apaixonante, mas também as desilusões do amor. Tudo isso numa métrica própria.
Recentemente, em 2004, foi descoberto por pesquisadores da Universidade de Colônia, na Alemanha., um poema de Safo em um papiro do séc. III a.C. Foi publicado no ano seguinte, em 2005. O poema expressa o amor de Safo por suas companheiras na ilha de Lesbos. Foi traduzido do grego, em forma livre, por Martin West, da Universidade de Oxford:
Vós, meninas, entusiasmem-se com os carinhosos presentes
Das musas de seios perfumados e com a lira clara e melodiosa:
Mas o meu outrora macio corpo, agora velho
Enrijeceu; meus cabelos tornaram-se brancos, em vez de negros.
Pelo conteúdo, pode-se deduzir que se trata de obra da sua velhice. Nele, a poetisa incentiva as jovens ao amor, embora ela mesma, pela idade, já não se considere a amante de outros tempos.
4. ALGUNS TEXTOS POÉTICOS (geralmente fragmentos ou poemas reconstruídos):
1. A ÁTIS
Contemplo como o igual dos próprios deuses
esse homem que sentado à tua frente
escuta assim de perto quando falascom tal doçura

e ris cheia de graça. Mal te vejo

o coração se agita no meu peito,
do fundo da garganta já não sai a minha voz,

a língua como que se parte, corre

um tênue fogo sob a minha pele,
os olhos deixam de enxergar, os meus
ouvidos zumbem,

e banho-me de suor, e tremo toda,

e logo fico verde como as ervas,
e pouco falta para que eu não morra
ou enlouqueça.
Este é um dos mais famosos textos de Safo. É inspirado no amor que a unia a Átis, uma de suas ex-alunas e sua amante preferida. Dele, há várias adaptações e traduções. A mais famosa é a do poeta latino Catulo (séc. I a.C.), que começa com o verso: “Ille mi par esse deo videtur” = literalmente, “Ele para mim vejo ser igual a um deus”.
Analisando este poema, ninguém mais do que Longino, em O Sublime, afirma: “Não admiras como, no mesmo momento, ela pro­cura a alma, o corpo, o ouvido, a língua, a visão, a pele, como se tudo isso não lhe pertencesse e fugisse dela; e, sob efeitos opostos, ao mesmo tempo ela tem frio e calor, ela delira e raciocina (e ela está, de fato, seja aterrorizada, seja quase morta); se bem que não é uma paixão que se mostra nela, mas um concurso de paixões!”.
Outros exemplos da poesia de Safo:
2. Dominada pelo amor e para confessar o mais intenso sentimento, inicia por comparar a sua amada à mais bela das mulheres, porque só assim faria justiça à beleza dela:
Quando eu te vejo, penso que jamais

Hermíone foi tua semelhante;
que justo é comparar-te à loura Helena,
não a qualquer mortal;

porque só assim faria justiça à beleza dela:
Quando eu te vejo, penso que jamais

Hermíone foi tua semelhante;
que justo é comparar-te à loura Helena,
não a qualquer mortal;

Oh, eu farei à tua formosura

o sacrifício dos meus pensamentos,
todos eles, eu digo, e adorar-te-ei
com tudo quanto eu sinto.
3.
O local é apropriado para viver um grande amor, daí o convite para que venham todos gozar as delícias desse sentimento, bebendo a doçura em taças de ouro. Destaque para a metáfora “taças de ouro”:
Eu vos rogo, ó cretenses, vinde ao templo:
ao redor há um bosque de macieiras,
e dos altares sempre se levantao odor do incenso.

Aqui a água fria rumoreja calma,

em meio aos ramos; cobre este lugar
uma sombra de rosas; cai o sono
das folhas trêmulas.

Aqui num campo onde os cavalos pastam

desabrocham as flores do carvalho
e os anetos exalam seu aroma
igual ao mel.

Apanhando grinaldas, vem, ó Cípris,

e dá-me um pouco desse claro néctar
que tão graciosa serves para a festa,em taças de ouro.
4. Como verdadeira mestra ensina a sua discípula a preparar-se para o amor. As deusas da beleza acolhem aquelas que se enfeitam:
Com as meigas mãos, ó Dice,
trança ramos de aneto,
e põe essa coroa
em teus cabelos:

fogem as Graças

de quem não tem grinalda,
mas felizes acolhem
quem se enfeita de flores.
5. Só mesmo quem conhece profundamente o amor pode descrever o que causa esse sentimento nos amantes:
O
amor, esse ser invencível, doce e sublime
que desata os membros, de novo me socorre.
Ele agita meu espírito como a avalanche
sacode monte abaixo as encostas. Lutar
contra o amor é impossível, pois como uma
criança faz ao ver sua mãe, vôo para ele.
Minha alma está dividida: algo a detém aqui,
mas algo diz a ela para no amor viver...
6. Nostálgica, a poetisa sofre, à noite, o gosto amargo da solidão:
A lua já se pôs,
as Plêiades também:
meia-noite; foge o tempo,
e estou deitada sozinha.
7. Misturando a temática amorosa da mulher inacessível com as histórias de moral, como nas fábulas, a poetisa compara a impossibilidade ao esquecimento como uma espécie de consolo àqueles que tentaram e não conseguiram:
Como a doce maçã que rubra, muito rubra,
lá em cima, no alto do mais alto ramo
os colhedores esqueceram; não,
não esqueceram, não puderam atingir.
8. Filosófica, meio moralista, Safo enfoca a temática do belo e do bom como categorias estéticas:
Quem é belo
é belo aos olhos — e basta.
Mas quem é bom
é subitamente belo

5. APRECIAÇÃO CRÍTICA

Dentre os gregos, Safo era considerada uma dos chamados "Nove Poetas Líricos". Sua poesia é das mais sublimes, no entanto, devido ao conteúdo erótico, foi censurada na Idade Média e, assim, só chegaram poucos poemas e alguns fragmentos. Só no fim do séc. XIX arqueólogos ingleses descobriram sarcófagos envoltos em pergaminho. Em um deles, aproximadamente 600 versos eram legíveis.
Elogiada em todos os tempos, Estrabão afirmou que não sabia de nenhuma outra mulher com a genialidade e talento poético da grande poetisa de Lesbos. Baudelaire declara: "Safo viril, amante e poeta, mais bela do que Vênus, na palidez melancólica..."
Os textos de Safo em todos os tempos provocaram e continuam a provocar os sentidos. Eles nos mostram a paixão desenfreada, a perdição, mas também o amor puro e a delicadeza de seus sentimentos. Só assim poderia ter influenciado tantos poetas de Catulo a Ovídio, de Byron a Tennyson. de Baudelaire a Verlaine até chegar a Ricardo Reis (Fernando Pessoa) para citar representantes da poesia da Antiguidade, da época moderna e da atualidade.
Só a força de uma autêntica poesia, uma obra de arte, poderia ter encantado pessoas de todas as épocas e influenciado tantos outros poetas. Essa poesia encantadora é a da poetisa Safo, também ela uma mulher encantadora.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

LÍDIA JORGE E O DIA DOS PRODÍGIOS

LÍDIA JORGE
Quando aconteceu o 25 de abril em Portugal, Lídia Jorge era ainda uma jovem, nascida em 1946. Como todo português, também se viu empolgada pelo movimento que viria transformar aquele país. A Revolução dos Cravos, nome pelo qual se tornou conhecido o movimento das Forças Armadas, deu-se no ano de 1974.

Como fato histórico que abalou as velhas estruturas sociais de um povo, a Revolução tornou-se tema quase que obrigatório para os ficcionistas portugueses. Praticamente todos os grandes escritores, alguns estreantes e outros já consagrados, produziram obra sobre o que foi um misto do idealismo de jovens oficiais do exército português e do anseio de um povo que já não mais aceitava as condições do regime que perdurava desde os anos 20, quando Salazar assumira o poder.
Assim, surgiu um grande número de obras, que, segundo alguns críticos, constituiu um novo ciclo literário. Denominaram-no A Literatura do 25 de abril. Dos iniciantes, Lobo Antunes, com Os Cus de Judas (1979) e Lídia Jorge com O Dia dos Prodígios (1980) são os dois que mais se destacaram. Ainda em 1979, José Saramago, com Levantado do Chão, talvez tenha sido o escritor que abriu o novo ciclo. Ele e Lobo Antunes. Outros deram continuidade no ano seguinte, 1980: Agustina Bessa-Luís com O Mosteiro, e Almeida Faria com Lusitânia, além do já referido O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge. No ano de 1981 apareceu O Triunfo da Morte, de Augusto Abelaira e, em 1982, surgiram os livros de dois grandes autores que vinham produzindo há bastante tempo, desde a época do Neo-Realismo: O Rio Triste, de Fernando Namora, e Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires. Isto para citar aqueles que se consideram os mais importantes voltados para a temática do 25 de abril.
Em 1980, Lídia Jorge já se encontrava preparada para lançar uma grande obra, embora fosse com esse seu primeiro livro que iria estrear na literatura. Como professora do ensino secundário vivera anos decisivos em Angola e Moçambique em meio a uma guerra cruel, que deixava marcas profundas na terra, nos colonizados e nos colonizadores. Com essa bagagem, produziu O Dia dos Prodígios, um caso raro de aceitação do público e da crítica. De uma autora jovem surgia uma obra já madura.

A autora não se ateve apenas e nem diretamente ao fato histórico do 25 de abril. Pelo contrário, os acontecimentos surgem num ambiente de gente humilde apegada à terra e que se preocupava mais com os prodígios que vinham acontecendo no próprio lugar em que viviam, a pequena Vilamaninhos. E a realidade de uma revolução acontecida longe, em Lisboa, apresentava-se àquelas pessoas simples como uma visão, algo vindo de um outro planeta. Os soldados que representavam a Revolução eram heróis, anjos, deuses...
Essa primeira obra da autora, de raízes míticas, é considerada a alegoria de um país fechado a tudo antes do 25 de abril de 1974. Vilamaninhos é o microcosmo de Portugal.
Se aceitarmos a afirmação de que Lídia Jorge se baseou na terra natal, para fazer dela a metáfora de um país pequeno e ainda preso a tradições que já deveriam estar fazendo parte do passado, teremos a pequena Boliqueime transformada em Vilamaninhos.
Se tal é verdade, teremos uma Boliqueime real, no Algarve, tão junto a praias famosas, mas, ao mesmo tempo, tão afastada do progresso, com uma população vivendo ainda uma era poética da humanidade, a dos mitos, transformada pela ficção em Vilamaninhos. Ambas com a função de representarem um país e um povo.
Lídia Jorge, em O Dia dos Prodígios, consegue apresentar o povo em geral, e a mulher em particular, pelo modo de falar. Na obra, marcada pela, a linguagem ajuda a construir o perfil de cada personagem em sua complexidade e riqueza estrutural.
O enfoque de um atavismo telúrico, a riqueza oral das personagens, a visão mítica da realidade, a polifonia de temas, tudo misturado com uma boa dose de experimentalismo dão os elementos para a construção de O Dia dos Prodígios.
Lídia Jorge continua a publicar importantes obras da literatura portuguesa. Agora, internacionalmente conhecida, sua obra tem sido traduzida para diversos idiomas. Os prêmios que tem recebido atestam a qualidade de seus textos. Citam-se, dentre as principais: O Dia dos Prodígios (1980); O Cais das Merendas (1982); Notícia da Cidade Silvestre (1984); A Costa dos Murmúrios (1988), livro que reflete a experiência colonial passada na África, com o qual a autora confirmou o seu destacado lugar no panorama das literatura portuguesa; O Vale da Paixão (1998); O Vento Assobiando nas Gruas (2002). Combateremos a Sombra é o seu mais recente romance.
A autora publicou ainda duas antologias de contos: Marido e Outros Contos (1997) e O Belo Adormecido (2003). Escreveu ainda de uma peça de teatro: A Maçon.

Lídia Jorge está aqui representada por dois textos de O Dia dos Prodígios. O primeiro é significativo por mostrar a cosmovisão da autora ao apresentar os habitantes da pequena Vilamaninhos extasiados por uma visão; o segundo descreve a pequena Vilamaninhos:

1.
Macário fazia agradecimento, deixando a vizinhança entoar sozinha. E virava o alto da cabeça nos joelhos. Os cabelos soltos como erva escura por segar. Quando Jesuína Palha disse. O que vejo, meu deus? Vem aí um carro. Um carro celestial. Celestial. Olhem todos. Traz os anjos e os arcanjos. Oh gente. E São Vicente por piloto. Disse Jesuína Palha que voltava da ceifa, ainda com o aven­tal e o lenço repletos de praganas. Todos olharam. Na ver­dade surgia na curva da estrada, pelo lado poente, qual­quer coisa de tão extravagante que todos os que conseguiam enxergar a mancha de cores, virando as cabeças julgaram ir cair de borco sobre o chão da rua. Embora a mancha já volumosa, avançasse lentamente. Ocupando no espaço as três dimensões duma coisa visível, sólida e palpável. Mas os homens, pondo a mão, e fazendo muito esforço para ve­rem claro o que avançava com tanta majestade, disseram. Menos rápidos e mais lúcidos. Vamos. Vamos ser visitados por seres saídos do céu, e vindos de outras esferas. Onde os séculos têm outra idade. Afastem-se, vizinhos, que esta visão costuma fulminar. As crianças correram estrada fora, comandadas pela coragem. Sentiam que o mar ia chegar atrás dum barco de velas alvadias e soltas, desfraldadas à levíssima brisa da tarde. E também começaram a esbra­cejar, esboçando gestos de natação. Mas Macário. Tendo sido o último a enxergar, teve a visão exacta. No momento da surpresa ainda tinha os olhos fechados de repetir pela última vez. À espera de ocasião. À espera de ocasião.
- Isto é um carro de combate. Oh vizinhos.
Na verdade, a pleno meio da estrada avançava um carro singular, porque vinha pejado de soldados garbosos e épi­cos, penetrando já pelo centro de Vilamaninhos com ban­deiras e flores. E cantavam por um altifalante como se viessem munidos de uma poderosa orquestra. Agora já o espectáculo era tão real e tão bonito que todos. Esquecidos desses primeiros segundos de pasmo e confusão. Sentiram estar suspenso o toque, o canto e a audição desde há pouco. Para só ouvirem -e verem aquilo que chegava em cima duro carro aberto e blindado. Todos tinham a certeza que desde tempo dos reis nunca mais se vira de igual. Ah mara­vilha. Então o carro parou em frente do grupo, e fez-se um momento de silêncio tão solene que as pessoas pensaram ir morrer. Mas um soldado. Particularmente bem feito, tendo sem dúvida nascido numa terra muito diferente. Começou a falar de cima do carro, agora parado no largo. Dizia coisas. Que tinha feito uma re vo lu ção, e que era preciso animar os espíritos. Porque tudo. Tudo. E abria uns braços de salvador. Tudo iria ser modificado. Falava tão bem, que todos se encontravam encantados no timbre daquela voz. E nas maneiras másculas, sendo contudo delicadas, como se não sentisse o soldado o peso do corpo. Na farda, no cabelo levemente encaracolado. E ninguém era capaz de dizer fosse o que fosse, presos, todos da surpresa e da maravilha. Nem Macário. Nem Manuel Gertrudes. Os outros soldados sentindo sem dúvida a perturbação que invadia os naturais de Vilamaninhos, levantaram então os braços e disseram o que os ouvintes porventura queriam dizer. Mas falaram os soldados em conjunto. Tão alto e tão vibrante. Que os vilamaninhenses só compreenderam que uma grande coisa eles haviam dito, e maiores ainda teriam a dizer no futuro. Quando acabaram o largo estava cheio de gente que escutava. Nem se sentia
o vazio dos ausentes. E Macário, receando que os habitantes de Vilamaninhos estivessem a desempenhar o papel de bêbados na perfeição, e animado, porque antes da chegada, acabara de ouvir da boca do seu vizinho, que o seu lugar não deveria, ser ali. Sentindo-se patrício desses forasteiros. Disse.
-Nós aqui soubemos logo, dois dias depois, que vocês tinham feito a re vo lu ção. Mas nunca pensá­mos que chegássemos a ver os heróis.
O soldado que havia falado agradeceu com a mão. Todos os outros tinham um ar solene e marcial, não duvidando ninguém que tais homens venceriam as maiores batalhas. Disse também o soldado formosíssimo, com flores a desfo­lharem-se nas abotoadeiras. Que era preciso que aquela terra se capacitasse que o tempo da li ber da de tinha chegado. As mulheres menos ociosas, e as moças, que haviam sido as últimas a descer, mas que mais próximas se encon­travam agora do carro de guerra, começaram a sentir que não poderiam reprimir por mais tempo os sentimentos es­pontâneos, e porque o espectáculo era o mais arrebatador das suas vidas puseram-se a gritar todas as palavras de entusiasmo que souberam. Disseram vivas. Amigos, amores, irmãos. Seres divinos. Libertadores da fome e da inveja. Disseram anjos, coisas formosas, filhos do ventre e visitantes. E havia quem chorasse e cruzasse os braços sobre os seios como se abraçasse os soldados que permaneciam heróicos e fardados sobre o carro verde, da cor do rinchão. Singularmente aberto e blindado.

(p. 152)
2.
A saber. Vilamaninhos tem seis braços. Dois são feitos de casas ao longo da estrada que a atravessa, fita de alcatrão que se esburaca como roupa puída. Primeiro uma nódoa de pedra a emergir do pez, depois uma, duas britas nítidas, apenas aglomeradas. Em seguida uma solta-se, outra, e debaixo dessa outra, outra. E logo a terra à vista como um óculo. Vejam a porcaria da estrada. Os outros dois braços são o resto da antiga, da macadamizada, si­nuosa e às lombas, como correnteza de telhado mourisco. Sempre o cantoneiro a compor-lhe o saibro. Passava esta a meio do povoado antes da preta, mas agora fica de lado; quando se fala da nova. E as outras duas pontas são Q eixo do primitivo caminho. Feito de lajedos e pequenos de­graus de pedra, socalcozitos de desnível do tamanho de um nada, onde os pés escapam e as ferraduras das bestas disferem faísca. Esse é o caminho empedrado, chama-se la­deira, corre de norte a sul e tem a dedada do avô de um dos passados de José Jorge Júnior. Todos sabem e dizem que terá ele próprio sozinho desbravado as carrasqueiras com o seu alferce de dois dentes, e com ele terá cortado ao meio toda a cobra atravessada na passagem. O fundador. Mas as três vias que se cruzam e quebram em seis braços não se encontram no mesmo ponto. Antes duas a duas formando um nó. No meio do nó uma barriga de terra, lajedo e pó, a venda, a igreja, o armazém de figo, o lagar de azeite, três casas de habitação. Desligadas, mas na sombra umas das outras, apenas pela distância de um suspiro de gente. Mas só a venda abre porque Matilde é dona, e só a casa de José Jorge Júnior está habitada e tem uma palmeira. Nesse recinto se terá digladiado a cobra voadora. Vista de cima alguém chamaria a Vilamaninhos uma estrela. Vista de baixo, no meio das encruzilhadas, apenas se diria. Ê uma desmoronação de casas. A casa de Carminha Rosa fica no alto da via empedrada. A de Pássaro entre a empedrada e a nova. Apenas separada desta por um pátio bordado de alta parede com algerozes e malvas. Aí se planta o can­toneiro a ler as horas pela altura do sol. Do lado oposto, a casa de Macário e a de Manuel Gertrudes, parede meias. Mas a palmeira de José Jorge Júnior é a referência mais solene de Vilamaninhos. Um estandarte de folhas verdes, acenando de domingo a domingo. Os meninos tentam subir o pé, feito de nós de folhas mortas, mas descem-na, de calças rotas e coxa em sangue. Depois uns cachinhos de frutos cor de fogo, nunca vistos, acenam lá de cima. Eh, pequenada, isto não é azinheira. Vão procurar boleta para outro lado. Seu pé erecto, um braço. Sua copa, mão. Na sua sombra suposta, pelo chão, se senta o dono. Se vai aqui, são cinco da tarde.
(p. 71)

Se Boliqueime é a ficcional Vilamaninhos, andei por essas ruas, não por aquelas empoeiradas, mas pela principal, a da faixa de alcatrão. Ali, parei à frente da Junta da Freguesia e avistei algumas personagens que povoam a Vilamaninhos/Boliqueime de hoje e de sempre. Não presenciei o prodígio de uma serpente a voar, mas avistei um céu como aquele do dia em que ali aportaram soldados, deuses, anjos...
O ar do Algarve trazia o perfume das plantas e uma brisa suave soprava da serra que separa aquela região meridional do caloroso Alentejo. Era um dia auspicioso de julho.
Lembrei-me então de uma Lídia Jorge dos anos 80 quando em companhia de Lobo Antunes vieram ambos a Curitiba divulgar suas obras. É a certeza de que se iniciavam em literatura, ele médico psiquiatra, ela jovem professora.
Essa lembrança de uma tarde/noite de setembro de 1983 trouxe uma outra lembrança, a de uma época em que ainda vivia sonhos que, muitos deles, não se realizaram.

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