segunda-feira, 13 de abril de 2009
POESIA, FINGIMENTO E SINCERIDADE NA LITERATURA PORTUGUESA
Embora o problema seja de todos os tempos, em Portugal ele se aprofundou depois de Fernando Pessoa, que explicitava em suas criações poéticas e em textos críticos a ideia que arte, e em decorrência disso, literatura e, mais especificamente, poesia, tudo é fingimento. Aristotélico como era, o grande poeta português não se afastava muito do seu mestre grego, que afirmava ser a poesia uma imitação. Ser imitação do real e fingir o real são conceitos que praticamente se igualam, pois ambos defendem uma realidade que subjaz à criação literária e que é de outra natureza. Uma coisa é a realidade, outra, diferente, é a produção artística.
Essa discussão intensificou-se com as declarações do grande poeta e líder da revista Presença, José Régio. Este, em aparente oposição ao poeta da revista Orpheu, considera a arte como resultado não do fingimento, mas da sinceridade. Desde então esses dois conceitos passaram a se opor em termos de crítica literária.
Olhando-se, porém, por um outro prisma, parece que tanto a poesia dita fingida, como aquela dita sincera, em nada são diferentes. Ambas são fingidas e ambas são sinceras, simultaneamente. São fingidas em relação à pura realidade, ou, como se queira, a realidade real; e ambas são sinceras, quanto ao modo como são produzidas. São elas sinceras artisticamente. É o que se pode depreender de textos como os que seguem:
Quando Fernando Pessoa diz:
1. A base de toda a arte é a sensação.
2. Para passar de mera emoção sem sentido à emoção artística, ou susceptível de se tornar artística, essa sensação tem de ser intelectualizada.
ele está lançando uma como que teoria da poesia fingida. Há a necessidade de intelectualizar uma sensação, ou seja, fingi-la, para que ela se torne uma sensação com valor artístico. Antes disso, ela é apenas uma sensação. Fernando Pessoa aplica essa teoria no poema que denominou Autopsicografia, como se constata nesta transcrição da primeira estrofe:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Assim, “a dor que deveras sente”, a que se refere o poeta, é a sensação; a dor que ele diz “fingir”, essa é já a dor intelectualizada, que se torna matéria poética. A poesia e a teoria se correspondem, numa prova inequívoca de que a poesia de Fernando Pessoa é uma poesia pensada e não meramente sentida.
De outro lado teórico, assumindo uma poesia viva, uma poesia sincera, José Régio declara:
o que então inspira a obra de arte - é a paixão; e uma paixão considerada infamante ou uma paixão considerada nobre – podem da mesma forma inspirar obras elevadas sob o ponto de vista que nos interessa: estético.
e também:
É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística.
Poeticamente, e de modo coerente com essa teoria, José Régio escreve poemas como Demasiado Humano, aqui ilustrado em sua primeira estrofe:
Escancarei, por minhas mãos raivosas,
As chagas que em meu peito floresciam.
Versos a escorrer sangue eis escorriam
Dessas chagas abertas como rosas…
e neste dramático poema denominado Diário, do qual se transcreve a primeira estrofe, diz ele:
Tinha um diário aonde ia escrevendo,
Dia a dia, a agonia dos meus dias:
Era um romance tremendo,
Dilacerado de piedade e de ironias.
Aí, estão presentes dois modos de enfocar teoricamente e na prática a arte da poesia, uma classificada como “poesia fingida” e uma outra, que se denominou “poesia sincera”. A primeira é representada principamente por Fernando Pessoa, mas de modo geral também pelos colaboradores da revista Orpheu, fundada em Lisboa em 1915. A segunda tem seu lídimo representante na pessoa de José Régio e dos poestas da revista Presença, que surgiu em Coimbra em 1927.
Esta discussão levada a sério por muitos críticos foi também bastante combatida e mesmo ironizada. É o caso, por exemplo, do poeta do Surrealismo português Alexandre O’Neill, que, com seu senso altamente irônico e de certo modo desestabilizador dos formalismos, como foi preceito da estética surrealista, escreveu:
Às dores inventadas
Prefere as reais.
Doem muito menos
Ou então muito mais...
Antes do encerramento, trazem-se aqui dois fragmentos da crônica Elogio da Mentira, de Miguel Sanches Neto, publicado em 31 de março de 2009. No primeiro, afirma-se:
Não há verdades, apenas versões. Levando este raciocínio ao seu extremo, chegaremos à conclusão de que tudo é ficção. Assim, nada coincide com nada. O que vejo não é igual ao que o outro vê, mesmo quando estamos olhando para o mesmo objeto e do mesmo mirante. Movemo-nos em meio a realidades construídas.
e no segundo, conclui-se:
Todo ficcionista é um ilusionista profissional; promove uma proliferação de entes e fatos, embaralhando assim as muitas realidades. Todas verdadeiras à sua maneira. Pois só à maneira de cada um é que pode haver verdade.
Concluindo este breve comentário sobre tema tão complexo, apenas podemos dizer que toda poesia é, de um ponto de vista, fingida, porque é a vivência de uma sensação, de uma emoção, que é transformada pelo poder de intelectualizar, enfim de transformar o que se vive em matéria poética, o que se configuraria como a arte de fingir. Por outro lado, toda a poesia é sincera, porque está de acordo com a arte e não com a realidade.
Fernando Pessoa, no poema Isto, que aqui se transcreve, esclarece vários aspectos:
Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
1. Ele não finge no sentido literal, ele apenas sente com a imaginação, ou seja, ele intelectualiza, “finge” poeticamente.
2. O que o poeta sonha ou passa – as emoções – isso é apenas o primeiro estágio; o segundo estágio, que é a intelectualização dessa sensação ou emoção, essa coisa é que é linda, porque já é matéria poética.
3. Finalmente, o poeta confirma que escrever livre do enleio, ou seja, livre do encantamento do que se vive, mas, de modo sério, embora sobre um assunto que não é sério no sentido estrito da palavra, mas um “fingimento”, uma “cópia”, é que torna a arte séria. A arte assim construída deve, portanto, autêntica, verdadeira do ponto de vista estético.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
UM CONTO DE DANIEL OSIECKI
Profissionalmente, é professor de literatura brasileira e revisor de texto. Mantém o Blog Távola Redonda, voltado para a literatura. Nele, Daniel publica seus estudos, principalmente sobre autores portugueses. O próprio título do blog, ao homenagear uma revista literária portuguesa dos anos 50, demonstra claramente a influência da literatura portuguesa nos seus trabalhos. É nesse espaço, que publica periodicamente artigos e análises literárias.
Como músico, creio que um tanto amador, tem feito apresentações com sua Banda formada por ele e alguns amigos, que foram seus colegas no curso e fora dele. Nela, Daniel é responsável pelo som da bateria.
O livro de contos Abismo é sua primeira obra de ficção publicada. Os contos aí presentes mostram geralmente ambientes sombrios, próprios de um sorvedouro, ou abismo, como o autor intitulou esta sua obra. Explora os aspectos existenciais, o que reflete a grande admiração que tem pelo existencialista português Vergílio Ferreira. A confirmar essa influência, como epígrafe ao livro, transcreveu este trecho desse autor: “Se o homem “é” o que faz, é-o sobretudo para os outros, não totalmente para si, muito menos para a interminável realização da própria aspiração humana” (Vergílio Ferreira).
Conheci o Daniel como meu aluno de literatura portuguesa no curso de Letras da PUCPR. Em uma das primeiras aulas, quando procurei levantar algumas leituras já feitas, ele foi um dos poucos que conhecia autores e obras dessa literatura. Propôs-se a apresentar na próxima aula a leitura que fizera de Viagens na minha terra, do romântico Almeida Garrett. Em suas leituras, logo entusiasmou-se pelos autores neo-realistas. Passou a ler Alves Redol, Fernando Namora e Miguel Torga daquela fase em que se preocupou com os problemas sociais do norte vinhateiro. Costumamos manter vivo um relacionamento, ao menos pela Internet. Sei que continua interessado na literatura portuguesa. Em seu blog, diz: “Em nome dos poetas que publicaram na Revista Távola Redonda, criei este blog. Espaço para discussões sobre literatura, muito em especial a Literatura Portuguesa. Viagens poéticas e narrativas”.
O lançamento do livro Abismo aconteceu no sábado, 28 de março deste ano. Lá estive, para cumprimentar o autor, ex-aluno e amigo Daniel Osiecki.

A seguir um conto transcrito de Abismo:
PESSOAS
Fernando acabara de sair do modesto restaurante onde almoçava todos os dias no centro de Lisboa. Caminhando despreocupado pela rua encontrou um velho amigo, Bernardo.
- Olá, Fernando. Quanto tempo, como está?
- Estou bem, Bernardo, obrigado. Como está indo o escritório de contabilidade? Muita correria?
- Daquele jeito de sempre. Você soube do Alberto?
- Claro, uma grande perda. Ele foi um mestre para mim. No ano passado passei algumas semanas com ele e com a tia na casa que tinham no Douro. Foi uma grande perda mesmo.
- E se foi. Bem, está muito ocupado agora?
- Na verdade estava indo ver Ophélia, mas... por quê?
- Estou indo encontrar o Ricardo. Quer me acompanhar?
Fernando pensou por alguns segundos e decidiu que acompanharia o velho amigo no passeio.
- Claro! - Respondeu Fernando. - Por que não? Depois eu explico pra Ophélia.
Os dois dirigiram-se para a cantina Pessoa, que ficava próxima à Praça do Comércio. Fernando era correspondente estrangeiro, escrevia versos e também tinha uma tipografia em Lisboa. Ele e seus companheiros da Revista Orpheu estavam em polvorosa, pois a revista havia sido um sucesso. Seu grande amigo Mário estava preparando a segunda tiragem.
Bernardo era uma figura atípica. Muito pouco sabia sobre seu amigo, apenas que havia nascido em Lisboa e trabalhava como assistente contábil e levava uma vida modesta. Também era poeta, e tinha uma ambição: publicar sua obra prima que já havia começado a lhe inquietar.
- Então, como vai sua obra-prima? Perguntou Fernando, acendendo um cigarro.
- Não sei. Já pensei em desistir. Já tenho o título.
- Qual é? - Perguntou Fernando, interessado. - Eu prefiro não falar nada por enquanto. Vamos ver. Vamos aguardar.
Um garçom traz uma jarra de vinho do Porto e se retira rapidamente para atender dois rapazes que estavam à mesa ao lado. Nesse momento entra um homem alto, com um ar de erudito e com uma maleta de médico na mão esquerda. Dirige-se à mesa de Fernando e Bernardo e cordialmente os cumprimenta.
- Boas tardes caros colegas!
- Querido amigo Ricardo, como estás? - Pergunta afavelmente Bernardo.
- Agora estou bem, caro Bernardo, agora que estou de volta a Portugal.
- Ricardo, o que você fez esse tempo todo no Brasil? - Pergunta Fernando, interessado nas suas novidades.
- Olá, Fernando. Como sabes, estive exilado. Exerci minha profissão de médico e escrevi odes. Bem, como vão as coisas por aqui? Soube da revista.
- Pois é. Eu e o Mário trabalhamos duro. Se tiver interesse em juntar-se a nós...
- Meu caro Fernando, sabes muito bem que jamais conseguiríamos trabalhar juntos. Eu considero a produção de vocês um tanto quanto alucinada, irreverente demais, até certo ponto chocante. Espero que...
- Você jamais romperia com as estéticas do passado. Você não passa de um burguês que é incapaz de...
Nesse momento Bernardo, até agora apenas ouvindo os dois amigos, intervém na conversa com a intenção de acalmar os ânimos. - Calma, gente, mudemos de assunto. E o Álvaro?
- O Álvaro está viajando pelo Oriente.
Nem sinal dele. - Ricardo tomou um longo gole do vinho. - quando falei com ele pela última vez, ele estava me mostrando alguns poemas que chamavam de futuristas.
Os três ainda ficaram conversando por uma hora. Depois saíram e cada um seguiu um caminho diferente. Apesar de todas as divergências, de todas as diferenças intelectuais e de uma certa hostilidade entre os amigos, separados e distantes, pareciam fragmentos de um mesmo ser. Suas condições de seres estilhaçados por razões diversas, davam a cada um deles um aspecto soturno e radiante ao mesmo tempo. Quando estavam um ao lado do outro não se suportavam, ou apenas fingiam, pois o poeta é um fingidor, e finge que é dor a dor que deveras sente. Porém quando estavam separados, distantes, sentiam que se comunicavam e que se completavam de alguma forma. Os estilhaços provocados pela distância os aproximavam, e assim os formavam como um único-ser.
O céu de Lisboa já estava tornando-se escuro, as pessoas que caminhavam na Praça do Comércio caminhavam mais rápido. O desejo de chegar em casa era grande. Em frente da Cantina Pessoa chegou um homem alto, de cabelos escuros e usando monóculo. Entrou e dirigiu-se ao balcão.
- Boas noites. O senhor sabe se aqui estiveram três cavalheiros. Fernando, Bernardo e Ricardo?
- Assim por nome é difícil, entra tanta gente aqui todo dia.
O elegante senhor colocou as mãos nos bolsos em busca de papel e caneta. Escreveu seu nome e deu ao dono da cantina.
- Se eles aparecerem aqui ainda hoje ou amanhã, diga que ficarei em Lisboa até o final da semana. É fácil de reconhecê-los. Muito obrigado, senhor e boas noites.
Saiu pela rua escura. O simpático senhor dono da cantina pegou o bilhete e leu em voz alta. Estava sozinho.
- "Voltei. Álvaro de Campos".
Em um breve comentário, pode-se dizer que Daniel Osiecki assimilou bem as características do Pós-Modernismo. No conto Pessoas, há o caráter da intextextualidade entre a sua narrativa e o verdadeiro “romance” criado por Fernando Pessoa entre si e suas diferentes personas, os heterônimos.
Uma outra tendência pós-modernista, e que decorre da primeira, é o recontar fatos históricos ou da história literária. Daniel faz em seu conto o que autores famosos já fizeram sobre o mesmo tema É só relembrar José Saramago com o romance O ano da morte de Ricardo Reis e Amadeu Lopes Sabino com o conto O Lepidóptero, do livro Retrato de Rubens. E sem esquecer os textos de Fernando Pessoa, que estão, sobretudo, em Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, em especial na parte que ele intitulou Para a Compreensão de... (Alberto e Caeiro e também os outros heterônimos), além, ainda, do Livro do desassossego, do heterônimo prosador Bernardo Soares, que foram, sem dúvida, fontes valiosas para o texto de Daniel Osiecki.
É lógico que as narrativas desta obra de Daniel sofram daquelas impurezas próprias das primeiras obras de um autor, seja ele qual for. Como diz Ricardo Reis sobre a poesia de Alberto Caeiro, embora eu reproduza as suas palavras sem a crueldade daquele frio heterônimo: “Perdoa-se-lhe a falta, porque aos inovadores muito se perdoa; mas não se pode omitir que seja uma falta, e não uma distinção”.
E, para finalizar, reproduzo o texto aparentemente enigmático e cruel de Álvaro de Campos sobre o Cancioneiro de Fernando Pessoa: “Sou demasiado amigo de Fernando Pessoa para dizer bem dele sem me sentir mal: a verdade é uma das piores hipocrisias a que a amizade obriga”. (Ser amigo, e eu sou amigo do Daniel, não nos pode impedir de falar bem de alguém. É o que eu faço agora. Falo bem dos contos do livro Abismo).
quarta-feira, 25 de março de 2009
A POESIA DE HERCÍLIA FERNANDES
Com dois livros publicados, Retrato de Helena, 2005, e Agá-Efe: entre ruínas e quimeras, 2006, Hercília Fernandes já faz parte do mundo das letras. Como professora e pedagoga, atua na educação fundamental e na universitária, em seu estado natal, o Rio Grande do Norte. É Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal. Na área da educação, é também Especialista em Educação Infantil pela mesma UFRN – Centro de Ensino Superior de Seridó, em Caicó, sua terra natal, no extremo sul do estado potiguara.
Escreve versos desde muito jovem. Como confessa, aprendeu a construir seus sonhos na paisagem do sertão. Talvez, a brancura do algodão do Seridó, a brisa da serra da Borborema, aliados à beleza dos bordados da região foram o alento poético da sua meninice e que se solidifica agora na juventude. Hercília Fernandes mantém os Blogs HF diante do espelho e Novidades & Velharia. Como não tive ainda acesso aos livros de Hercília Fernandes, recolhi em diferentes blogs os três poemas que seguem:
ORVALHO (Etimologia poética)
Favor não me chamar:
ervilha
lentilha
milha
qualquer coisa terminada em ilha!
Gosto das mil miudezas...
Aprecio deveras poesia-ilha
Porém, my name is
Hercília!
Me chame orvalho.
Lágrimas aquecem o tom matinal
dispersam tempestades após labores e silêncios.
Me chame firmamento
Jardim em flor desbravando litoral
Rósea cor, purpurina, a-normal
Mas, favor não me chamar
ervilha
lentilha
milha
qualquer terminação em ilha
Meu nome é orvalho
natural-mente
Hercília!
Neste poema, dá-se atenção ao trabalho com a palavra. Da palavra Hercília, o seu nome, a poetisa deriva, foneticamente, ervilha, lentilha, milha e a terminação ilha. Esta última, porém, embora uma terminação, assume o seu próprio sentido como palavra, o substantivo ilha. Assim, passa a significar, plurivocamente, um acidente geográfico, mas que, muito frequentemente, tanto poética como filosoficamente, torna-se metáfora de homem ou de mulher. É comum dizer-se que ninguém pode ser uma ilha. Todos nós necessitamos de outras pessoas, sejam familiares, amigos, pessoas amadas, enfim o outro, para nos completar e dar sentido à nossa existência.
Além desse trabalho paronomásico, a poetisa trabalha também com a formação das palavras. Assim grafa poesia-ilha, a-normal e natural-mente. Na primeira, a palavra ilha aparece na formação da palavra composta poesia-ilha. Em a-normal, dá-se a formação de uma nova palavra com o prefixo negativo a. Por fim, em natural-mente, temos uma formação com o sufixo mente, que pode aproximar-se ao verbo mentir, sinônimo de fingir, usado frequentemente para evidenciar o aspecto ficcional do texto. Não se pode também desprezar o emprego da expressão em língua inglesa my name is. Os estrangeirismos, ao lado de arcaísmos e de neologismo constituem fortes recursos poéticos.
ORVALHO (Etimologia poética) traz no título o alerta de ser um poema que busca a própria etimologia dos seus termos. E o termo nuclear do poema é o próprio nome da autora: Hercília.
É assim que leio o poema Orvalho, de Hercília Fernandes.
CAVALO ALADO
Fiquei triste!
De repente todo manto azul do céu
desabou sobre mim. Ao tocar minha pele, aquele azul-celeste,
claro feito neve, coloriu-me de carmim.
Claro! Eu não dei por mim.
Precisava mais de poesia:
escura, difusa, tardia
faria luz à minha nostalgia.
Claro! Eu desejei o cetim.
Com todos os seus festins.
Eu precisava demais de folia
para emoldurar a minha melancolia.
Claro! Tudo foi só um sonho
Um engano desenganado:
claro - como é o orvalho,
escuro - como é o pecado.
Claro... O sonho se foi num cavalo alado!
Este é um poema que estrutural e semanticamente privilegia, em especial, o elemento cromático e a rima, além da duplicidade semântica natural de toda poesia.
Quanto ao elemento cromático, que se alia às antíteses, aparecem explicitamente “manto azul do céu”, “azul celeste”, “carmim”; e, implicitamente à cor do, a “cetim”, que geralmente se apresenta colorido. Há, ainda, o “claro orvalho” em oposição ao “escuro pecado”. Essas oposições desembocam em um autêntico paradoxo: “engano desenganado”. Esse é o estado em que o eu poético mergulha.
É esse estado poético, já emergente nas contradições da primeira estrofe: “azul celeste, claro feito neve, coloriu-me de carmim”. Isso desencadeia, na segunda estrofe, uma sequência de rimas pelo emprego das palavras: poesia, tardia, nostalgia, folia, melancolia. E isso constitui o festim desejado.
A duplicidade semântica aparece acentuadamente no último verso com a palavra Claro. O termo Claro tanto pode referir-se à brancura do sonho, como representar uma expressão afirmativa, que surge em frases como, por exemplo, "Claro que isso acontece...".
Como motivos principais, aparecem a tristeza e a desilusão. O poema inicia com o verso “Fiquei triste” e continua registrando “minha nostalgia”, “minha melancolia”, para encerrar-se com “O sonho se foi num cavalo alado!”.
O cavalo branco, ao voar, leva o sonho. É a perda, o esvair-se do sonho.
MARIA CLARA
Maria Clara
Clara
Alva
rara Maria.
............................................................ Ria
............................................................ Ia
............................................................ Subia
............................................................ clara à luz do dia
Minha cara,
Clara minha!
........................................................... Doce flauta,
........................................................... serena,
........................................................... silencia.
Minha causa
fada minha!
........................................................... Rara
........................................................... tão alva
.......................................................... Clara,
........................................................... tanto bem,
.......................................................... Maria!
Neste poema, Hercília Fernandes trilha o experimentalismo. A disposição das estrofes - que ocupam diferentes espaços na página em branco - vai ao encontro de uma das primeiras formas experimentais da poesia que depois foi também denominada poesia concreta, como se prefere no Brasil, ou experimental, denominação mais presente na literatura portuguesa. Essa é uma contribuição, principalmente, da poesia de Mallarmé, com o poema Un coup de dés.
Com o aproveitamento dessa técnica, a poetisa passeia pelos recursos do concretismo com bastante facilidade. Da similaridade formal da palavra passa para a diferenciação semântica, como em “Maria Clara”, “Clara”, “Alva”. Nessa sequência, há a passagem de Clara (substantivo próprio), para Clara (adjetivo) e finalmente um sinônimo da segunda palavra, o também adjetivo Alva. De modo semelhante, continua na segunda estrofe, embora com outras derivações: Ria, que evolui para ia, para subia e para dia, sempre com a terminação ia, que aparece na primeira palavra. Segue em frente explorando o processo em: cara, Clara, causa. Na última estrofe, surge Rara, próxima foneticamente de cara e de Clara.
Como figuras, aparece a metáfora sinestésica "Doce flauta", seguida da assonância serena, silencia.
Para concluir, é interessante notar que o texto inicia com Maria e termina com Maria. É como o fechamento de um círculo e como, também, a expressão viva da circularidade do poema, uma das características da poesia concreta.
Com os comentários, procurei mostrar um pouco da riqueza e da complexidade da poesia de Hercília Fernandes. Espero que a poetisa continue com sua produção poética, para satisfação de seus leitores, dentre os quais me incluo.
Para encerrar, envio uma homenagem à Hercília e à sua terra natal.
Sertão. Seridó.
Na beleza da brancura
a flor de Caicó.
terça-feira, 17 de março de 2009
DE REALITY SHOW E DE FERNANDO PESSOA
Em um programa dominical de televisão, uma participante recentemente eliminada de um Reality Show, quando entrevistada, referiu-se à existência de duas vidas: uma lá dentro, no ambiente vivido pelos enclausurados, e outra aqui fora. Falou também que todos possuem dois lados: o que é visto aqui de fora e outro que se vivencia lá dentro. Portanto, de modo simplificado, o que ela disse e o que há são duas vidas. Uma é a vida real, aquela de aqui fora; a outra, uma vida fingida, a dos participantes na casa do reality show. Ou será o contrário?, como indaga Fernando Pessoa. A entrevistada acrescentou, ainda, que o fato de as pessoas cultivarem os dois lados é normal, porque todos nós os possuímos concomitantemente.
Como esses são temas de vários autores, e frequentes na poesia de todos os tempos, lembrei-me em especial de Fernando Pessoa. Em várias passagens da sua obra, o poeta versa, como um dos motivos de sua poesia, a existência de duas vidas, uma real e outra fingida.
Ao retornar à literatura portuguesa, vamos transcrever dois textos de Fernando Pessoa: um poema e um fragmento de um poema em prosa, dentre aqueles que o próprio poeta denominou poemas dramáticos.
POEMA 165
Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida.
E outra vida que é pensada.
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual, porém, é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Aprendamos a viver e a conviver com nossas duas vidas, com a real - a vivida - e com a pensada - puro sonho. Penso que ninguém sabe explicar qual a verdadeira e qual a errada, porque ambas são verdadeiras.
FRAGMENTO DE O MARINHEIRO, poema dramático de Fernando Pessoa.
(...)
SEGUNDA — À beira-mar somos tristes quando sonhamos... Não podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremo-lo sempre ter sido no passado... Quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que há mil vozes mínimas a falar. A espuma só parece ser fresca a quem a julga uma... Tudo é muito e nós não sabemos nada... Quereis que vos conte o que eu sonhava à beira-mar?
PRIMEIRA — Podeis contá-lo, minha irmã; mas nada em nós tem necessidade de que no-lo conteis... Se é belo, tenho já pena de vir a tê-lo ouvido. E se não é belo, esperai..., contai-o só depois de o alterardes...
SEGUNDA — Vou dizer-vo-lo. Não é inteiramente falso, porque sem dúvida nada é inteiramente falso. Deve ter sido assim... Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha esquecido que tinha pai e mãe e que houvera em mim infância e outros dias — nesse dia vi ao longe, como uma coisa que eu só pensasse em ver, a passagem vaga de uma vela. Depois ela cessou... Quando reparei para mim, vi que já tinha esse meu sonho... Não sei onde ele teve princípio... E nunca tornei a ver outra vela... Nenhuma das velas dos navios que saem aqui de um porto se parece com aquela, mesmo quando é lua e os navios passam longe devagar...
PRIMEIRA — Vejo pela janela um navio ao longe. É talvez aquele que vistes...
SEGUNDA — Não, minha irmã; esse que vedes busca sem dúvida um porto qualquer... Não podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto...
PRIMEIRA — Por que é que me respondestes?... Pode ser... Eu não vi navio nenhum pela janela... Desejava ver um e falei-vos dele para não ter pena... Contai-nos agora o que foi que sonhastes à beira-mar...
SEGUNDA — Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longínqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por elas... Não vi se alguma vez pousavam... Desde que, naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali... Como ele não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido: pôs-se a fazer ter sido sua uma outra pátria, uma outra espécie de país com outras espécies de paisagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janelas... Cada hora ele construía em sonho esta falsa pátria, e ele nunca deixava de sonhar, de dia à sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas e não reparando nas estrelas.
PRIMEIRA — Não ter havido uma árvore que mosqueasse sobre as minhas mãos estendidas à sombra de um sonho como esse!...
TERCEIRA — Deixai-a falar... Não a interrompais... Ela conhece palavras que as sereias lhe ensinaram... Adormeço para a poder escutar... Dizei, minha irmã, dizei... Meu coração dói-me de não ter sido vós quando sonháveis à beira-mar...
SEGUNDA — Durante anos e anos, dia a dia, o marinheiro erguia num sonho contínuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edifício impossível... Breve ele ia tendo um país que já tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se já de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que cor soíam ser os crepúsculos numa baía do norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmúrio da água que o navio abria, num grande porto do sul onde ele passara outrora, feliz talvez, das suas mocidades a suposta...
(uma pausa)
PRIMEIRA — Minha irmã, por que é que vos calais?
SEGUNDA — Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre... Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber... Quando falo de mais começo a separar-me de mim e a ouvir-me falar. Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração. Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o poder embalar como a um filho... Vede: o horizonte empalideceu... O dia não pode já tardar... Será preciso que eu vos fale ainda mais do meu sonho?
PRIMEIRA — Contai sempre, minha irmã, contai sempre... Não pareis de contar, nem repareis em que dias raiam... O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas... Não torçais as mãos. Isso faz um ruído como o de uma serpente furtiva... Falai-nos muito mais do vosso sonho. Ele é tão verdadeiro que não tem sentido nenhum. Só pensar em ouvir-vos me toca música na alma...
SEGUNDA — Sim, falar-vos-ei mais dele. Mesmo eu preciso de vo-lo contar. À medida que o vou contando, é a mim também que o conto... São três a escutar... (De repente, olhando para o caixão, e estremecendo). Três não... Não sei... Não sei quantas...
TERCEIRA — Não faleis assim... Contai depressa, contai outra vez... Não faleis em quantos podem ouvir... Nós nunca sabemos quantas coisas realmente vivem e vêem e escutam... Voltai ao vosso sonho... O marinheiro. O que sonhava o marinheiro?
SEGUNDA (mais baixo, numa voz muito lenta) — Ao princípio ele criou as paisagens, depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matéria da sua alma — uma a uma as ruas, bairro a bairro, até às muralhas dos cais de onde ele criou depois os portos... Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobre elas das janelas... Passou a conhecer certa gente, como quem a reconhece apenas... Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo... Depois viajava, recordando, através do país que criara... E assim foi construindo o seu passado... Breve tinha uma outra vida anterior... Tinha já, nessa nova pátria, um lugar onde nascera, os lugares onde passara a juventude, os portos onde embarcara... Ia tendo tido os companheiros da infância e depois os amigos e inimigos da sua idade viril... Tudo era diferente de como ele o tivera — nem o país, nem a gente, nem o seu passado próprio se pareciam com o que haviam sido... Exigis que eu continue?... Causa-me tanta pena falar disto!... Agora, porque vos falo disto, aprazia-me mais estar-vos falando de outros sonhos...
TERCEIRA — Continuai, ainda que não saibais por que... Quanto mais vos ouço, mais me não pertenço...
PRIMEIRA — Será bom realmente que continueis? Deve qualquer história ter fim? Em todo o caso falai... Importa tão pouco o que dizemos ou não dizemos... Velamos as horas que passam... O nosso mister é inútil como a Vida...
SEGUNDA — Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cansou-se de sonhar... Quis então recordar a sua pátria verdadeira..., mas viu que não se lembrava de nada, que ela não existia para ele... Meninice de que se lembrasse, era a na sua pátria de sonho; adolescência que recordasse, era aquela que se criara... Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara... E ele viu que não podia ser que outra vida tivesse existido... Se ele nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se lembrava... E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido... Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer... Ó minhas irmãs, minhas irmãs... Há qualquer coisa, que não sei o que é, que vos não disse... Qualquer coisa que explicaria isto tudo... A minha alma esfria-me... Mal sei se tenho estado a falar... Falai-me, gritai-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui! ante vós e que há coisas que são apenas sonhos...
PRIMEIRA (numa voz muito baixa) — Não sei que vos diga... Não ouso olhar para as cousas... Esse sonho como continua?...
SEGUNDA — Não sei como era o resto... Mal sei como era o resto... Por que haverá mais?...
PRIMEIRA — E o que aconteceu depois?
SEGUNDA — Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?... Veio um dia um barco... Veio um dia um barco... — Sim, sim... só podia ter sido assim... — Veio um dia um barco, e passou por essa ilha, e não estava lá o marinheiro.
TERCEIRA — Talvez tivesse regressado à pátria... Mas a qual?
PRIMEIRA — Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabê-lo-ia alguém?
SEGUNDA — Por que é que mo perguntais? Há resposta para alguma coisa?
(uma pausa)
TERCEIRA — Será absolutamente necessário, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?
SEGUNDA — Não, minha irmã; nada é absolutamente necessário.
PRIMEIRA — Ao menos, como acabou o sonho?
SEGUNDA — Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba... Sei eu ao certo se o não continuo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhá-lo não é esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida? Não me faleis mais... Principio a estar certa de qualquer coisa, que não sei o que é... Avançam para mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror que desconheço... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho... Ele é sem dúvida mais real do que Deus permite... Não estejais silenciosas... Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba... Vede, começa a ir ser dia... Vede: vai haver o dia real... Paremos... Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventura interior... Quem sabe o que está no fim dela?... Tudo isto, minhas irmãs, passou-se na noite... Não falemos mais disto, nem a nós próprios... É humano e conveniente que tomemos, cada qual, a sua atitude de tristeza.
(...)
Continuemos, como o marinheiro, a sonhar uma pátria, a nossa, aquela que nós construímos, seja essa pátria, um lugar, um tempo, ou mesmo a nossa vida.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
TANINHA NASCIMENTO – PROSA E POESIA
Como profissional do ensino, Taninha é pessoa altamente comprometida com a educação de crianças e jovens. O texto em prosa de sua autoria demonstra o seu engajamento na missão de ensinar.
Como artista, é poeta de elevada sensibilidade. Dois poemas justificam o lirismo de sua poesia.
Abre-se à sua frente um longo caminho. Ao percorrê-lo, irá construindo a sua vida e saberá imprimir, nessa trajetória, marcas de educadora e de poeta.
Mantém os Blogs www.norastrodaeducacao.blogspot.com e www.norastrodapoesia.blogspot.com
O HINO NACIONAL BRASILEIRO
Sempre às segundas-feiras – em minha escola – cantamos o Hino Nacional Brasileiro. Eu, que sou “um tanto quanto” emotiva, me emociono – sempre. Mas, hoje... Hoje foi diferente.
Nós estávamos formados no pátio aberto da escola, que é paralela à Avenida Brasil. Enquanto cantávamos, meu olhar saiu da forma das crianças – onde sempre procuro perceber quem canta de fato; ou quem não tem postura; ou quem conversa..., enfim... – e, se perdeu na via... Era perto de sete e trinta da manhã. Os ônibus indo e vindo – lotados.Por instantes, me veio uma agradável sensação meio de orgulho e força; meio de dever se cumprindo e, também, de temor.Esse patriotismo - tão intenso - a que o Hino Nacional nos remete, é desafiador: “... Mas se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta...”. Esta estrofe é a minha preferida. Eu, inclusive, sinto que a minha postura fica mais ereta.
Pois é... As crianças, os professores, os pais. Todos cantando o Hino Nacional Brasileiro, enquanto o que cantamos é – verdadeiramente – vivido e, lindamente, ilustrado pela Avenida Brasil, cedinho, logo pela manhã.
“... Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte...”. Ah... Brasil de braços fortes...
“... Dos filhos deste solo és mãe gentil...”. Novamente uma gostosa sensação. Agora, de acolhimento..., segurança...
Ah... Brasil...
Taninha é daquelas professoras verdadeiras, daquelas que se emocionam com o Hino Nacional, porque leva sua profissão de educar a sério. Ela vive a emoção que o Hino desperta nela. Como símbolo, ele representa a própria Pátria, em que ela vive e que ela ama. Por ela, Taninha aceita o desafio de dedicar-se ao magistério. Nada mais nobre, mas nada mais trabalhoso, difícil, num país que nem sempre dedica à educação o que poderia e deveria dedicar.
Para educar, é necessário saber se emocionar, saber ver a realidade como um complemento da vida vivida. É o patriotismo, é o amor ao nosso país, “mãe gentil”, que ela ensina.
Ela ensina com a autoridade de quem “não foge à luta”.
INIMAGINÁVEL ESPERANÇA
Quantos paradoxos poéticos já na primeira estrofe! E eles se sucedem e percorrem todo o poema! Apesar de tantas “absolutas impossibilidades”, a poeta vislumbra uma “inimaginável esperança”.
Num eterno digladiar-se, os contrários se enfrentam no poema: desespero x calma; lavas x frescor; guerras x bandeiras brancas; gritos x silêncio; iceberg x calor; dores x alegria; impossibilidades x possibilidades. Só assim os “ais de lamento” poderiam dar lugar a uma “esperança”, por inimaginável que fosse. Mas ela é real, porque ela existe.
PALAVRAS E OLHARES
Perdida em palavras e olhares
A matéria do poeta lírico é o amor. Nisso são quase unânimes críticos e teóricos da literatura. E quando se fala em amor como matéria do poema, fala-se também da ausência do amor, ou da fuga do amor.
A fugacidade é outra característica da poesia lírica. O momento lírico é, por natureza, fugaz. Ele vem e se dissolve na atmosfera dos sentimentos.
Dessa forma, o sentimento, a alma, a “disposição anímica”, retrata-se no poema, porque é o poeta vivendo a emoção da sua poesia, momento mágico.
Portanto, poesia é emoção, é o eu do artista refletido no poema. Poeta e poesia se confundem e convivem entre acertos e desacertos, por serem ambos paradoxais. O poeta alimenta e, ao mesmo tempo, repele o amor e a tristeza que o amor causa, assim como a poesia reflete tanto o amor ou a tristeza de uma perda.
É o destino do poeta, é o destino de quem ama.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
CRISTIANE RODRIGUES DE SOUZA
Em seu livro Clã do jabuti: uma partitura de palavras. (São Paulo: Annablume, 2006), Cristiane faz, segundo comentário contido na própria obra, “Uma análise crítica da obra poética de Mário de Andrade, focalizando o livro Clã do Jabuti (1927), em que se evidencia a discussão de conceitos musicais em meio à escrita dos versos, demonstrando a construção de um projeto de escrita poética que, embora se arme em muitas faces, encontra na musicalidade a síntese maior”.
Em parecer sobre o estudo da jovem autora, diz a professora e crítica literária, também estudiosa de Mário de Andrade, Laura Beatriz Fonseca de Almeida: “O livro de Cristiane Rodrigues de Souza - Clã do Jabuti: uma partitura de palavras - é uma contribuição valiosa para os estudos críticos da obra poética de Mário de Andrade. As faces plurais do sujeito poético instigaram a leitora sensível a uma pesquisa analítica dos versos do poeta com objetivo maior de apreender a voz musical e folclórica do sujeito lírico, síntese da pluralidade das vozes que ressoa na voz moderna do sujeito lírico marioandradino”.
Eu tive a felicidade de a conhecer, apresentada por minha filha Raquel, na Universidade da Madeira, em Funchal. Nós três apresentamos trabalhos no IX Congresso Internacional de Lusitanistas, em agosto de 2008. Por essa breve convivência e grande admiração, não resisti a fazer comentário sobre cada poema. Os poemas devem ser lidos. Os comentários são dispensáveis.
Agora, a voz poética de Cristiane Rodrigues de Souza:
POEMA
Estas minhas asas leves, o respirar curto.
O Sol claro claro em meus olhos
e a música inconstante escondida...
É que vim de Irapuru, minha Itabira.
As“asas leves” e o “respirar curto” anunciam a leveza e a brevidade do texto. Mas há nele espaço suficiente para o Sol, para muita claridade e para uma música que sempre se esconde em sua variável forma de aparecer. É o modo de ser de alguém que deseja buscar no passado de uma cidadezinha a complexidade da poesia de um retrato na parede, a sua Itabira. É o existencial que está em Drummond e está também em Cristiane Rodrigues de Souza.
NA MORADA DO SUBLIME
No pico mais alto da Madeira,
falei com pedras pálidas e com florezinhas rasteiras amarelas.
Olhei o vento e o seu verde esmaecido,
fiquei sem ar no meio do ar livre do Atlântico
e me comovi com a queda perpétua dos abismos desejosos do alto.
No silêncio amplo dos precipícios infindáveis do pico mais alto da Madeira,
ouvi a música surda feita de notas nascidas nos infernos de seus fundos.
E sobrevivi.
Agora pago a pena eterna por ter fitado os olhos incandescentes do Sublime
e ter ouvido o seu recado indecifrável,
sem nunca nunca ser capaz de redizê-lo.
Mas no pico mais alto da Madeira,
respondi à música dos Infindáveis
com meu recado também surdo também inconcebível.
E o Sublime está lá até agora nos seus socavões tentando decifrá-lo.
Porque ele também sobreviveu aos meus olhos.
Os poemas começam pelo título. Este é um exemplo claro. É só observar a ambigüidade expressa em “na morada do sublime”: o Sublime que habita os vales profundos da Madeira (“E o Sublime está lá até agora nos seus socavões...”); o enamoramento de alguém pelo Sublime (“Agora pago a pena eterna por ter fitado os olhos incandescentes do Sublime”).
O poema ilustra bem a poesia de tendência metafísica. Lembra bastante os poemas de Teixeira de Pascoais em suas alusões aos altos picos do Marão. E a presença da música eleva mais o sentido de transcendentalidade.
O discurso poético da autora dialoga em conversa muda e, portanto, insondável, inaudível, com o Sublime. Como num ato de vingança por não ter decifrado a mensagem do Sublime vindo dos grotões, ela, do pico mais alto, desafia o Sublime lá nas lapas profundas a decifrarem o seu recado também insondável. É considerável que a poetisa se alteie frente ao Sublime, porque ela se coloca mais alta e, portanto, mais importante. Ela é criadora de poesia.
PRECE À ÁRVORE DO DRAGOEIRO
(Para Raquel Illescas Bueno)
eu pedi aquela flor
eu pedi eu pedi
aquela flor!
como quem dá comida a pássaros
a árvore desprendeu-se dela
e ma ofertou
deu-me a flor como quem faz poesia sem querer:
um movimento de alma trepidou de leve seu tronco
e desgalhou lirismo sobre as visitantes
sorri de volta e passei
como antes tantos outros milhares pousados no minuto de sua sombra
A árvore existe de verdade no pátio do Restaurante O Dragoeiro, que mira o mar em frente e os edifícios ao alto, na cidade de Funchal. A Raquel também existe e é sua colega de USP e de viagem à Ilha da Madeira. Só o que não existia ainda era o poema de Cristiane. Agora tudo se completa. Duas jovens, uma flor, o sotaque e o estilo lusitanos da árvore que, para a poetisa “ma ofertou” a flor. Uma flor, puro lirismo, e que é autêntica poesia.
A transitoriedade daquele encontro é imposta pelo convívio efêmero, porque nós passamos por tantos e são tantos que passam por nós. Só a poesia permanece.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
FABRÍCIO CORSALETTI
Cristiane, dona de um apurado aparato crítico, consegue penetrar as nuances dos poemas de Corsaletti. Com essa análise lúcida fica fácil fruir as imagens que o poeta instala em seus poemas.
Vamos ao texto de Cristiane Rodrigues de Souza:
"O poeta Fabrício Corsaletti lançou seu primeiro livro de poemas, Movediço, em 2001, com prefácio do crítico, poeta e professor de Literatura da USP, Alcides Villaça (Movediço foi relançado pela Companhia das Letras, ao lado de outros livros de Corsaletti, no livro Estudos para seu corpo). A vida na cidade do interior de São Paulo, Santo Anastácio, abandonada por Fabrício ao seguir rumo à capital para cursar Letras, é tema de seu livro de poemas, assim como o amor e o erotismo, invocados sempre por meio de uma linguagem precisa, que tira da fala coloquial e da experiência cotidiana o corte certeiro do ritmo que, ao lado de imagens marcantes, constrói a poesia.
O poema de abertura de Movediço fala das impressões do poeta na metrópole que, apesar de se abrir a ele, às vezes, como manhã de maio, não possui, como a cidade da infância, o cheiro fértil dos quintais cobertos por caquis podres e a terra revolvida por minhocas e caramujos, na qual se forjou a voz poética que, no final do livro, se anuncia “antig[a] e/ movediç[a]/ como o mangue” – fértil, perene, mas sempre em mutação.
Acontecia às vezes
da cidade
se abrir como manhã de maio
na minha frente hoje
entanto há nem
vento solução
de nuvem manga
mordida no úmido quintal
onde minhocas caramujos caquis podres
MOVEDIÇO
sou antigo e
movediço
como o mangue
não sei
como não enlouqueci
aos 16
ainda tenho forças
pra destruir este quarto
este corpo os postes
da rua –
mas não posso
morrer não posso
não assim
maravilhado
A última estrofe de “Movediço”, ao retomar os versos de Ferreira Gullar – “Não quero morrer não quero/ apodrecer no poema” (GULLAR, F. “Arte poética”. In: Melhores poemas. Seleção e apresentação de Alfredo Bosi. São Paulo: Global, 2000, p 146) – instaurando, no entanto, um novo ritmo, por meio da divisão singular dos versos, e novos significados, ao mudar o verbo “querer” para “poder”, finaliza o poema que dá título ao livro, falando do maravilhamento dos olhos do poeta ao contemplar a vida, estado que o impulsiona para a criação poética marcada pela experiência viva, evitando, como Gullar, “que o cadáver de [suas] tardes/ [...] venha feder [na] manhã feliz” do leitor dos poemas.
O estado de maravilhamento marca um outro texto de Movediço, “Céu Azul”.
CÉU AZUL
O céu azul é o poético sem mediação
olho e céu se entendem
você fica do lado de fora
pensando nos seus problemas
de homem moderno comum
até que pede licença
e sai de fininho
com seu olho orgulhoso
que sabe
(você sabe)
mais que você
João Luiz Lafetá, citando comentários de Bachelar sobre as imagens derivadas do “céu azul”, nos lembra que, “no espelho sem moldura [do azul] [...] o mundo imaginado é posto antes do mundo representado, em que o conhecimento poético precede o conhecimento racional”. (LAFETÁ, J. L. Figuração da intimidade. São Paulo: Martins Fontes, 1986, p 166).
Os pensamentos racionais do homem moderno, não passíveis de apreender o poético – ou a Vontade que, de acordo com Schopenhauer, mora atrás dos fenômenos – são colocados, no poema de Fabrício, em oposição à contemplação maravilhada que consegue apreender o que existe por trás da representação do mundo.
A arte repete em suas obras as Idéias apreendidas por pura contemplação, o essencial e permanente de todos os fenômenos do mundo [...]. Sua única origem é o conhecimento da Idéia; seu único fim, a comunicação desse conhecimento [...]. A arte [...] retira o objeto de sua contemplação da torrente do curso do mundo e o isola diante de si; e esse particular, que era na torrente fugidia uma parte ínfima a desaparecer, torna-se um representante do todo (SCHOPENHAUER, A. Metafísica do Belo. Trad. Apres. e notas de Jair Barbosa. São Paulo: Editora UNESP, 2003, p 59).
Corsaletti, ao apontar a experiência de ver o poético como ato passível de ser realizado pelo leitor – “você” –, coloca a apreensão da poesia ao alcance de todos. Transformar essa intuição do poético em arte, no entanto, exige o trabalho posterior do poeta".
