terça-feira, 17 de março de 2009

DE REALITY SHOW E DE FERNANDO PESSOA

Em um programa dominical de televisão, uma participante recentemente eliminada de um Reality Show, quando entrevistada, referiu-se à existência de duas vidas: uma lá dentro, no ambiente vivido pelos enclausurados, e outra aqui fora. Falou também que todos possuem dois lados: o que é visto aqui de fora e outro que se vivencia lá dentro.
Portanto, de modo simplificado, o que ela disse e o que há são duas vidas. Uma é a vida real, aquela de aqui fora; a outra, uma vida fingida, a dos participantes na casa do reality show. Ou será o contrário?, como indaga Fernando Pessoa. A entrevistada acrescentou, ainda, que o fato de as pessoas cultivarem os dois lados é normal, porque todos nós os possuímos concomitantemente.
Como esses são temas de vários autores, e frequentes na poesia de todos os tempos, lembrei-me em especial de Fernando Pessoa. Em várias passagens da sua obra, o poeta versa, como um dos motivos de sua poesia, a existência de duas vidas, uma real e outra fingida.
Ao retornar à literatura portuguesa, vamos transcrever dois textos de Fernando Pessoa: um poema e um fragmento de um poema em prosa, dentre aqueles que o próprio poeta denominou poemas dramáticos.

POEMA 165
Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida.
E outra vida que é pensada.
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual, porém, é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.


Aprendamos a viver e a conviver com nossas duas vidas, com a real - a vivida - e com a pensada - puro sonho. Penso que ninguém sabe explicar qual a verdadeira e qual a errada, porque ambas são verdadeiras.

FRAGMENTO DE O MARINHEIRO, poema dramático de Fernando Pessoa.
(...)
SEGUNDA — À beira-mar somos tristes quando sonhamos... Não podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremo-lo sempre ter sido no passado... Quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que há mil vozes mínimas a falar. A espuma só parece ser fresca a quem a julga uma... Tudo é muito e nós não sabemos nada... Quereis que vos conte o que eu sonhava à beira-mar?
PRIMEIRA — Podeis contá-lo, minha irmã; mas nada em nós tem necessidade de que no-lo conteis... Se é belo, tenho já pena de vir a tê-lo ouvido. E se não é belo, esperai..., contai-o só depois de o alterardes...
SEGUNDA — Vou dizer-vo-lo. Não é inteiramente falso, porque sem dúvida nada é inteiramente falso. Deve ter sido assim... Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha esquecido que tinha pai e mãe e que houvera em mim infância e outros dias — nesse dia vi ao longe, como uma coisa que eu só pensasse em ver, a passagem vaga de uma vela. Depois ela cessou... Quando reparei para mim, vi que já tinha esse meu sonho... Não sei onde ele teve princípio... E nunca tornei a ver outra vela... Nenhuma das velas dos navios que saem aqui de um porto se parece com aquela, mesmo quando é lua e os navios passam longe devagar...
PRIMEIRA — Vejo pela janela um navio ao longe. É talvez aquele que vistes...
SEGUNDA — Não, minha irmã; esse que vedes busca sem dúvida um porto qualquer... Não podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto...
PRIMEIRA — Por que é que me respondestes?... Pode ser... Eu não vi navio nenhum pela janela... Desejava ver um e falei-vos dele para não ter pena... Contai-nos agora o que foi que sonhastes à beira-mar...
SEGUNDA — Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longínqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por elas... Não vi se alguma vez pousavam... Desde que, naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali... Como ele não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido: pôs-se a fazer ter sido sua uma outra pátria, uma outra espécie de país com outras espécies de paisagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janelas... Cada hora ele construía em sonho esta falsa pátria, e ele nunca deixava de sonhar, de dia à sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas e não reparando nas estrelas.
PRIMEIRA — Não ter havido uma árvore que mosqueasse sobre as minhas mãos estendidas à sombra de um sonho como esse!...
TERCEIRA — Deixai-a falar... Não a interrompais... Ela conhece palavras que as sereias lhe ensinaram... Adormeço para a poder escutar... Dizei, minha irmã, dizei... Meu coração dói-me de não ter sido vós quando sonháveis à beira-mar...
SEGUNDA — Durante anos e anos, dia a dia, o marinheiro erguia num sonho contínuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edifício impossível... Breve ele ia tendo um país que já tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se já de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que cor soíam ser os crepúsculos numa baía do norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmúrio da água que o navio abria, num grande porto do sul onde ele passara outrora, feliz talvez, das suas mocidades a suposta...
(uma pausa)
PRIMEIRA — Minha irmã, por que é que vos calais?
SEGUNDA — Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre... Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber... Quando falo de mais começo a separar-me de mim e a ouvir-me falar. Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração. Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o poder embalar como a um filho... Vede: o horizonte empalideceu... O dia não pode já tardar... Será preciso que eu vos fale ainda mais do meu sonho?
PRIMEIRA — Contai sempre, minha irmã, contai sempre... Não pareis de contar, nem repareis em que dias raiam... O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas... Não torçais as mãos. Isso faz um ruído como o de uma serpente furtiva... Falai-nos muito mais do vosso sonho. Ele é tão verdadeiro que não tem sentido nenhum. Só pensar em ouvir-vos me toca música na alma...
SEGUNDA — Sim, falar-vos-ei mais dele. Mesmo eu preciso de vo-lo contar. À medida que o vou contando, é a mim também que o conto... São três a escutar... (De repente, olhando para o caixão, e estremecendo). Três não... Não sei... Não sei quantas...
TERCEIRA — Não faleis assim... Contai depressa, contai outra vez... Não faleis em quantos podem ouvir... Nós nunca sabemos quantas coisas realmente vivem e vêem e escutam... Voltai ao vosso sonho... O marinheiro. O que sonhava o marinheiro?
SEGUNDA (mais baixo, numa voz muito lenta) — Ao princípio ele criou as paisagens, depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matéria da sua alma — uma a uma as ruas, bairro a bairro, até às muralhas dos cais de onde ele criou depois os portos... Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobre elas das janelas... Passou a conhecer certa gente, como quem a reconhece apenas... Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo... Depois viajava, recordando, através do país que criara... E assim foi construindo o seu passado... Breve tinha uma outra vida anterior... Tinha já, nessa nova pátria, um lugar onde nascera, os lugares onde passara a juventude, os portos onde embarcara... Ia tendo tido os companheiros da infância e depois os amigos e inimigos da sua idade viril... Tudo era diferente de como ele o tivera — nem o país, nem a gente, nem o seu passado próprio se pareciam com o que haviam sido... Exigis que eu continue?... Causa-me tanta pena falar disto!... Agora, porque vos falo disto, aprazia-me mais estar-vos falando de outros sonhos...
TERCEIRA — Continuai, ainda que não saibais por que... Quanto mais vos ouço, mais me não pertenço...
PRIMEIRA — Será bom realmente que continueis? Deve qualquer história ter fim? Em todo o caso falai... Importa tão pouco o que dizemos ou não dizemos... Velamos as horas que passam... O nosso mister é inútil como a Vida...
SEGUNDA — Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cansou-se de sonhar... Quis então recordar a sua pátria verdadeira..., mas viu que não se lembrava de nada, que ela não existia para ele... Meninice de que se lembrasse, era a na sua pátria de sonho; adolescência que recordasse, era aquela que se criara... Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara... E ele viu que não podia ser que outra vida tivesse existido... Se ele nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se lembrava... E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido... Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer... Ó minhas irmãs, minhas irmãs... Há qualquer coisa, que não sei o que é, que vos não disse... Qualquer coisa que explicaria isto tudo... A minha alma esfria-me... Mal sei se tenho estado a falar... Falai-me, gritai-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui! ante vós e que há coisas que são apenas sonhos...
PRIMEIRA (numa voz muito baixa) — Não sei que vos diga... Não ouso olhar para as cousas... Esse sonho como continua?...
SEGUNDA — Não sei como era o resto... Mal sei como era o resto... Por que haverá mais?...
PRIMEIRA — E o que aconteceu depois?
SEGUNDA — Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?... Veio um dia um barco... Veio um dia um barco... — Sim, sim... só podia ter sido assim... — Veio um dia um barco, e passou por essa ilha, e não estava lá o marinheiro.
TERCEIRA — Talvez tivesse regressado à pátria... Mas a qual?
PRIMEIRA — Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabê-lo-ia alguém?
SEGUNDA — Por que é que mo perguntais? Há resposta para alguma coisa?
(uma pausa)
TERCEIRA — Será absolutamente necessário, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?
SEGUNDA — Não, minha irmã; nada é absolutamente necessário.
PRIMEIRA — Ao menos, como acabou o sonho?
SEGUNDA — Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba... Sei eu ao certo se o não continuo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhá-lo não é esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida? Não me faleis mais... Principio a estar certa de qualquer coisa, que não sei o que é... Avançam para mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror que desconheço... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho... Ele é sem dúvida mais real do que Deus permite... Não estejais silenciosas... Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba... Vede, começa a ir ser dia... Vede: vai haver o dia real... Paremos... Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventura interior... Quem sabe o que está no fim dela?... Tudo isto, minhas irmãs, passou-se na noite... Não falemos mais disto, nem a nós próprios... É humano e conveniente que tomemos, cada qual, a sua atitude de tristeza.
(...)

Continuemos, como o marinheiro, a sonhar uma pátria, a nossa, aquela que nós construímos, seja essa pátria, um lugar, um tempo, ou mesmo a nossa vida.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

TANINHA NASCIMENTO – PROSA E POESIA

Taninha Nascimento é pseudônimo de uma jovem professora do Rio de Janeiro. É Graduada em Letras e exerce o magistério em Escola do Rio de Janeiro. É também Coordenadora Pedagógica.
Como profissional do ensino, Taninha é pessoa altamente comprometida com a educação de crianças e jovens. O texto em prosa de sua autoria demonstra o seu engajamento na missão de ensinar.
Como artista, é poeta de elevada sensibilidade. Dois poemas justificam o lirismo de sua poesia.
Abre-se à sua frente um longo caminho. Ao percorrê-lo, irá construindo a sua vida e saberá imprimir, nessa trajetória, marcas de educadora e de poeta.
Mantém os Blogs
www.norastrodaeducacao.blogspot.com e www.norastrodapoesia.blogspot.com

O HINO NACIONAL BRASILEIRO
Sempre às segundas-feiras – em minha escola – cantamos o Hino Nacional Brasileiro. Eu, que sou “um tanto quanto” emotiva, me emociono – sempre. Mas, hoje... Hoje foi diferente.
Nós estávamos formados no pátio aberto da escola, que é paralela à Avenida Brasil. Enquanto cantávamos, meu olhar saiu da forma das crianças – onde sempre procuro perceber quem canta de fato; ou quem não tem postura; ou quem conversa..., enfim... – e, se perdeu na via... Era perto de sete e trinta da manhã. Os ônibus indo e vindo – lotados.Por instantes, me veio uma agradável sensação meio de orgulho e força; meio de dever se cumprindo e, também, de temor.Esse patriotismo - tão intenso - a que o Hino Nacional nos remete, é desafiador: “... Mas se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta...”. Esta estrofe é a minha preferida. Eu, inclusive, sinto que a minha postura fica mais ereta.
Pois é... As crianças, os professores, os pais. Todos cantando o Hino Nacional Brasileiro, enquanto o que cantamos é – verdadeiramente – vivido e, lindamente, ilustrado pela Avenida Brasil, cedinho, logo pela manhã.
“... Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte...”. Ah... Brasil de braços fortes...
“... Dos filhos deste solo és mãe gentil...”. Novamente uma gostosa sensação. Agora, de acolhimento..., segurança...
Ah... Brasil...

Taninha é daquelas professoras verdadeiras, daquelas que se emocionam com o Hino Nacional, porque leva sua profissão de educar a sério. Ela vive a emoção que o Hino desperta nela. Como símbolo, ele representa a própria Pátria, em que ela vive e que ela ama. Por ela, Taninha aceita o desafio de dedicar-se ao magistério. Nada mais nobre, mas nada mais trabalhoso, difícil, num país que nem sempre dedica à educação o que poderia e deveria dedicar.
Para educar, é necessário saber se emocionar, saber ver a realidade como um complemento da vida vivida. É o patriotismo, é o amor ao nosso país, “mãe gentil”, que ela ensina.
Ela ensina com a autoridade de quem “não foge à luta”.

INIMAGINÁVEL ESPERANÇA

Eu suspiro na calma do desespero,
no frescor das lavas
e nas guerras de bandeiras brancas.

Quando o sol nasce a oeste
e o passado pôde ser previsto
e as estrelas ressuscitadas,

o silêncio me indaga
gritando aos quatro ventos:-
Você pode escutar?

Há calor no iceberg de jade.
Alegria nas piores dores
e nos infelizes.

O absurdo toma forma;
contorna, adorna e colore
as mais absolutas impossibilidades.

E - neste momento -
todos os meus ais de lamento
dão lugar a inimaginável esperança.

Quantos paradoxos poéticos já na primeira estrofe! E eles se sucedem e percorrem todo o poema! Apesar de tantas “absolutas impossibilidades”, a poeta vislumbra uma “inimaginável esperança”.
Num eterno digladiar-se, os contrários se enfrentam no poema: desespero x calma; lavas x frescor; guerras x bandeiras brancas; gritos x silêncio; iceberg x calor; dores x alegria; impossibilidades x possibilidades. Só assim os “ais de lamento” poderiam dar lugar a uma “esperança”, por inimaginável que fosse. Mas ela é real, porque ela existe.

PALAVRAS E OLHARES
Perdida em palavras e olhares
Minhas vistas vagam sem saberVagam sem saber o final da estrada do querer...
Do querer e não poder.
Perdida em palavras e olhares.

A tristeza, sorrateira, comemora o fim da alegria
Onde quem feliz me faziaEm breve, já não estaria.
Perdida em palavras e olharesEu te digo, não sabia...
Não sabia que o amor compareceria.

E... Sem cerimônias, ficaria. Perdida em palavras e olhares
A tristeza vitoriosa já sorria (e eu nem via)
Sorria com tamanha crueldade... Sabendo
Sabendo que, em meu coração (perplexo) repousaria.

A matéria do poeta lírico é o amor. Nisso são quase unânimes críticos e teóricos da literatura. E quando se fala em amor como matéria do poema, fala-se também da ausência do amor, ou da fuga do amor.
A fugacidade é outra característica da poesia lírica. O momento lírico é, por natureza, fugaz. Ele vem e se dissolve na atmosfera dos sentimentos.
Dessa forma, o sentimento, a alma, a “disposição anímica”, retrata-se no poema, porque é o poeta vivendo a emoção da sua poesia, momento mágico.
Portanto, poesia é emoção, é o eu do artista refletido no poema. Poeta e poesia se confundem e convivem entre acertos e desacertos, por serem ambos paradoxais. O poeta alimenta e, ao mesmo tempo, repele o amor e a tristeza que o amor causa, assim como a poesia reflete tanto o amor ou a tristeza de uma perda.
É o destino do poeta, é o destino de quem ama.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

CRISTIANE RODRIGUES DE SOUZA

A poeta Cristiane, que vive em Ribeirão Preto, é nascida em Adamantina, também no estado de São Paulo. Cresceu na pequena Irapuru, outra cidade paulista. Bastante jovem, é mestre em Letras pela UNESP de Araraquara e atualmente doutoranda pela USP. Com formação também em música tem estudado a poesia de Mário de Andrade em relação com a crítica de música desse autor.
Em seu livro Clã do jabuti: uma partitura de palavras. (São Paulo: Annablume, 2006), Cristiane faz, segundo comentário contido na própria obra, “Uma análise crítica da obra poética de Mário de Andrade, focalizando o livro Clã do Jabuti (1927), em que se evidencia a discussão de conceitos musicais em meio à escrita dos versos, demonstrando a construção de um projeto de escrita poética que, embora se arme em muitas faces, encontra na musicalidade a síntese maior”.
Em parecer sobre o estudo da jovem autora, diz a professora e crítica literária, também estudiosa de Mário de Andrade, Laura Beatriz Fonseca de Almeida: “O livro de Cristiane Rodrigues de Souza - Clã do Jabuti: uma partitura de palavras - é uma contribuição valiosa para os estudos críticos da obra poética de Mário de Andrade. As faces plurais do sujeito poético instigaram a leitora sensível a uma pesquisa analítica dos versos do poeta com objetivo maior de apreender a voz musical e folclórica do sujeito lírico, síntese da pluralidade das vozes que ressoa na voz moderna do sujeito lírico marioandradino”.
Eu tive a felicidade de a conhecer, apresentada por minha filha Raquel, na Universidade da Madeira, em Funchal. Nós três apresentamos trabalhos no IX Congresso Internacional de Lusitanistas, em agosto de 2008. Por essa breve convivência e grande admiração, não resisti a fazer comentário sobre cada poema. Os poemas devem ser lidos. Os comentários são dispensáveis.
Agora, a voz poética de Cristiane Rodrigues de Souza:

POEMA
Estas minhas asas leves, o respirar curto.
O Sol claro claro em meus olhos
e a música inconstante escondida...

É que vim de Irapuru, minha Itabira.


As“asas leves” e o “respirar curto” anunciam a leveza e a brevidade do texto. Mas há nele espaço suficiente para o Sol, para muita claridade e para uma música que sempre se esconde em sua variável forma de aparecer. É o modo de ser de alguém que deseja buscar no passado de uma cidadezinha a complexidade da poesia de um retrato na parede, a sua Itabira. É o existencial que está em Drummond e está também em Cristiane Rodrigues de Souza.

NA MORADA DO SUBLIME
No pico mais alto da Madeira,
falei com pedras pálidas e com florezinhas rasteiras amarelas.
Olhei o vento e o seu verde esmaecido,
fiquei sem ar no meio do ar livre do Atlântico
e me comovi com a queda perpétua dos abismos desejosos do alto.

No silêncio amplo dos precipícios infindáveis do pico mais alto da Madeira,
ouvi a música surda feita de notas nascidas nos infernos de seus fundos.
E sobrevivi.
Agora pago a pena eterna por ter fitado os olhos incandescentes do Sublime
e ter ouvido o seu recado indecifrável,
sem nunca nunca ser capaz de redizê-lo.

Mas no pico mais alto da Madeira,
respondi à música dos Infindáveis
com meu recado também surdo também inconcebível.
E o Sublime está lá até agora nos seus socavões tentando decifrá-lo.
Porque ele também sobreviveu aos meus olhos.

Os poemas começam pelo título. Este é um exemplo claro. É só observar a ambigüidade expressa em “na morada do sublime”: o Sublime que habita os vales profundos da Madeira (“E o Sublime está lá até agora nos seus socavões...”); o enamoramento de alguém pelo Sublime (“Agora pago a pena eterna por ter fitado os olhos incandescentes do Sublime”).
O poema ilustra bem a poesia de tendência metafísica. Lembra bastante os poemas de Teixeira de Pascoais em suas alusões aos altos picos do Marão. E a presença da música eleva mais o sentido de transcendentalidade.
O discurso poético da autora dialoga em conversa muda e, portanto, insondável, inaudível, com o Sublime. Como num ato de vingança por não ter decifrado a mensagem do Sublime vindo dos grotões, ela, do pico mais alto, desafia o Sublime lá nas lapas profundas a decifrarem o seu recado também insondável. É considerável que a poetisa se alteie frente ao Sublime, porque ela se coloca mais alta e, portanto, mais importante. Ela é criadora de poesia.

PRECE À ÁRVORE DO DRAGOEIRO
(Para Raquel Illescas Bueno)

eu pedi aquela flor
eu pedi eu pedi
aquela flor!

como quem dá comida a pássaros
a árvore desprendeu-se dela
e ma ofertou

deu-me a flor como quem faz poesia sem querer:
um movimento de alma trepidou de leve seu tronco
e desgalhou lirismo sobre as visitantes

sorri de volta e passei
como antes tantos outros milhares pousados no minuto de sua sombra

A árvore existe de verdade no pátio do Restaurante O Dragoeiro, que mira o mar em frente e os edifícios ao alto, na cidade de Funchal. A Raquel também existe e é sua colega de USP e de viagem à Ilha da Madeira. Só o que não existia ainda era o poema de Cristiane. Agora tudo se completa. Duas jovens, uma flor, o sotaque e o estilo lusitanos da árvore que, para a poetisa “ma ofertou” a flor. Uma flor, puro lirismo, e que é autêntica poesia.
A transitoriedade daquele encontro é imposta pelo convívio efêmero, porque nós passamos por tantos e são tantos que passam por nós. Só a poesia permanece.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

FABRÍCIO CORSALETTI

Vive em Ribeirão Preto / SP uma poetisa e doutoranda em Letras pela USP, Cristiane Rodrigues de Souza. Foi ela quem enviou este texto seu com análise da poesia de um conterrâneo (ambos paulistas) e contemporâneo , Fabrício Corsaletti.
Cristiane, dona de um apurado aparato crítico, consegue penetrar as nuances dos poemas de Corsaletti. Com essa análise lúcida fica fácil fruir as imagens que o poeta instala em seus poemas.

Vamos ao texto de Cristiane Rodrigues de Souza:

"O poeta Fabrício Corsaletti lançou seu primeiro livro de poemas, Movediço, em 2001, com prefácio do crítico, poeta e professor de Literatura da USP, Alcides Villaça (Movediço foi relançado pela Companhia das Letras, ao lado de outros livros de Corsaletti, no livro Estudos para seu corpo). A vida na cidade do interior de São Paulo, Santo Anastácio, abandonada por Fabrício ao seguir rumo à capital para cursar Letras, é tema de seu livro de poemas, assim como o amor e o erotismo, invocados sempre por meio de uma linguagem precisa, que tira da fala coloquial e da experiência cotidiana o corte certeiro do ritmo que, ao lado de imagens marcantes, constrói a poesia.
O poema de abertura de Movediço fala das impressões do poeta na metrópole que, apesar de se abrir a ele, às vezes, como manhã de maio, não possui, como a cidade da infância, o cheiro fértil dos quintais cobertos por caquis podres e a terra revolvida por minhocas e caramujos, na qual se forjou a voz poética que, no final do livro, se anuncia “antig[a] e/ movediç[a]/ como o mangue” – fértil, perene, mas sempre em mutação.

Acontecia às vezes
da cidade
se abrir como manhã de maio
na minha frente hoje
entanto há nem
vento solução
de nuvem manga
mordida no úmido quintal
onde minhocas caramujos caquis podres

MOVEDIÇO
sou antigo e
movediço
como o mangue

não sei
como não enlouqueci
aos 16

ainda tenho forças
pra destruir este quarto
este corpo os postes
da rua –

mas não posso
morrer não posso
não assim
maravilhado

A última estrofe de “Movediço”, ao retomar os versos de Ferreira Gullar – “Não quero morrer não quero/ apodrecer no poema” (GULLAR, F. “Arte poética”. In: Melhores poemas. Seleção e apresentação de Alfredo Bosi. São Paulo: Global, 2000, p 146) – instaurando, no entanto, um novo ritmo, por meio da divisão singular dos versos, e novos significados, ao mudar o verbo “querer” para “poder”, finaliza o poema que dá título ao livro, falando do maravilhamento dos olhos do poeta ao contemplar a vida, estado que o impulsiona para a criação poética marcada pela experiência viva, evitando, como Gullar, “que o cadáver de [suas] tardes/ [...] venha feder [na] manhã feliz” do leitor dos poemas.
O estado de maravilhamento marca um outro texto de Movediço, “Céu Azul”.

CÉU AZUL
O céu azul é o poético sem mediação
olho e céu se entendem
você fica do lado de fora
pensando nos seus problemas
de homem moderno comum
até que pede licença
e sai de fininho
com seu olho orgulhoso
que sabe
(você sabe)
mais que você

João Luiz Lafetá, citando comentários de Bachelar sobre as imagens derivadas do “céu azul”, nos lembra que, “no espelho sem moldura [do azul] [...] o mundo imaginado é posto antes do mundo representado, em que o conhecimento poético precede o conhecimento racional”. (LAFETÁ, J. L. Figuração da intimidade. São Paulo: Martins Fontes, 1986, p 166).
Os pensamentos racionais do homem moderno, não passíveis de apreender o poético – ou a Vontade que, de acordo com Schopenhauer, mora atrás dos fenômenos – são colocados, no poema de Fabrício, em oposição à contemplação maravilhada que consegue apreender o que existe por trás da representação do mundo.
A arte repete em suas obras as Idéias apreendidas por pura contemplação, o essencial e permanente de todos os fenômenos do mundo [...]. Sua única origem é o conhecimento da Idéia; seu único fim, a comunicação desse conhecimento [...]. A arte [...] retira o objeto de sua contemplação da torrente do curso do mundo e o isola diante de si; e esse particular, que era na torrente fugidia uma parte ínfima a desaparecer, torna-se um representante do todo (SCHOPENHAUER, A. Metafísica do Belo. Trad. Apres. e notas de Jair Barbosa. São Paulo: Editora UNESP, 2003, p 59).
Corsaletti, ao apontar a experiência de ver o poético como ato passível de ser realizado pelo leitor – “você” –, coloca a apreensão da poesia ao alcance de todos. Transformar essa intuição do poético em arte, no entanto, exige o trabalho posterior do poeta".

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

CASSIANO RICARDO

Cassiano Ricardo (São José dos Campos, SP, 26/07/1895 - Rio de Janeiro, 14/01/1974. Foi jornalista, poeta e ensaísta. Membro da Academia Brasileira de Letras, Cadeira n. 31, sucedeu ao também paulista Paulo Setúbal. Foi saudado em sua posse por outro paulista, Guilherme de Almeida.
Aos 16 anos publicou seu primeiro livro de poesias, Dentro da noite. Formou-se em Direito no Rio de Janeiro. Em São Paulo, foi um dos líderes da Semana de Arte Moderna de 1922, em que participou ativamente dos grupos "Verde Amarelo" e "Anta", ao lado de Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Raul Bopp, Cândido Mota Filho e outros. É a denominada fase nacionalista.
Como jornalista, colaborou nos mais importantes jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Fundou algumas revistas literárias: Novíssima, Planalto (1930) e Invenção (1962).
Inicialmente, pertenceu ao Integralismo chefiado por Plínio Salgado, porém, mais tarde, abandona essa tendência e, com Menotti del Picchia e Mota Filho, inicia o movimento político Bandeira, exatamente para contrapor-se ao Integralismo. O movimento lutava "Por uma democracia social brasileira, contra as ideologias dissolventes e exóticas".
Iniciou-se como poeta lírico-sentimental em sua primeira obra, ainda sobre a influência do Parnasianismo e do Simbolismo. Com A flauta de Pã (1917) já adota uma estética que se aproxima dos ideais modernistas de 1922. Foi modernista ortodoxo até o início da década de 40. Suas principais obras dessa fase são: Vamos caçar papagaios (1926), Borrões de verde e amarelo (1927) e Martim Cererê (1928), obras que estão entre as mais representativas do Modernismo.
Na década de 40, com O sangue das horas (1943), inicia uma outra fase bem diferente das anteriores. Passa do imagismo cromático ao lirismo introspectivo-filosófico. Esta nova tendência se acentua em Um dia depois do outro (1947). Esta obra é considerada o marco divisório da sua carreira literária.
Como homem e artista que costumava acompanhar de perto a evolução da política e das artes, Cassiano Ricardo seguiu de perto as experiências do Concretismo e do Praxismo. Nestes movimentos produziu obras poéticas de vanguarda nas décadas de 50 e 60. A sua obra mais representativa do Experimentalismo é Jeremias sem-chorar, de 1964. Nela, registra-se o experimentalismo de um poeta que percorreu um longo caminho na poesia brasileira e que merece lugar de destaque na literatura brasileira.

Os sonetos da primeira fase de sua poesia, como os exemplos abaixo, vão sendo substituídos por poemas livres integrados a uma nova estética:

QUADRO ANTIGO

Por certo que amo as coisas, os objetos,
que me acompanham, neste fim de viagem.
São elas, coisas, minhas cúmplices, à hora
em que, ó lua, me contas teus segredos.

São eles, os objetos, os meus símbolos,
para uma última fotomontagem.
Mas, como são — coisas e objetos — tristes,
por já não serem mais os meus brinquedos.

Em vão o calor físico os dilata.
Em vão meu pensamento lhes dilui
o acre contorno, em proustiana sondagem.

Só, contra o sol, a sombra deles flui!
no chão, na mesa, ou — colorida imagem —
no cristal onde nunca sou quem fui.

FICARAM-ME AS PENAS

O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.

PECADO ORIGINAL
O dia nos espia... novamente.
Mas, ó incrível morena de olhar verde,
fecha os teus olhos pra fingir que é noite.
E teremos a noite, duas, três vezes,
quantas vezes fecharmos nossos olhos
na quentura de um beijo. Porque a noite
é uma pequena invenção de nós dois...
Há um momento de treva em cada beijo
e uma risada matinal depois,
do dia, debruçado na jane1a,
que nos espia, e quer saber de tudo
o que se passa agora entre nós dois.
Fecha os olhos de novo, e eu te darei
a noite que ainda mora atrás do dia ...

Da fase nacionalista do Modernismo, temos este poema integrado a um modo de viver do interior do Brasil. O imigrante que chegara para repor a mão-de-obra escrava foi um dos temas que Cassiano Ricardo adotou para ilustrar o seu amor pelo país, que o poeta retrata com muito conhecimento e vivência na labuta das plantações do interior paulista:

A FILHA DO IMIGRANTE
Eu fui buscar maracujás e vi no mato a loura filha
do imigrante.
(Os gafanhotos de esmeralda com pijamas amarelos ou vermelhos surpreendidos por meu passo davam saltos sobre a grama em trampolins feitos de folha.
E como bichos agarrava-se ao meu corpo uma porção
de carrapichos.) .
Eu fui buscar maracujás e vi no mato a loura filha
do imigrante.

Sua figura me ficou quente de sol naquele dia todo
branco, na moldura do barranco, dentre as árvores
festivas com cabelos de fogueira e com pestanas tão torradas como longas sempre-vivas...
Eu fui buscar maracujás e vi no mato a loura filha
do imigrante.

As bananeiras eram pássaros gigantes de asas verdes
tatalantes que pousavam pela grata em procissão e conservavam a asa aberta e o bico rubro em coração
a levantar no vôo imenso qualquer coisa que ficara
sobre o chão! .

E então
uma dourada mamangava
ferrotoou-me o coração...

É interessante comparar os dois poemas seguintes, ambos com o mesmo título, LADAINHA. O primeiro é da fase nacionalista do Modernismo; o outro, do Experimentalismo dos anos 60:

LADAINHA
Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome de Ilha de Vera-Cruz.
Ilha cheia de graça
Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz.

Ilha verde onde havia
mulheres morenas e nuas
anhangás a sonhar com histórias de luas
e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.

Depois mudaram-lhe o nome
pra Terra de Santa Cruz.
Terra cheia de graça
Terra cheia de pássaros
Terra cheia de luz.

A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga
e onças ruivas deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.

Mas como houvesse, em abundância,
certa madeira cor de sangue cor de brasa
e como o fogo da manhã selvagem
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,
e como a Terra fosse de árvores vermelhas
e se houvesse mostrado assaz gentil,
deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça
Brasil cheio de pássaros
Brasil cheio de luz.

LADAINHA
Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.

Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?

Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.

Ó máquina, orai por nós.

Um dos poemas mais bem acabados e, por isso mesmo, representativo da estética de Vanguarda, Poesia Concreta, Concretismo, ou Experimentalismo, como quer que se denomine, é sem dúvida o poema Rotação. Nele, Cassiano Ricardo demonstra ter assimilado a nova fase da atual poesia brasileira:

ROTAÇÃO

a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova espera
me ensina
de novo a esperança
na esfera

a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
]a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
na esfera

a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
na esfera


sábado, 24 de janeiro de 2009

MENOTTI DEL PICCHIA

Menotti del Picchia (São Paulo, 20.03.189223.08.1988) é um daqueles poetas da Semana de Arte Moderna que ficaram um pouco esquecidos. Talvez isso se deva à dissensão com o grupo que se impôs como o principal do Modernismo, com Mário e Oswald de Andrade à frente. Nada disso, porém, tira o valor que a sua poesia ostenta.
Como a maioria dos poetas daquela época, Menotti tinha vindo de movimentos estéticos anteriores, principalmente do Parnasianismo e do Simbolismo. Às vezes esses poetas praticavam uma espécie de síntese dessas duas tendências. Assim, é comum encontrar-se o Soneto, como uma das formas recorrentes na poesia desses autores.
O Soneto é uma forma universal e atemporal. Desde a época do Renascimento com a poesia clássica, quando surgiu até os nossos dias, ele sempre terá cultores e admiradores.
Pessoalmente, prefiro para a nossa época os poemas livres, como os dois últimos destes três. Sinto que neles Menotti se manifesta com mais espontaneidade.

SONETO

Soneto! Mal de ti falem perversos

que eu te amo e te ergo no ar como uma taça.
Canta dentro de ti a ave da graça
na gaiola dos teus quatorze versos.

Quantos sonhos de amor jazem imersos
em ti que és dor, temor, glória e desgraça?
Foste a expressão sentimental da raça
de um povo que viveu fazendo versos.

Teu lirismo é a nostálgica tristeza
dessa saudade atávica e fagueira
que no fundo da raça nos verteu

a primeira guitarra portuguesa
gemendo numa praia brasileira
naquela noite em que o Brasil nasceu...

NIRVANA

Quisera ficar a teu lado

No grande êxtase pacífico
do nosso silêncio.
Continuar indefinidamente
o diálogo mudo dos nossos olhos.

Quisera
diluir-me em ti como um aroma no vento
como dois rios que fundem suas águas
no abraço do mesmo leito
e correm para o mesmo destino...

Somos duas árvores solitárias
que entrelaçam suas ramas:
à mesma brisa estremecem
florescem
envelhecem
e morrem...

POEMA XXX

Encontraremos o amor depois que um de nós abandonar
os brinquedos.
Encontraremos o amor depois que nos tivermos despedido
E caminharmos separados pelos caminhos.
Então ele passará por nós,
E terá a figura de um velho trôpego,
Ou mesmo de um cão abandonado,
O amor é uma iluminação, e está em nós, contido em nós,
E são sinais indiferentes e próximos que os acordam do
seu sono subitamente.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

GILKA MACHADO


GILKA MACHADO
Em tempos de recordar Maysa, cantora polêmica e avançada para a sua época, (Maysa, quando fala o coração), devemos lembrar também de Gilka Machado (Rio de Janeiro, 12.03.1893 – 11.12.1980). Combatida pelo grupo da Semana de Arte Moderna, Gilka soube impor-se por sua determinação na luta em favor da libertação da mulher do pensamento retrógrado de muitos intelectuais da época.
Escreveu versos sob a influência do Simbolismo e que foram considerados escandalosos no começo do século XX, pelo marcante erotismo. Como mulher que se impunha ao seu tempo, não se abateu pelas críticas e continuou a escrever sobre a condição feminina.
Suas principais obras foram: Cristais Partidos, 1915; Estados de Alma, 1917; Mulher Nua, 1922; Meu Glorioso Pecado, 1918; Carne e Alma, 1931; Sublimação, 1928; Meu Rosto, 1947; Velha Poesia, 1968; Poesias Completas, 1978.
Há na poesia de Gilka Machado um erotismo e uma audácia que desafiavam os preceitos e a conduta moral de sua época. É considerada a pioneira no emprego da sensualidade, na poética feminina brasileira.

LEMBRANÇAS
Teus retratos — figuras esmaecidas;
mostram pouco, muito pouco do que foste.
Tuas cartas — palavras em desgaste,
dizem menos, muito menos
do que outrora me diziam
teus silêncios afagantes...
Só o espelho da minha memória
conserva nítida, imutávela projeção de tua formosura,
só nos folhos dos meus sentidos
pairam vívidas
em relevo
as frases que teu carinho
soube nelas imprimir.
Sou a urna funerária de tua beleza

que a saudade
embalsamou.

Quando chegar o meu instante derradeiro

só então, mais do que eu,
tu morrerás

em mim.

SAUDADE
De quem é esta saudadeque meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,e esta boca sem um beijo...
De quem é esta saudadeque sinto quando me vejo?

SENSUAL
Quando, longe de ti, solitaria, medito
neste affecto pagão que envergonhada occulto,
vem-me ás narinas, logo, o perfume exquisito
que o teu corpo desprende e ha no teu proprio vulto.

A febril confissão deste affecto infinito
ha muito que, medrosa, em meus labios sepulto,
pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,
á minha castidade é como que um insulto.

Si acaso te achas longe, a collossal barreira
dos protestos que, outr’ora, eu fizera a mim mesma
de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.

Mas, si estás ao meu lado, a barreira desaba,
e sinto da volupia a ascosa e fria lêsma
minha carne polluir com repugnante baba...