quarta-feira, 16 de setembro de 2015

ORIGENS

Cada um traz dentro de si os sinais de suas origens. É a terra, são os antepassados, avós, pais e pessoas com quem conviveu. A vida tem sempre a sua razão e o seu modo de ser e, assim, ela modela, molda, conforma.
Portanto, não é estranho que eu traga dentro de mim tanto da minha infância. Foram por essa época os primeiros contatos, as primeiras vivências, as primeiras amizades. E os primeiros conhecimentos se seguiram a tudo isso.
Meus avós me influenciaram por intermédio de meu pai e de minha mãe. Minha família me acompanhava, ensinava, encaminhava-me para a vida. De meu pai eu trouxe o modo amplo de ver o mundo e de me comunicar com os outros, o gosto de me expandir, principalmente pelas viagens. E ainda me restou a herança de uma incomensurável curiosidade. De minha mãe me vieram a tenacidade, o desejo de trabalhar e de vencer honestamente com o próprio esforço. Ela sempre procurou incutir nos filhos caráter firme e coragem para enfrentar a vida.
A cordialidade, a amizade, o carinho foram aperfeiçoados pelas irmãs mais velhas. Sempre cuidaram e zelaram por mim. A irmã e o irmão mais novos me ensinaram a ser cuidadoso com eles.
E os parentes, o que não fizeram por mim? Tudo que podiam e mais, mesmo o que era difícil para eles. Assim também agiram vizinhos e amigos. Pessoas que me visitavam, conversavam e me acompanhavam em muitos passos da vida.
Desse modo, as minhas origens só me ajudaram no meu crescimento físico, intelectual, afetivo. Sou o que sou, e não gostaria de ter sido ou de ser diferente. Quero permanecer eu mesmo e sempre guiado pelas qualidades daquelas pessoas e de tudo que fez parte das minhas origens.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

PUNHAL NO PEITO


PUNHAL NO PEITO
Jayme Ferreira Bueno

 
Uma vez me cravaram ao lado,
Bem junto do coração,
Um punhal bem afiado.
Fiquei sem saber se o punhal
Era de fino aço ou de duro amor.
Só sei que me fez tanto mal,
Tão grande era a minha dor.
Eu chorava noite e dia,
Que me levou a pedir a Deus:
Dê-me coragem de arrancar
Essa lâmina cortante e fria.
E Ele ma concedeu.
Arranquei o punhal com força
Apesar do sofrimento.
Pensou-se, então:
Não sofrerá mais tormento,
Nem terá mais tanta dor,
Sem o punhal no coração.
Puro engano, amigo!
Passei a ter saudade,
De tanta crueldade
Naquele coração ferido.
Este barro que encobre meu espírito
Quem o entenderá, Senhor...?
 
(À moda de Rosalía de Castro, poetisa galega)

 


 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O VELHO TREM DE FERRO

Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...

Eu sofro sem pena a vida.

 Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso

Pela maré a vazar...

 E sobe até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.
 
(Poema Marinha. PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1969, p. 147.)

      Castro não tem mar. Castro não tem porto, aliás, tem, mas é portinho onde não atracam navios, atracam pequenas canoas de algum pescador descuidado. O lugar que se chama Porto fica na margem direita do rio. Mas aquele espaço era como um refúgio para algum esporte. Houve época que ali as jovens de Castro tentavam jogar vôlei. Quando elas lá não estavam, éramos nós, os meninos, que ali íamos jogar o que deveria ser uma espécie de futebol.
Portanto, ali, no Porto, não havia despedida com lenço branco acenando. Mas havia a velha estação da estrada de ferro. Era ali que se aguardava o velho trem na espera de chegar com ele alguma ilusão. Era ali que havia despedidas, algumas pungentes, de cortar o coração, mas não se acenavam lenços brancos.
O velho trem vinha de longe, de São Paulo, chegava cansado. Resfolegava. Depois de passar por Jaguariaíva e de uma breve parada em Piraí do Sul, os trilhos margeavam o tortuoso Iapó. E o trem acompanhava. Já nas fraldas da cidade de Castro, o velho trem apitava. Primeiro cruzava uma pequena estrada de terra, depois apitava novamente para cruzar uma rua e entrar na ponte de grande estrutura metálica. Estava cruzando o Iapó. Margeava a várzea por uma reta e um chão plano, antes de fazer acentuada curva à esquerda, para novamente apitar. Antes de dobrar ligeiramente à direita e cruzar outra rua, esta já bem mais movimentada, o trem afinal apitava contente, estava ingressando no quadro da estação. As agulhas afastavam ou uniam trilhos, para que ele pudesse, finalmente, encostar na plataforma.
Aguardavam-se pessoas. Umas vinham, outras não. O trem como sedento necessitava de água para suas caldeiras. O carvão já estava sendo colocado nas fornalhas. Para a água, do alto da caixa d’água, lá estava o velho Gustavo. Ele era o dono daquele espaço. Ali, só ele, mais ninguém. As longas mangueiras de pano desciam até a máquina e ali depositava a água que iria refrescar, mas também movimentar o pesado trem. E ele partia, apitando. Seguiria em direção de novos destinos: Curitiba, Rio Grande do Sul. Dependia... O fato é que deixava um vazio na velha estação. Castro voltaria a dormir o sono de cidade pequena e abandonada.   

 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

MEU VELHO BLOG

Meu velho blog esquecido
Onde está? Onde ele jaz?
Já nem o encontro mais.
Estará ele perdido?

quarta-feira, 16 de maio de 2012

1950 1. O despertar Dia 1.º de janeiro de 1950, eu, o dia, o mês e o ano acordamos cedo com o toque da Alvorada. A cidade também. O corneteiro do quartel em frente chamava os companheiros para um novo dia, e era ali naquele regimento bem defronte à casa em que eu morava. Certo dia, meu pai me deixara ali, naquele lugar, na cidade de Castro. Era final do ano de 1949. Eu teria de me quedar só, ainda aos 11 anos, afastado de minha mãe, de meu pai e de meus irmãos. Era o dever que me colocava em tal e tão difícil situação. Eu teria de me preparar para o ingresso no curso ginasial. Estudar era preciso. Sofrer não era, mas eu iria sofrer. Soara, então, a Alvorada. Naquele quase um minuto, o soldado se esmerara naquelas notas musicais. O som parecia sair do íntimo do peito de quem soprava a corneta. Estaria ele acordando os colegas, a cidade, ou acordando a si mesmo? Fosse o que fosse conseguira o seu intento. Até o imóvel Duque de Caxias, ali na frente das sentinelas, naquele momento da Alvorada, pareceu acordar do seu sono granítico e como que se aprumou na base de pedra, para, logo em seguida, retomar a sua posição impassível de militar impoluto, respeitador e respeitado. O toque vibrante se fazia ouvir longe e havia como um sentimento de vibração esparso pelo ar. O soldado conseguira, sim, o que desejara. Tocara a alma das pessoas. Tudo seria diferente pelas redondezas. Apesar de ser domingo, Castro acordou cedo. Logo, pela rua passou uma carroça, depois uma bicicleta e, por último, pessoas caminhando. Vinham das proximidades, das fraldas do Morro do Ferro, ou da Vila Frei Mathias, ou ainda da Colônia Santa Leopoldina, talvez de mais longe, do Tronco. Eram verdureiros, leiteiros, padeiros, pessoas que iriam à missa das 7h. A cidade, enfim, retomaria o seu ritmo depois de uma longa noite sonolenta. O Iapó faria suas águas dançarem como valsaram ao som de Ondas do Iapó.

1950-Despertar

quinta-feira, 1 de março de 2012

A POESIA DE CRISTIANE RODRIGUES DE SOUZA

Cristiane Rodrigues de Souza, a pessoa, é uma jovem recatada, um tanto tímida, e com a delicadeza e a beleza das mulheres predestinadas.
Cristiane Rodrigues Souza, a poeta, é bastante diferente. Não perde, porém, a delicadeza e a sutileza de seus gestos de pessoa, mas solta-se livre, levada pela poesia e esquece a timidez e, em parte, o recatamento próprio de uma jovem senhora. Assim
Assim, à maneira de Adélia Prado, o poema surge erotizado para nele se afirmar que o amor é bom: Depois do amor / nos meus braços ele dorme e sonha com a luz, o som, o ar.... No mesmo poema, quase ao final, confessa: meu corpo comovido em suas mãos cria nele ritmo de noite quente / ele me prende / e me enreda e me leva como as ondas de Creedence. (...)Dentro das técnicas da poesia pós-modernista, Cristiane escreve sobre a própria poesia e, mais, sobre a sua própria poesia: no próprio poema Prece à Arvore do Dragoeiro encontramos exemplo: Deu-me a flor como quem faz poesia sem querer. Há mais, porém. No poema da p. 27, a modo de um heterônimo, ela se refere a si própria: - Cris, aquiete-se!Formalmente, o poema fica na indecisão entre o gênero poesia, versicamente falando, e a prosa poética. Não importa, porém. O que importa é que seus textos se encontram impregnados do poético. Para usarmos termos da crítica estruturalista - formalistas russos, Jakobson, Todorov, Kristeva - podemos afirmar que a sua palavra, como toda palavra poética, quer mostrar-se a si mesma. A linguagem do poema torna-se uma linguagem espessa, própria da poesia, em oposição à linguagem transparente da prosa. Tal estranhamento é a essência da literariedade de seus poemas.
Mas fugindo à critica dos anos 60, para deixar de ser tão retrógrado, podemos afirmar que a sua poeticidade é própria da poesia do Pós-Modernidade, ou seja, da Contemporaneidade. A poeta versa, com propriedade, a metalinguagem, a metapoética, tão emblemática da poesia atual. Além de que busca na intertextualidade algum apoio. Explicitamente, aparecem em seus poemas, uma Itabira drummondiana, misturada à uma primeira estrofe à Cecília Meireles; busca o mesmo amor que Sóror Mariana Alcoforado ficava à espera nas cartas que tardavam, ou que não chegavam às suas mãos; um realismo à Tchékov, o mestre do conto moderno; a música da lira de Anfion da Tebas que a poeta procura às avessas; do som da banda de rock Creedence Clearwater Revival, que costuma embalar a poeta em seus momentos de amor; o ritmo da banda escocesa Travis, que é imitado pelo andar de uma carroça; a visão do personagem do ator, roteirista e diretor Tarantino. De modo implícito, aparece a poesia de Mário de Andrade, em especial, de Pauliceia Desvairada.
Finalizando, algumas palavras sobre o poema Prece à Arvore do Dragoeiro, poema-síntese da sua obra. Pode-se afirmar, embora seja temerário fazer-se qualquer afirmação sobre poética e poesia, mas insisto talvez no erro. Esse poema é o que desencadeia os demais. Pode ser, inclusive, que muitos deles sejam anteriores ao contato com tal árvore, na Ilha da Madeira, mas a seleção feita para a publicação nos leva a pensar em tal possibilidade. Se diacronicamente, os poemas possam ser de épocas anteriores, unificados pela sincronia, eles desfilam após Prece à Arvore do Dragoeiro. O poema é também síntese da poética de Cristiane Rodrigues de Souza na obra lida: a poesia é algo que se dá, ou seja, é alguma coisa que se oferece de graça aos visitantes, mesmo aqueles que permanecem apenas um minuto à sua sombra, o tempo em que se lê um dos poemas da poeta. É ainda algo que se desprende do poeta, como a folha se desprende da árvore, e sobre a sombra do lirismo de Cristiane Rodrigues de Souza nós nos quedamos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A BUSCA DA FELICIDADE

Nos dados disponíveis, é possível perceber a alternância entre as relações de poder e solidariedade, nas tentativas de marcação das dis-tâncias psicossociais, situacionais, interacionais etc., ou de restabele¬cimento da simetria comunicativa, por meio da utilização do registro (...) Como se sabe, é bastante fácil identificar o exercício do poder de um interlocutor sobre outro, com base na identi¬ficação de estratégias de controle de tópicos e turnos na conversa. As relações de solidariedade, porém, igualmente perceptíveis no discurso, podem camuflar uma definição precisa da distância social, psicológi-ca, econômica, linguística, interacional ou simplesmente cognitiva.
Pode-se afirmar que a assimetria comunicativa resulta, pois, do exercício do poder pessoal, social ou institucional, embora, algumas vezes, seja apenas fruto de pressupostos acerca dos interlocutores, de julgamentos subjetivos dos falantes a propósito dos receptores das mensagens.
(MARTINS, Denise de Aragão Costa. Pressupostos ideológicos na interação: o mecanismo da simplificação comunicativa em ação, em (Org.) MAGALHÃES, Izabel. As múltiplas faces da linguagem. Brasília: UNB, 1996, p. 53.)
30 LONGO PERCURSO NA BUSCA DA FELICIDADE
Esta é a história de uma mulher que buscava incessantemente a felicidade. Onde encontrá-la quando ao certo nem sabia o que realmente buscava, o que realmente desejava? Será que o que procurava era algo necessário ou alguma mera complementação para ela, como pessoa física e psicológica? O jeito era mesmo sair à procura. Foi o que fez. Procurou os mais diversos profissionais e pessoas que poderiam vir a ajudá-la. E um a um foi consultando sobre o remédio para o seu mal.
1 Publicitário:
O que faz você feliz? É o último lançamento da moda primavera-verão mostrada no desfile que aconteceu sábado no shopping? Ah, não! Então, é aquele carro modernoso, potente, de cores extravagantes, que desfila pelas ruas da cidade? Não ainda? Então, aquele produto de beleza capaz de fazê-la bonita, para que possa vestir aquele biquíni último tipo? Se não for tudo isso, você terá de reinventar-se.
Deverá manter um contato pessoal com alguém da área, um profissional que entenda de técnicas modernas de atendimento, de auto-estima, e que possua visão de negócios e, ainda, que seja capaz de lhe vender uma ideia. Portanto, alguém que tenha potencial. Esse profissional da publicidade deve possuir um grande e atualizado portfolio, e ainda capaz de dar o key insight. Só assim ele poderá integrar o offline com o online. É isso que, com embasamento em pesquisa junto à mídia criativa, eu poderia indicar-lhe.
Poderia também indicar-me a mim próprio como pretendente a dar-lhe ajuda e uma solução definitiva para esse seu inconformismo diante daquilo que não tem.
- A mulher:Como não me parece que seja essa a solução para o meu caso, vou procurar outro profissional.
2- Economista: Minha senhora, na atual crise de confiança do mercado, nada se pode prever. Não se pode ainda saber o tamanho da atual crise. Ela poderá durar seis meses ou seis anos, tudo depende dos ativos das ações e dos derivativos dos juros. A bolsa, como se sabe, não tem dado trégua a ninguém, e mesmo o Brasil já está profundamente afetado, embora o nosso governante máximo diga que nada sabe de crise e que aqui se ela chegar será uma marolinha, que não vai dar nem para surfar nela!
Que bom que fosse assim realmente, senhora. Mas se vê que essa não é a realidade. Tudo está muito volátil e o que a senhora busca talvez não se encontre no mercado. E importar é difícil, porque com o dólar e o euro subindo a cada dia... Isso torna qualquer intercâmbio comercial caro e não compensador. A não ser que a Senhora queira dar tudo o que tem em forma de pagamento.
- A mulher:Está bem! Mas isso me soou como uma cantada! Está ele muito enganado. O meu negócio é a felicidade, não a vida fácil que muitas procuram. Sei, porém, que não será ele que dará uma resposta para o meu problema. Vou procurar ajuda na psicologia, já que não sou dada a crendices de cartomantes e madames que prometem em folhetos nos devolverem tudo o que perdemos. No máximo, aceitarei conselhos de algum guru, um bruxo, que seja realmente famoso e confiável.
3- Médico: Sabe... A vida é como aquelas lesões que no processo cicatricional sempre demonstram incômodo. Há necessidade de que elas retomem ao processo inicial para descobrir-lhes a causa subjacente ao mal. É uma questão de anamnese demorada e que nem sempre apresenta resultados positivos.
A senhora está estressada! Não se preocupe, hoje em dia, isso é muito comum! O importante é detectar qual o principal problema que a aflige. É necessário descobrir se o seu problema é de ordem clínica, reumatológica, pneumológica, cardiológica, ou hematológica. Talvez, e, então, seria mais grave, seria um caso de trombostemia? Espero que não! É que, para cada caso, há que se pensar em um tratamento adequado, o que implica impostos, recibos, notas, vigilância sanitária, conselho regional, associações de classe, sindicatos e convênios. Ou o pagamento será em dinheiro? Nesse caso, é diretamente com a minha secretária, a não ser que deseje acertar pessoalmente comigo em meu outro escritório particular.
-A mulher:É, parece que estão mesmo a fim de me conquistar, mas não vai ser assim, não! Vou firme em frente, que não é de saúde corporal, física, ou de carência sexual a doença que me aflige.
4- Psicóloga:A senhora fez muito bem em procurar ajuda na ciência do Dr. Freud, que ultimamente anda em baixa, mas eu ainda prefiro este psicanalista a outros estudiosos da alma humana, como o alemão Jung, por exemplo, que foi apenas um de seus discípulos e só complicou com o conceito dos arquétipos. O francês Lacan, unindo a psicologia à linguística, também complicou a nossa ciência. Detectar os anseios pelo discurso não me parece muito convincente. Os mais modernos são mais confusos ainda, porque, geralmente, misturam todos e dessa salada nada de bom pode resultar.
Freud, não! Ele nos fala diretamente pela interpretação dos sonhos e dos nossos anseios mais íntimos. Estes resultam de nossos desejos sexuais reprimidos. Sempre que reprimimos algo em nós, isso comprime o nosso ego, e, então, o nosso eu se manifesta do modo mais avassalador possível. Temos que dar vazão aos nossos sentimentos, relaxar... Só assim essa pressão contida pode expandir-se, mas já sob nosso controle, porque esta é a solução mágica, controlar os nossos instintos.
Para isso, porém, temos de nos dar. Dar-nos a tudo, dar-nos a todos, dar-nos ao mundo. Só dando, livramo-nos de nossas tensões.
- A mulher:Olha, doutora, eu vim em busca de ajuda e não gostaria de somente sair dando por aí. Eu quero uma outra solução, talvez mais clássica, mais comedida que essa que a sua psicologia me oferece.
5- Advogado: Data vênia, a Senhora fez uma boa escolha em procurar um jurista, um profissional do direito. Estou às suas ordens e espero ser-lhe útil na petição que me fizer e no direito que dela provier. Sempre serei um defensor público a seu serviço e que a ajudará a procrastinar o seu mal até que se alcance um julgamento em definitivo, sobre o qual não caiba mais processo recursal.
Irei sempre defendê-la nas barras dos tribunais, quer na primeira ou na última instância, com sapiência e nunca com dolo, como muitos procuram infligir a seus clientes. Serei um fiel servidor do direito em sua defesa e em busca do que for de justiça. Mas isso com certeza sairá caro, porque costumo cobrar bem de minhas clientes. E se não me retribuem a contento, sei avançar sobre elas.
- A mulher:Acontece que não estou com nenhum processo judicial e nem tenho inimizade com alguém, a não ser com minha nora, mas isso é coisa de somenos e que sói acontecer a todas nós mulheres, mães de filhos casados com essas criaturas, as noras, nem sempre à altura de nossos filhos, os filhos que criamos com tanto amor e carinho!
6- Professor e pedagogo:
Olha, minha querida discípula, eu que me saio tão bem em explicações sobre os fenômenos físicos, biológicos e linguísticos do ser humano, sinto-me impotente diante da sua busca. O muito que eu já li e já pesquisei, a convivência com grandes sábios do magistério, nenhum deles soube me ajudar a explicar doença ou mal-estar tão arraigado como esse que a Senhora me apresenta.
Vou continuar a minha pesquisa e quando tiver alguma solução para o seu caso, que consiste em um verdadeiro teorema que necessita de um desenvolvimento e de uma solução matemático-linguística, então voltarei a me oferecer para ajudá-la. Quando puder contar com saberes mais sólidos nessa linha de pensamento retornarei do mesmo modo de sempre, o de procurar ser verdadeiro em tudo que exponho, porque esse é meu compromisso com a ciência e com a minha própria consciência.
Espero, porém, que, talvez, enquanto esse lapso de tempo decorrer, possa a minha discípula ter já encontrado o possível refrigério para o seu sofrimento.
Ah, sim, lembrei-me: posso recorrer a uma colega de magistério, uma pedagoga. Talvez ela com algumas de suas ponderações, que normalmente as chama de “colocações” e que, confesso, não gosto nada do termo, mas enfim que fique ela com suas “colocações”. São dela e não minhas. Portanto, que vá...
Veja, minha Senhora, a minha colega pedagoga afirmou que Piaget e Vigotski, principalmente, seriam a solução, porque, segundo ela, e aqui transcrevo suas palavras:
“A felicidade está no saber fazer fazendo, ou seja, muitas vezes, quando menos se espera, estamos à frente de um problema de difícil saída e não temos para ele uma solução digna de registro, mas sabemos que a ciência da Pedagogia está aí exatamente para solucionar problemas como esses que são frequentes em nossas vidas, principalmente quando se trata de trabalhar junto aos educandos no chão da escola.
Dessa maneira, como nos ensinou o grande mestre da pedagogia amorosa, a educação tem que ser feita com amor, com doação, com alma, sempre acreditando em uma utopia possível, num sonho que a qualquer momento pode se realizar.
Assim, a lição que se tira dessas sábias palavras é que a felicidade pode estar em qualquer lugar, mesmo nas coisas mais simples, até insignificantes, que estão ao nosso lado e que considerando do ponto de vista da ciência do ensinar e do aprender, porque o professor nem sempre só ensina, ele também aprende com o aluno, podendo-se dizer assim, como disse aquele grande escritor que anda pelos sertões, que de repente o mestre aprende e o aluno ensina. Essa é a verdadeira sabedoria, porque hoje o professor não é mais aquele que sabe, quem sabe é o aluno, e o professor muitas vezes vai aprendendo ao longo do exercício das funções na sala de aula, recanto sagrado do ensinar e do aprender, vivendo assim a verdadeira arte da pedagogia, a ciência que nos embasa e forma as nossas personalidades, porque somos feitos de cérebro, de espírito e de corpo, numa visão holística da existência. Já não se recorre às ciências estanques, departamentalizadas, agora o todo é uno, e o uno é o todo.
Viu, talvez você mesma esteja com a chave da solução do problema em suas próprias mãos e não esteja sabendo manejá-la na abertura da estrada da felicidade, que pode muito bem estar no bojo da pedagogia, ciência muitas vezes desprezada, por ter um discurso bastante técnico e especializado, necessário para o bom encaminhamento das sondagens, para o ministrar dos ensinamentos.
Pense bem nas palavras do mestre, que dizem que o importante para a formação da consciência e, logo, da própria felicidade, é a verdadeira escolarização, aquela da educação popular, que visa sempre o oprimido e o relegado da sociedade, que busca se encontrar na alfabetização dialética. O diálogo deve ser feito sempre com as pessoas simples, como um meio de integração no meio social democrático.
Assim, penso que somente a pedagogia da libertação poderá libertá-la para a verdadeira felicidade.
- A mulher:Agradeço a boa vontade do professor e de sua colega pedagoga. Estou tendo alguma dificuldade em entender exatamente a mensagem, mas sei que terei de continuar a minha busca. Talvez o caminho do Senhor me leve a algum lugar santo em que eu possa repousar das dores deste mundo.
7- Religioso: Filha, que bom que veio buscar em nossa casa, nesta igreja, que é também a casa do Senhor, o bálsamo para as suas dores, o unguento para suas mazelas tão próprias dos dias atormentados em que as pessoas se afastam muitas vezes dos ensinamentos de Deus e buscam outros caminhos que nunca levam a lugar algum. Quando levam, é para a angústia, porque tudo que se mostra maravilhoso é apenas ilusão diante da luz do ensinamento da verdade religiosa. Esta, sim, pode realmente levar ao caminho eterno, que é onde todos um dia devem encontrar a paz do corpo e da alma.
Eu mesmo gostaria de ser o seu condutor nessa caminhada pelas veredas do Senhor. Dê-me a mão e vamos seguir por onde nos levarem as nossas preces e, com certeza, veremos uma nova luz aparecer. Será a luz do entendimento, da paz, da comunhão entre os seres, dos homens e das mulheres, num só corpo, numa só vida.
Louvado seja Deus, nosso Senhor, e que assim seja, para sempre e para a glória de todos.
- A mulher:Obrigada, padre. Vou procurar voltar-me mais aos mistérios divinos. Se assim eu ainda não encontrar a solução para o meu mal terreno, poderei talvez encontrar, em outro plano, a salvação para a minha pobre alma, como prega a Santa Madre Igreja, a única e verdadeira. Penso, porém, que mesmo assim me faltará alguma coisa, a paz, a tranqüilidade terrena.
8- Filósofo:Muito bem-vinda à ciência do pensar. Veja, segundo vai dizer Platão, a Senhora vive os anseios da incompletude humana. Como sabe, a Senhora é apenas a sombra da pessoa, não é a própria pessoa, porque essa vive no etéreo junto a um ser eterno. Portanto, é normal que a Senhora esteja vivendo uma ideia, que, aliás, é um ente real, mas que existe em si e por si, constitui o mundo inteligível, separado e distinto do mundo sensível, que é o mundo do não-ser, da aparência, do fenômeno.
Aristóteles, o peripatético, aluno dissidente do mestre Platão, por sua vez, vai declarar que a vida é apenas imitação. A verdadeira pessoa humana, aquela completa e perfeita, é obra de um demiurgo, que tudo pode.
Aristóteles, assim, ao divergir do mestre Platão, irá estabelecer alguns argumentos, como o seguinte: se há ideias do positivo, deve, necessariamente, haver ideia para o negativo. Portanto, se há ideia da beleza, deve haver também ideia para a feiúra.
Assim, minha Senhora, com o ensinamento desses dois dos maiores filósofos que o mundo já conheceu, pode-se deduzir que a sua felicidade, que, no momento, encontra-se apenas no mundo das ideias, pode aflorar e vir um dia para o mundo do real, do sensível.
Assim, em tempo indeterminado, a Senhora poderá perceber pelos sentidos que a felicidade finalmente chegou. Então, talvez tenha encontrado o que busca, minha Senhora.
- A mulher:Obrigada, ilustre pensador, sábio filósofo por excelência, mas penso que a filosofia ainda se torna para mim algo um tanto intangível e pouco inteligível. Talvez que eu ainda vivencie um mundo abstrato, longe do concreto, e por isso penso que não conseguirei com os seus ensinamentos encontrar o caminho para a minha descoberta. Portanto, vou ainda continuar a minha busca, talvez nos agentes do sobrenatural, como gurus, videntes e bruxos, que eu disse inicialmente que neles eu só creria, se fossem eles famosos e reconhecidamente competentes. Há sempre que se tomar as devidas providências, porque são tantos os falsos gurus a ensinarem por toda parte.

9 – Guru:Senhora, novel discípula, pode acreditar nestas minhas sábias palavras, porque reveladas por espíritos superiores, tudo que a vida nos oferecerá no futuro é repetir o que fizemos ontem e hoje. Assim, pode-se chegar facilmente ao entendimento de que um dia sempre é diferente do outro, e cada um nos traz um ensinamento novo, uma nova bênção para o nosso espírito ávido das coisas sobrenaturais e sagradas.
A certeza é uma só: sempre estamos num processo de contínua mudança, em direção ao aperfeiçoamento do corpo e da alma. Assim, nunca podemos deixar que um dia seja a repetição do anterior, pois desse modo não se completaria o círculo do aperfeiçoamento humano e espiritual, que é o destino final de nossas vidas.
Será que no seu caso, minha discípula, a perda da felicidade não se deve a uma outra perda, a de um amor? Essa perda não teria sido causada por algo ou alguma pessoa que, talvez por inveja da sua felicidade, buscou atrapalhar a relação por meio de sortilégios, ou, então, de uma maneira esotérica e espiritual?
Nesse caso, minha Senhora e discípula, poderia retomar-se a felicidade assumindo-se uma postura de autoafirmação, de orgulho, de desprezo pelos fatos passados. Portanto, é olhar para frente, seguir os passos dos ensinamentos do seu guru, que a felicidade um dia retornará, para o gáudio seu e meu, pelo sucesso dos nossos ensinamentos.
- A mulher:Obrigada, meu guru, muito obrigada mesmo! Mas vou continuar por mais uma vez, essa, sim, será a última esperança, para que eu encontre alguém que realmente me devolva a ansiada felicidade. Vou em busca de um vate, um verdadeiro sonhador, um autêntico nefelibata, um poeta.
10- Poeta: Minha Senhora, donzela das donzelas, inspiradora e musa! O que eu, humilde poeta, posso oferecer é um pouco de poesia. A poesia refrigera, a poesia encanta e minora as dores da nossa alma. Recomendo que a senhora sonhe, sonhe e depois busque realizar aquele que foi o sonho mais lindo de sua vida...
Eu estarei sempre a seu lado, quer o céu esteja plúmbeo, quer estrelado, quer seja uma tarde nublada, com o astro-rei escondido, quer seja um dia radioso de primavera, com flores a exalar o seu perfume, e pássaros a cantarem o amor nos galhos das laranjeiras. Estarei sempre a ouvir estrelas para transmitir à Senhora um sendeiro luminoso que a transporte aos páramos celestes.
E a Senhora deve subir à altura das nuvens e, como uma verdadeira habitante dessas miragens, passar a habitar torres de marfim. Só assim encontrará a felicidade, que sempre sabe estar a seu lado, e o que faz encontrá-la é a fé na poesia, na palavra do poeta, que é um mago, um vate, um ser predestinado a trazer felicidade aos outros.
- A mulher:Agora, sim, poeta, eu encontrei o que buscava. A poesia trouxe para mim a felicidade. O vate, o profeta, o inspirado, é o único daqueles que procurei que realmente merece a minha recompensa. Foi ele que abriu o meu ser, atingiu meu coração e fez-me vibrar como pessoa e como anjo. Ao ouvi-lo, foi como se escutasse também sinos, címbalos, frautas, que soavam em meus ouvidos, tão doce era a sua melopeia.
Eu sou feliz. Eu pertenço a você, poeta. Eu me entrego de corpo e alma. Faça-me feliz para sempre. Só você me merece, só você me completa. Juntos, viveremos a perfeição da poesia e a mais completa felicidade.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

QUADROS DA MINHA VIDA

TEXTO DA APRESENTAÇÃO, DE MARIA MIRIAM CURI:
O texto de Jayme Ferreira Bueno é a autobiografia de um homem de cultura e de uma inteligência notável, tudo contado numa linguagem simples e envol¬vente. Nesta leitura, fiquei sabendo de sua infância, de seus familiares e de toda a sua trajetória, antes de nos conhecermos na faculdade.
O livro contém um relato minucioso de sua vida, lutas e conquistas, tudo com preciosas reflexões pessoais e narrações descritivas de inúmeros lugares por onde andou. Temos, em cada relato, verdadeira aula de História. São escritos que encer-ram importantes lições de vida, tanto na parte pessoal, como na profissional.
(Maria Míriam Martins Curi)

TEXTO DO PREFÁCIO, DE RAQUEL ILLESCAS BUENO:
Em Quadros da minha vida, o leitor se deparará com um texto sumarento, cheio de energia, matizado todo o tempo por grandes doses de saudade, algumas vezes no limite da melancolia. Por outro lado, o discorrer sobre "a vida inteira que podia ter sido e que não foi" (para citar Manuel Bandeira), uma tendência muito comum em textos de memórias, aparece muito raramente. O início do texto nos envolve rapidamente, e assim tomamos conhecimento da infância e da adolescência. Que campos épicos os da Fazenda Taquara, onde cavalgava uma mítica Maria Buena! Fortes, as figuras femininas pontuam vários momentos da narrativa.
Partilhar, compartilhar são quase lemas da vida desse homem, e essa atitude é injeção de ânimo sempre renovado para os que com ele convivem.
(Raquel Illescas Bueno)

TEXTO DA ORELHA DO LIVRO,DE ORLANDO BOGO:

Quadros de minha Vida, ensaio autobiográfico, nos traz um delicioso relato, repleto de emoção e humor da vida de um professor, confesso amante de aventuras turísticas, da boa literatura, da boa culinária nacional e estrangeira e, sobretudo, apaixonado pela causa da educação e do ensino.
/;Desde o início, o texto nos desvenda o caráter de alguém que não esquece sua origem pobre, que a revela com orgulho, orgulho da terra natal, orgulho dos pais, do povo da localidade, dos amigos. É notória a carga de nostalgia que percorre todo o relato.
(Orlando Bogo)

Aos leitores só falta ler o próprio livro.
Um abraço a todos.
Jayme

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

PROJETO SUJEITOS LEITORES

Cezar Tridapalli, um jovem escritor, mestre em Letras é o responsável pelo Projeto Sujeitos Leitores do Colégio Jesuíta Medianeira de Curitiba. Professores, jornalistas e alunos com experiência em leitura, quer como docentes, quer como somente leitores, depõem como se iniciaram no ato de ler e o que essa atividade exerceu neles influências.

Para conhecer o site/blog, é só clicar em: www.midiaeducacao.com.br

Para assistir à entrevista de Jayme Bueno: http://midiaeducacao.com.br/?p=8494

E para ver todos os que já foram entrevistados: http://www.youtube.com/user/midiaeducacao#g/c/B874A5C85513EACE

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

CEZAR TRIDAPALLI, NOVO ROMANCISTA

Nílton Cezar Tridapalli, nome oficial, mas, porém, conhecido na literatura por apenas Cezar Tridapalli, que adotou como uma espécie de pseudônimo, o que é bastante frequente na literatura. O cidadão Nílton Cezar é bastante jovem, nasceu em Curitiba, em 1974.
Lecionou Teoria da Literatura na PUCPR e atualmente exerce suas funções no Colégio Medianeira como um dos responsáveis por pensar a educação em suas múltiplas linguagens, das mais tradicionais às chamadas novas mídias no Colégio Jesuíta, um dos mais tradicionais de Curitiba.
Nilton Cezar Tridapalli recebeu o título de mestre pela Universidade Federal do Paraná, no ano de 2004, com a dissertação De luzes e de sombras: jogos barrocos em contos fantásticos.
Procurando-se material sobre o escritor Cezar Tridapalli se encontram informações, que, além de romancista, é um grande tradutor de obras teóricas sobre literatura, principalmente de obras da língua italiana para o português, como, por exemplo, o Fantástico, de Remo Ceserani.
Este livro explora uma região particular da literatura e da arte moderna: aquela imaginação perturbadora e fantástica. Seguindo as manifestações dessa modalidade, o autor faz emergir sua capacidade muito especial de colocar em xeque nossa forma de ver o mundo e, com isso, revelar momentos de perturbação, de alienação e de dilaceração da consciência.
Ultimamente, Cezar Tridapalli, publicou o romance Pequena biografia de desejos. Segundo a crítica esse é um romance que já nasceu maduro. Diz do livro André Tezza Consentino:
Romances de estreia, em geral, são aqueles que depois da maturidade o escritor se arrepende e recusa a paternidade. E esta é a primeira grande qualidade do romance de Cezar Tridapalli: é um livro maduro, envolvente, _ de um vigor narrativo que só encontramos em escritores com mais tempo de estrada. Mas as qualidades vão além. É um olhar singular sobre o Brasil, a partir de Curitiba, esta cidade que desde Dalton Trevisan soube construir uma escola literária muito peculiar, de distanciamento, racionalidade e um fino humor.
Nesta tradição, Pequena biografia de desejos apresenta tanto o Brasil privilegiado quanto o país de uma imensa maioria de trabalhadores anônimos, aqueles que dificilmente são protagonistas do imaginário da classe leitora brasileira.
Mas não se engane: não é um romance dedicado à pedagogia ou à defesa de bandeiras políticas - como toda grande literatura, o livro de Tridapalli aposta, como fio narrativo primordial, na investigação da condição humana, mais atemporal e mais livre de demonstrações de teses ou teorias.
Finalmente, é um livro escrito dentro da tradição literária contemporânea mais preocupada em saber contemporânea mais preocupada em saber contar uma boa história do que em revolucionar a linguagem (...)
O crítico encerra afirmando que a estréia de Cezar Tridapalli "não passará despercebida. Pequena biografia de desejos, com certeza, dará um novo rumo na literatura feita no Paraná".
Na quarta capa, a editora selecionou o seguinte trecho do livro:
De início, sonhava com um abraço, forte, quente e, enquanto durasse, infinito. Se conseguisse isso, veria depois o que fazer, conforme as vontades que lhe dessem. Jamais, no entanto, tomaria qualquer iniciativa. Algumas noites, passou a sonhar que ditava para Adele trechos de seu livro. Os caminhos longos do ônibus eram dedicados a imaginar cenas, às vezes cogitando-as possíveis, outras vezes dando livre arbítrio para a loucura. Lembrava quando criança, nas primeiras paixões, estar sempre salvando a menina de perigos mil. Ria, misturava tudo e a imaginação, enquanto estivesse mergulhado nela, já lhe saciava um pouco os desejos.
Tridapalli abre a narrativa com este início questionador, que muitos de nós, muitas vezes, fazemos. Para as quais, de modo geral, não temos resposta:
Algumas perguntas não ficam menos interessantes ou menos verdadeiras só porque se tornaram clichés: até onde vão os limites de um homem? Eis uma pergunta cliché. Mas os limites são elásticos e, assim como tém um coeficiente de flexibilidade grande, assim como podem se expandir muito além de seu ponto de repouso, também - e isso é uma pergunta - podem encolher, atrofiar e formar uma crosta inerte dentro da qual a expansão vai ter sempre um sinal de menos antes? A superfície, a membrana que limita - muito flexível, importante repetir -, pode ficar ressequida, como borracha velha. Desidério chegara ao seu limite? Eu, Desidério, ele também se perguntava, cheguei ao meu limite?

Essa pergunta que é um trunfo nas mãos de um bom romancista é aqui, no livro de Tridapalli, um recurso precioso que irá se desenrolar ao longo do romance. César soube explorar o recurso com grande maestria e assim conseguiu um efeito literário que poucos escritores com seguem.
Ao encerrar a narrativa, Cezar Tridapalli escreve: Minutos antes de adormecer e sonhar com a estátua de mármore e com o escritor do outro lado da vidraça, Desidério agarrara firme o bilhete em que pedia ao tio para procu¬rar Adele e levar a ela o caderno. Ela entenderia o significado daquilo tudo, ele tinha certeza disso, de que bastaria a ela digi¬tar seu romance, aproveitar para dar uma ou outra revisada nos aspectos formais da língua portuguesa, e quem sabe até - sem a presença censora do autor - promover uma ou outra mudança, mas nada essencial. Por tudo isso, estava sereno e as contrações do rosto não eram espelho fiel de seu espírito. Dormiria um pouco aflito, é verdade, mas sabedor de que a sorte estava lan-çada, bastando fazer Pauline e Gregório encontrarem seu pas¬sado perdido no outro caderno para, já à revelia de seu criador, viverem sua vida feliz. Por isso Desidério morreu sem dor. Por isso e também por ter tido uma boa noite de sono antes da via¬gem final. O sonho não o impediu de ter um sono reparador, que o fizesse descansar para morrer.
Foi melhor assim, que Desidério morresse pensando que bastariam corrigir pequenos detalhes para seu livro ficar pronto. Passara despercebido por ele, no entanto, um grande problema narrativo: na primeira parte, na descrição das angústias de Pauline, Desidério, fascinado pelo modo escorreito de Adele, resolvera experimentar vestir a pele da primeira pessoa, cuja narração era feita por Pauline. Já a pressa e a ansiedade para terminar a obra fizeram com que ele ignorasse o fato e escrevesse toda a última parte em terceira pessoa, assumindo o controle da vida do novo casal, que até agora estava lá, com os lábios unidos e já possíveis câimbras na boca. Ignorar muitas vezes diminui o sofrimento. Do eu ao eles, de mim ao outro em apenas uma mudança de caderno.
Vestir muitas peles e ser quem?
Não se pode dizer se Adele foi ou seria habilidosa na junção das partes. Uma metade ficou lá no apartamento de Santiago; Adele, por um respeito piedoso, não conseguia jogá-la fora, quem sabe até roubaria alguns trechos se acaso resolvesse mesmo escrever. A segunda metade ficou lá no criado-mudo de Macária, também inerte, em cima das agendas do condomínio e do registro de atas. Quem sabe o tio não resolvia devolver tudo e, por acidente, as duas partes se encontravam? Talvez fossem para o lixo e tivessem a sorte de ser encontradas em algum latão ou aterro comum - já se sabe que nos lixos se encontram grandes preciosidades - por um diletante catador de comida que, a exemplo de Desidério, nutrisse amor por livros. Os escritos precisavam deixar suas gavetas, precisavam ser lançados ao mar. Só assim poderiam, como duas taças que brindam ou duas garrafas de vinho que por acidente se tocam e fazem tim-tim, unir suas partes e consagrar a união necessária.
Assim se arrastam os desejos humanos, às vezes céleres, sorridentes e fagueiros como crianças no campo ou propagandas de margarina, às vezes entrevados, cujos movimentos únicos parecem ser fasciculações involuntárias. De uma forma ou de outra, compreendidos todos os matizes possíveis nesse entremeio, estão sempre morrendo sem se terem satisfeitos.
Dois dias de velório são demais, há perigos constrangedores. Também apenas algumas horas seguidas de um enterro súbito podem dar o que falar por entre a vizinhança futriqueira. Assim, Cevício fez todos zelarem pelos prazos de um velório respeitoso, tempo suficiente para as orações subirem aos céus antes de Desidério e prepararem o caminho da alma, adulando os santos e dizendo que quem vinha lá debaixo fora sempre um bom homem, merecedor de todos os créditos celestes, incapaz de fazer mal à mais minúscula das criaturas divinas.
O tempo passará, o hall de entrada do edifício ganhará mais luz e a guarita será toda reformada, aumentando um pouco o espaço interno. Os porteiros velhos agradecerão ao novo, que chegou reivindicando melhorias com uma retórica de dar inveja a qualquer bom falastrão.
Quinze pessoas compuseram o cortejo. Ainda durante as últimas colheradas de cimento, todos já começaram a se afastar, esboçando a volta para a vida. Desidério foi quem ficou para trás, estendido em cima do jazigo do pai. Lá, os dois terão a eternidade para resguardar a imobilidade de seus corpos e o silêncio de suas palavras.

As marcas de uma literatura contemporânea, como apontou o crítico, percorrem a obra toda. Pelos fragmentos já se pode notar uma tendência pela autoficção, ou, então, por uma metaliteratura, tudo no caminho do Pós-Modernismo, o que fortalece e enriquece a obra de Cezar Tridapalli.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

GALERIA DOS NOVOS ESCRITORES - Maria Célia Martirani

Maria Célia Martirani Bernardi Fantin nasceu em São Paulo, em 1959. Foi aí, quando estudante do Colégio Dante Alighieri, que começou a interessar-se pela língua italiana. Formou-se em Direito pela USP. Em seguida, mudou-se para Santa Catarina, onde permaneceu sete anos. Foi um tempo e um espaço que lhe conferiram muitas vivências que hoje apresenta em seus textos.
A autora atualmente reside em Curitiba, onde, além do exercício do magistério, inclusive na Universidade Federal do Paraná, leciona a língua e a literatura italianas. Ao lado dessas atividades profissionais, Maria Célia nunca deixa de lado o ofício de escrever. É já uma escritora consagrada nos meios literários da capital paranaense. Tem dois livros publicados: Recontando, de 1993, e Para que as árvores não tombem de pé-Affinché gli alberi non cadano in piedi, publicado, portanto,em edição bilíngue, português e italiano, em 2008.
Maria Célia Martirani publicou ainda na Revista de Literatura e arte etcetera, número 9, da Travessa dos Editores (2006), a “Entrevista com Alessandro Baricco: à procura do velho narrador que habita em cada um de nós”. Colabora com a Revista Ideias. Para esta escreve contos e resenhas sobre arte, literatura e cinema.
Maria Célia Martirani, seu nome literário, é uma surpreendente escritora da atualidade. As suas obras nos surpreendem principalmente pela inovação e pelo inesperado de sua narrativa, sempre densa, poética e atual.
Seus textos são de difícil classificação quanto ao gênero. São contos, crônicas, prosa poética, tudo numa profusão que deixam sempre no leitor uma sensação de novidade, de inovação. Marcelo Franz fala, acertadamente, em “fina arte de narrar poemas e poetizar narrativas”. Esse talvez seja o ponto fulcral da obra de Maria Célia, como forma de se classificar seus textos: narrativas poéticas e poemas narrativos. Os textos são poéticos, líricos, mas podem também ser trágicos. Às vezes, as narrativas nos apresentam uma certa ingenuidade, mas, logo, em contraste, surgem outras percorridas por um fino e permanente erotismo.
Pode-se encontrar na obra de Maria Célia textos extremamente líricos, como são alguns poemas em prosa de sua autoria: No orquidário; ou poemas que se voltam à virtude infantil, como Arapuca de soltar passarinho; ou, então, este doce poema de amor: Romance. Há tantos outros, mas esses indicados ficam como exemplos.
Alguns textos narrativos, crônicas poéticas, lembram o estilo de Cecília Meireles, pela suavidade do tema e pelo lirismo, como este A uma borboleta; outros apresentam estrutura de conto ou próxima a essa forma literária, como este, uma espécie de conto inconcluso: Paulo – estação – liberdade; ou, mesmo, um conto trágico, como: Um dia, ele voltará. Outros textos são como células de possíveis romances: Pro-vocação. Há, ainda, textos a nos mostrarem a consciência de problemas sociais, como o último conto daquele conjunto de três, em que entram o filho, o pai e a mãe: Vem comigo, mãe!, ou este outro com características do Existencialismo: Natal; e para concluir esta exemplificação, um conto que encerra em si um forte caráter existencialista à Vergílio Ferreira: O acorde final.
Ao colocar por último o conto que dá título à obra, Para que as árvores não tombem de pé..., a autora cria uma espécie do que os Formalistas Russos convencionaram denominar estranhamento, o que confere a um texto o grau de literariedade. Para nós, simples leitores, o texto de Maria Célia Martirani nos leva a considerar como uma atitude literária inovadora. Rompe com o comum, com o normal. Note-se ainda que esse texto Para que as árvores não tombem de pé constitui um hino às árvores, em especial ao pinheiro. Nas palavras entrecortadas pelas pausas marcadas pelas vírgulas, a autora parece demonstrar o sentimento de perda daquela que é a árvore-símbolo. Desse conto, aqui se reproduzem, em homenagem à autora, as suas próprias palavras: “Quando, triste e belo, do alto, começou a cair, tombou inteiro, sério, despencando, com a mesma pose das madeiras que tombam de pé... Ao lado, compadecidos diante da brusca morte, curvam-se, frágeis e simples, os solidários bambus...”.
Uma obra poliforme, multívoca, como é a de Maria Célia não se resume a simples exemplos. Mesmo que é um risco o leitor apontar textos, talvez tirando o prazer da descoberta de outros leitores. Eu, antes de tudo, quis fazer uma leitura atenta de um livro que me tocou fundo pela beleza literária do texto.
Para exemplificar a narrativa curta de Maria Célia Martirani, selecionei por critério estritamente pessoal, dois textos: Dessacralização e A uma borboleta. Embora pequenos fragmentos, espero que dêem uma idéia do que seja o texto de Para que as árvores não tombem de pé.
1.dessacralizaçãoDespreocupados e livres, caminhavam, matutinos, as calçadas de qualquer domingo. Uma alegria bêbada, não de quem bebeu muito, mas se embriagou demais com a simples presença de um na vida do outro. Que não era simples, mas era o bastante, eles que só assim se bastavam, puros de ar, água e sol... Falavam e riam, em risos falados mansos, fadados que estavam apenas àquela miúda felicidade... Os passos dele largos, os dela curtos, ela que tentava a todo custo o acompanhar... Daí, a igreja... Entraram pela lateral... Entraram só por entrar... Não, não que quisessem assistir missa, melhor a igreja assim vazia, só os dois, só um pouquinho, só agradecer... Que será que agradeciam? A mão dele envolvendo toda a frágil mãozinha dela, ela que de tão pequena, quase nem batia na altura do ombro dele... Ele, que de tão alto, baixava generoso olhar pra encontrar o dela... Ajoelharam e apenas se deixaram ver por alguma imagem, algum santo, algum anjo voando solto no redondo da alta cúpula-vitral de luz. E foi com essa espécie de sabe-se lá que luz, que de lá logo saíram agora enlaçados, nos novos laços de fita de alguma esperança...
(De Para que as árvores não tombem de pé, p. 169)

2.a uma borboleta
Empresta-me tua frágil asa frágil, eu quero ter forças para voar. Quero apreender só levezas... Não suporto mais o centro dessa gravidade toda de cenho franzido. Não posso com o peso dos pés, nesses trilhos imantados de ferro.
Ensina-me a polinizar o azul, tocando as hastes-pati¬nhas na volúpia do infinito. Faz-me mamar gotículas bran¬cas, na flor de um copo de leite... Eu preciso chover arcos de cores na íris do céu, conferir, à densidade verde, um farfalhar de pétalas ágeis. Pois a monotonia imóvel dos sérios silêncios da floresta, só perde o medo mistério, quando tuas asas aquareladas pousam na barriga das folhas e as fazem rir alegres cócegas. E o universo saltita numa efusão jocosa, dá gargalhadas de luz, apenas porque o tocaste no abre-fecha ligeiro do leque sedoso de tua se¬dução.
(De Para que as árvores não tombem em pé, p.237.)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

CASTRO, MINHA TERRA.

Todos nós que saímos da nossa terra natal, sempre temos o desejo de a ela um dia retornar, nem mesmo que seja na lembrança. É o mito do eterno retorno.
Eu, como muitos, sinto uma saudade muito grande da minha cidade. Trago de lá boas lembranças. São recordações de uma adolescência pobre de recursos materiais, mas rico de experiência, de vivência, de amizades, enfim, de tudo um pouco. Até mesmo das águas do Iapó, que eu transpunha várias vezes ao dia, a caminho do trabalho ou da escola.
Estudei, por último no Colégio Diocesano de Santa Cruz. De lá, não esqueço professores, como Bernardo Letzinger, João Baptista Cobbe, Nicolau Hampf, Lourival Leite de Carvalho e muitos outros.
Lembro também, e muito, dos colegas: Luiz Eduardo dos Santos, Georberto Flores, Jorge Alcy Jabczynski, e também das meninas. No começo eram várias: Josema Fiorrilo, Nanci Pereira, Neide Menarim, Perli Lopes, Salua Fadel. Mais tarde, o grupo se resumiu em apenas três. Com elas fomos até o final do curso Científico. Bons tempos aqueles dos anos de 1950. Tempos de sonhos, de voos da juventude, de esperanças, de projetos, que, alguns se realizaram, outros ficaram pelo caminho.
Sempre que para lá retorno, fico ao lado do velho prédio do antigo Cine Marajá. Que saudade das sessões de domingo, às 19 horas. Era lá que se viam muitas das meninas bonitas da cidade, como era também às margens do Iapó, nas areias, que, por isso, o local se chamava Areião.
Fica aqui a demonstração do meu amor por minha terra e da saudade que dela sinto. Saudade de um tempo, que, sem saber, eu fui feliz...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

CAIM, DE JOSÉ SARAMAGO

1. CAIM NA BÍBLIA
Caim, o primogênito de Adão e Eva, ao matar seu irmão Abel, torna-se o primeiro homicida da história da humanidade. Por esse crime, quando Deus ainda aparecia e conversava diretamente com as suas criaturas, apareceu ao assassino e cobrou dele contas do irmão. Caim, sem poder dar-lhe uma justa explicação, pois o seu crime fora meramente por ciúme de seu irmão - este recebera mais atenção do Senhor pelas oferendas que devotara ao Criador, quando as ofertas dele, Caim, foram pouco apreciadas. Então, o Senhor, dirigindo-se a Caim, amaldiçoou-o, dizendo: “Agora, pois, serás maldito sobre a terra, que abriu a sua boca e recebeu da tua mão o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, ela não te dará os seus frutos; serás vagabundo e fugitivo sobre a terra”. (Gên., IV, 10-13). Em cumprimento de sua maldição, “Caim tendo-se retirado de diante da face do Senhor, andou errante sobre a terra”. (Gên., IV, 16).
Desde então, com base em Caim e Abel, tem-se atribuído às ocupações de ambos alguns significados: Caim inicialmente dedicou-se à agricultura, profissão menos valorizada pelo Senhor; Abel, ao contrário, era pastor, o que o fez sobressair aos olhos do Senhor. Com a maldição de ter que vagar pelo mundo, Caim abandonou o cultivo, ocupação que exigia a fixação a determinado lugar, e tornou-se assim o primeiro andarilho sobre a face da terra, o primeiro “turista”.
2. CAIM NA FICÇÃO
Caim, alimentado pelo ciúme e atormentado pela maldição, tem sido um dos grandes temas da literatura. Personalidade complexa, como fratricida ou como símbolo do eterno viajante, Caim sai do texto bíblico para figurar em páginas de inúmeras obras literárias.
Recentemente, José Saramago lançou mais uma de suas polêmicas obras, exatamente com o título Caim. Como já fizera em O Evangelho segundo Jesus Cristo, o prêmio Nobel de Literatura volta-se agora para o Velho Testamento, lá para o Gênesis, início de tudo. Recontando o texto bíblico à sua maneira, Saramago vai temperando a sua narrativa com fatos relevantes da Bíblia enxertados com passagens fictícias, para conferir-lhe aquela ironia e o gosto por romper velhas tradições, quer das estruturas sociais, quer das religiosas.
Saramago visivelmente faz de Caim a personagem preferida, não só pelo título com que nomeia a obra, mas pelo desenrolar da narrativa. Para ele Abel chega a merecer a morte. Vejam-se os textos abaixo:
1.
E houve o dia em que adão pôde comprar um pedaço de terra, chamar-lhe sua e levantar, encostada a uma colina, uma casa de toscos adobes, aí onde já poderiam nascer os seus três filhos, caim, abel e set, todos eles, no momento próprio das suas vidas, gatinhando entre a cozinha e o salão. E também entre a cozinha e o campo, porque os dois mais velhos, quando já cresciditos, com a ingénua astúcia da sua pouca idade, usavam de todos os pretextos válidos e menos válidos para que o pai os levasse consigo, montados no burro da família, para o seu local de trabalho.
Cedo se viu que as vocações dos dois pequenos não coincidiam. Enquanto Abel preferia a companhia das ovelhas e dos cordeiros, as alegrias de Caim iam todas para as enxadas, as forquilhas e as gadanhas, um, fadado para abrir caminho na pecuária, outro, para singrar na agricultura. Há que reconhecer que a distribuição da mão-de-obra doméstica era absolutamente satisfatória, uma vez que cobria por inteiro os dois mais importantes sectores da economia da época.
2.

Desde a mais tenra infância Caim e Abel haviam sido os melhores amigos, a um ponto tal que nem irmãos pareciam, aonde ia um, o outro ia também, e tudo faziam de comum acordo. O senhor os quis, o senhor os juntou, assim diziam na aldeia as mães ciumentas, e parecia certo. Até que um dia o futuro entendeu que já era hora de se apresentar. Abel tinha o seu gado, Caim o seu agro, e, como mandavam a tradição e a obrigação religiosa, ofereceram ao senhor as primícias do seu trabalho, queimando Abel a delicada carne de um cordeiro e Caim os produtos da terra, umas quantas espigas e sementes. Sucedeu então algo até hoje inexplicado. O fumo da carne oferecida por Abel subiu a direito até desaparecer no espaço infinito, sinal de que o senhor
aceitava o sacrifício e nele se comprazia, mas o fumo dos vegetais de Caim, cultivados com um amor pelo menos igual, não foi longe, dispersou-se logo ali, a pouca altura do solo, o que significava que o senhor o rejeitava sem qualquer contemplação. Inquieto, perplexo, Caim propôs a Abel que trocassem de lugar, podia ser que houvesse ali uma corrente de ar que fosse a causa do distúrbio, e assim fizeram, mas o resultado foi o mesmo. Estava claro, o senhor desdenhava Caim. Foi então que o verdadeiro carácter de Abel veio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se, perante o atónito e desconcertado Caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus. O infeliz Caim não teve outro remédio que engolir a afronta e voltar ao trabalho. A cena repetiu-se, invariável, durante uma semana, sempre um fumo que subia, sempre um fumo que podia tocar-se com a mão e logo se desfazia no ar. E sempre a falta de piedade de Abel, os dichotes de Abel, o desprezo de Abel.
3.

Um dia Caim pediu ao irmão que o acompanhasse a um vale próximo onde era voz corrente que se acoitava uma raposa e ali, com as suas próprias mãos, o matou a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado, portanto com aleivosa premeditacão. Foi nesse exacto momento, isto é, atrasada em relação aos acontecimentos, que a voz do senhor soou, e não só soou ela como apareceu ele. Tanto tempo sem dar notícias, e agora aqui estava, vestido como quando expulsou do jardim do éden os infelizes pais destes dois. Tem na cabeça a coroa tripla, a mão direita empunha o ceptro, um balandrau de rico tecido cobre-o da cabeça aos pés. Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e Caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

PROFESSOR JOÃO BAPTISTA COBBE – Depoimento de um aluno

João Baptista Cobbe em foto da formatura no curso de Direito da então Universidade do Paraná, nos anos 50.


1 Introdução

Inicialmente, digo que eu fui um dos felizardos meninos que passaram por suas aulas de Português e de Latim no Colégio Diocesano de Santa Cruz, em Castro - Paraná, nos famosos anos dourados de 1950.

Nos anos de 1940 e 1950, o Colégio Diocesano de Santa Cruz, em Castro, pertencente à Diocese de Ponta Grossa, era parâmetro de bom ensino e principalmente de boa educação em todo sudeste e sul do Brasil. Para ele, acorriam alunos de todo o interior e mesmo da capital de São Paulo, de Minas, do próprio Paraná, enfim de diferentes estados do Brasil. A maior parte desses alunos vinha como alunos internos, outros que tinham parentes, ou que se hospedavam em velhas pensões, ou em casas que alugavam quartos, permaneciam como externos.

Eu, vindo do interior do próprio município de Castro, de uma localidade chamada Cerrado do Guararema, permaneci como externo, inicialmente morando com uma família que havia morado no velho Cerrado e agora se encontrava com comércio estabelecido na cidade sede do município. Mais tarde, meus pais construíram uma pequena casa de madeira em uma vila da cidade, e passei a morar inicialmente com uma irmã e um primo, depois com meus próprios pais.

Foi assim que pude cursar o ginásio e o científico no famoso Colégio e ter o professor Cobbe como um dos principais educadores. Posso afirmar que ele era o preferido por toda a turma.

2 Professor João Baptista Cobbe

No início do mês de março de 1950, quando iniciaram as aulas no Colégio, aguardávamos no pátio, quando soou uma sirene. Formamos fila de acordo com a série. Nós, os novatos, éramos instruídos pelos inspetores, geralmente alunos internos que já cursavam o científico, e recebiam uma espécie de bolsa-escola, para colaborar com a disciplina do Colégio.

Quem veio ao topo da escadaria para receber a turma de calouros foi o Prof. Cobbe. Portanto, ele foi o meu primeiro professor do Ginásio e um dos principais pela minha vida toda. Foi com ele que aprendi a gostar ainda mais de Português e receber lições de Latim, que já me chamava a atenção quando na Igreja Matriz de Castro, lia num pórtico: Ego sum panis vitae. Havia outras inscrições, mas essa era a que mais me chamava a atenção.

Brincando pelo pátio do Colégio, fui aos poucos encontrando placas gravadas no cimento com inscrições, como Ad perpetuam rei memoriam e Ad majorem Dei gloriam. Depois, fiquei sabendo que era o Prof. Cobbe quem reproduzia aquelas frases . Ele estudara em Seminário do estado de Santa Catarina e lá aprendera a língua do Lácio e entrara em contato com tais frases.

As aulas continuavam, para mim, como um encantamento. Muitos dos colegas talvez não dessem o valor que eu dava, porque eu sabia o sacrifício que meus pais tão pobres faziam para me manter no curso ginasial. Por isso, muitos tentavam brincadeiras nas aulas, mas o Prof. Cobbe sem usar de nenhum método ríspido para evitar a indisciplina, conseguia de modo tranquilo dominar a turma e sempre prosseguir em suas aulas.

Terminamos o ginásio e já no curso científico não tivemos mais o Prof. Cobbe como nosso professor. Vieram outros competente e também amigos, como o seu colega Prof. Lourival Leite de Carvalho, que passou a dar para nós aulas de Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa. Completava-se, assim, a minha formação no que se poderia chamar um proto-curso de Letras.

Mais tarde, também me tornei professor e procurei fazer como fazia aquele que eu erigira como professor e mestre, sempre tranquilo, compreensivo, competente. Procurava seguir o seu exemplo. E fui cursar Letras, graduação, especialização, mestrado e doutorado, mas as raízes estavm firmes lá nas aulas do Prof. Cobbe.

2 Novos rumos profissionais de João Baptista Cobbe

O Prof. Cobbe foi para Curitiba terminar o seu curso de Direito, que já havia começado. Mais tarde, seria o grande advogado, o vereador da cidade de Castro e o exemplar Promotor de Justiça por várias comarcas do Paraná: Castro, Jaguariaíva, Piraí do Sul, Tibagi, Arapongas, Mallet, Cascavel e Curitiba.

Em consequência da sua atuação, várias homenagens foram-lhe prestadas por câmaras municipais das cidades por onde passara como Promotor ou em outra função pública. Em Cascavel, assumiu papel de destaque na sociedade da grande cidade que surgia na terra ainda poeirenta do oeste do estado. Foi o fundador e presidente do Automóvel Clube de Cascavel; sócio-fundador do Cascavel Country; presidente do Tuiuti Esporte Clube. Em Castro, sua terra natal, recebeu o título de Cidadão Benemérito.

Depois foi atuante administrador público. Foi superintendente do novo IPE – Instituto de Previdência e Assistência do Paraná, atualmente, hoje, embora em formato diferente, o Paraná-Previdência; diretor-presidente da Famepar - Fundação de Assistência aos Municípios do Paraná , assessor da vice-governança do Estado do Paraná – governo Jayme Canet Junior; assessor da Secretaria de Justiça – governo Ney Braga; secretário e desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná; diretor geral da Corregedoria da Justiça do Tribunal de Justiça Secretaria de Administração do Paraná, além de outros inúmeros cargos públicos de relevância funcional e política.

3 O reencontro com o Professor Cobbe

Inicialmente o reencontro se deu por telefone por intermédio de uma então minha aluna no curso de Letras na PUCPR. Acredito que tenh sido pelo início do ano de 1987. Em uma noite, recebi um telefonema. A pessoa identificou-se dizendo que ela e sua filha eram minhas alunas na PUCPR e que soube pelo marido, que ele me conhecera. Ela era esposa de João Baptista Cobbe. Naquela, noite, falei com ele rapidamente por telefone.

Logo depois, creio que ainda no mesmo ano de 1987, quando eu tratava do andamento de minha aposentadoria no magistério estadual, fui até a Secretaria de Administração, que então funcionava no Edifício projetado por Oscar Niemeyer, inicialmente para sede do Instituto de Educação do Paraná e que hoje foi integrado em um novo projeto que constitui o MON – Museu Oscar Niemeyer. Lá, fui recebido por João Baptista Cobbe, um dos assessores da Secretaria e que me atendeu com a solicitude própria de uma pessoa educada, interessada e competente.

4 Um reencontro atual com a memória de João Baptista Cobbe

Há poucos dias, em uma agência bancária, casualmente, encontrei-me com uma senhora que se apresentou e me lembrou que era Hilda Souza Cobbe, minha ex-aluna no curso de Letras, e agora viúva de João Baptista Cobbe. A notícia chocou-me. O velho professor, talvez o único que ainda vivia daqueles professores do Colégio Diocesano de Santa Cruz, de Castro, lá do início dos anos 50.

Comecei a indagar sobre o acontecimento e fiquei sabendo que já haviam se passado aproximadamente cinco meses da morte do nosso professor. Faleceu em 4 de abril deste ano de 2010. Estávamos a 10 de setembro. Viveu 85 anos férteis de trabalho, dedicação à profissão e aos cargos públicos que exerceu e principalmente à família. Deixa uma lacuna na vida dos amigos, uma perda inconsolável para famliares, uma saudade para todos nós que o conhecemos.

A vida, como sabemos, é assim. O poeta português Fernando Pessoa, na voz do heterônimo Ricardo Reis, avisa-nos:

Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia


Essa “Barca que não vem senão vazia” costuma levar da terra os bons. Virão outros, mas nenhum igual. Esses nunca serão como aqueles que partem e nos deixam todos órfãos de sua companhia.

5. Homenagem in memoriam

Em homenagem ao professor que me despertou para o Latim e para as línguas clássicas, esta homenagem. Que aqui fiquem gravadas algumas inscrições latinas de que tanto ele gostava:

- Que a sua vida tenha servido Ad maiorem Dei Gloriam.
- Como disse Cristo em suas últimas palavras na cruz: Consummatum est!
- Agora, que sua vida findou, que seu corpo Requiescat in pace.
- Em oração, peço ao bondoso Pai: Requiem aeternam dona eis, Domine.

Concluindo este depoimento, deixo, como minhas últimas palavras, o seguinte: graduei-me em Letras Clássicas – Bacharelato, em 1959 e Licenciatura, em 1960 e fiz Especialização em Literatura Brasileira em 1965, esses cursos na Universidade Federal do Paraná. Mais tarde, em 1979, completei o Mestrado em Teoria Literária na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Finalmente, doutorei-me em Letras, em 1983, na USP – Universidade de São Paulo, com estágio em Portugal, junto à Biblioteca Nacional de Lisboa.
Tudo isto para declarar que, com todos esses cursos, a origem, os fundamentos mais profundos do meu conhecimento da Língua Portuguesa e das Letras e também o amor ao estudo se encontram lá nos anos de 1950, no Colégio Diocesano de Santa Cruz, de Castro, nas aulas do Prof. Cobbe.



°°°

Alguns dados biográficos:
- João Batista Cobbe nasceu em Castro, em 24 de janeiro de 1925, filho de Marcemino Cobbe e Maria Rosa Nogaroli Cobbe. Cursou o primário no Colégio José e no Colégio Santa Cruz, ambos da cidade de Castro. Fez o curso ginasial no Seminário Arquidiocesano, em Brusque, Santa Catarina. O Seminário Arquidiocesano de Brusque é também conhecido por Seminário Nossa Senhora de Lourdes Azambuja-Brusque. Pertencia à Arquidiocese de Florianópolis.
João Baptista Cobbe frequentou o Seminário nos anos 40, quando era reitor o Pe. Afonso Nieheus. Depois, vieram outros, como o então padre Jaime de Barros Câmara, que mais tarde se tornaria o célebre Arcebispo do Rio de Janeiro, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
- João Baptista Coaabbe prestou o sercviço militar em Castro. Mais tarde, cursou Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
- Profissionalmente, devido à sua origem modesta, exerceu diversas atividades profissionais, desde trabalhador em obras, sacristão da Matriz de Castro, secretário do Colégio Diocesano de Santa Cruz. No magistério, foi professor de latim, português e história, no Ginásio. No jornalismo, foi colaborador do importante jornal da época na região, o Castro-Jornal.
- Bacharel em Direito, exerceu a profissão como advogado e foi aprovado em concurso público no Ministério Público. Em 1956, assumiu como Promotor de Justiça, cargo que exerceu em Castro, Jaguariaíva, Piraí do Sul, Tibagi, Arapongas, Mallet, Cascavel e Curitiba.
- Em Cascavel, de 1961 a 1973, exerceu o cargo de Promotor de Justiç e foi também professor de Direito Usual e Legislação Aplicada no Colégio Marista de Cascavel. Na sociedade da jovem cidade que brotava pujante no oeste do Paraná, exerceu diversos cargos de relevância social e cultural e esportiva.
- Em cargos públicos administrativos, já em Curitiba, atuou em vários órgãos, como governança do estado, secretarias, institutos e fundações estaduais e também no judiciário paranaense.

Faleceu em paz ao lado de seus familiares, no dia 4 de abril de 2010.

sábado, 11 de setembro de 2010

MEU CARO CHICO Texto de Paulo Camargo

Ilustração: Felipe Lima
Meu caro Chico
“As dezenas, senão centenas de músicas que conheço de cor e salteado, têm o superpoder de me devolver a mim. E isso não tem preço.”

Publicado em 11/09/2010 pcamargo@gazetadopovo.com.br

A idolatria costuma estar associada à adolescência. Adultos, quando nutrem uma paixão tão intensa por alguém fora de seu alcance, correm o risco de parecer pueris, em descompasso com a idade que têm.
Mesmo assim, não são poucos os que carregam essa pulsão dos verdes anos à maturidade. Talvez porque seja uma forma de nos reconectarmos com instâncias menos cínicas. E assim, resgatar um pouco daquilo que um dia fomos e, de certa forma, mantemos engavetado em nome da dita maturidade.
Com o lançamento, pela editora Abril, de uma caprichada coleção que inclui quase toda a discografia oficial de Chico Buarque, em formato de CDs acompanhados de livretos, vi-me frente a um dilema dos mais prosaicos: comprar ou não discos que, em sua grande maioria, já tenho, à medida que chegam todas as semanas às bancas e livrarias. Existe o desejo, confesso, mas também o pé no freio, a cabeça que diz: “Não, bobagem”.
Esse conflito, aparentemente tolo, me fez pensar sobre por que gosto tanto do Chico. E, depois de enumerar vários motivos, todos muito racionais – como a qualidade e a importância histórica das composições e a riqueza poética das letras –, caiu a ficha.
As dezenas, senão centenas de músicas que conheço de cor e salteado, têm o superpoder de me devolver a mim. E isso não tem preço.
Quando ouço, por exemplo, pérolas como “O Que Será (À Flor da Terra)”, “Passaredo” ou “A Noiva da Cidade”, me vejo aos 11, 12 anos, contando os cruzeiros para comprar Meus Caros Amigos na filial da rede Rei do Disco em um velho shopping de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Não tinha ideia, pelo menos não à primeira audição em uma radiola Grundig, que a letra de “Meu Caro Amigo”, composta em parceria com Francis Hime, falava do Brasil sob a bota do governo militar.
Foram necessárias algumas aulas de Português e História com professores veladamente “subversivos” para compreender o que queriam expressar versos como “Meu caro amigo me perdoe, por favor/ Se eu não lhe faço uma visita/ Mas como agora apareceu um portador/ Mando notícias nessa fita/ Aqui na terra tão jogando futebol/ Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll/ Uns dias chove, noutros dias bate sol/ Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”.
Lembro-me do momento da revelação, o instante em que percebi que, por trás do delicioso samba de Chico e Francis, escondia-se amarga ironia. A letra era uma mensagem melancólica a amigos que (como o próprio Chico) tiveram de tirar o time de campo e deixar do país por estarem na mira da ditadura.
A idolatria, que aqui assumo sem pudores de jornalista cultural, está muito ligada à sensação, desengavetada nos últimos dias, de que ouvir Chico Buarque sempre foi, e ainda é, uma experiência estética. Algo que fratura minha rotina, de horários, obrigações, deveres e responsabilidades, e me recoloca em contato com territórios mais sensíveis.
Muitas de suas canções me provaram ao longo dos últimos 30 anos, por mais que o cotidiano por vezes me force a esquecer, que sou capaz de pensar e sentir ao mesmo tempo. São pedaços de mim.
E lá vou eu comprar a coleção da Abril.


(Paulo Camargo é editor do Caderno G. do jornal Gazeta do Povo.)
(CAMARGO, Paulo. Meu Caro Chico. Gazeta do Povo, Caderno G Idéias, 11.set.2010, p.5.)
.
Faço meu o texto de Paulo Camargo.
Acabo de resolver também o meu dilema. Vou correr a um shopping comprar a nova coleção.
.
Jayme Ferreira Bueno

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A POESIA DE JOSÉ SARAMAGO

José Saramago - (1922 - 2010), escritor português, prêmio Nobel de Literatura de 1988 tornou-se conhecidíssimo por sua obra em prosa, principalmente por seus romances. Pouco se fala dele, porém, como poeta e pensador. Valoriza-se bastante também na sua biografia a ação política que desenvolveu, sempre muito polêmica e utópica, principalmente por ter abraçado o Comunismo num país bastante tradicionalista e extremamente católico.
Aqui apenas daremos uma apagada ideia do pensador e do poeta Saramago.
1. Pensamentos de Saramago
Como em tudo que fazia, José Saramago se mostra em suas frases e pensamentos o crítico agudo, o homem de extrema lucidez, uma espécie de iluminado da palavra. Como autêntico vate, antecipa, como que vaticina, acontecimentos, como fez com a sua própria morte.
A seleção dos três pensamentos seguintes baseou-se no gosto pelos temas líricos, talvez até bastante platônico. Aliás, platônico se mostra José Saramago em seus pensamentos e em muitos de seus poemas.
1.Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.
2.Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos?
3.O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio.

Alguém poderá obstar: são pensamentos comuns, qualquer um poderia ter pronunciado frases como essas. É verdade, mas quem disse foi José Saramago. Ele, que, muito conscientemente, também disse:
strong>Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma maneira bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratularmo-nos ou para pedir perdão, aliás, há quem diga que é isto a imortalidade de que tanto se fala.
2. A poesia de Saramago
O crítico que, ao avaliar a poesia de Saramago, afirmou que no gênero ele não estaria atualizado, pois, entre 1966 e 1975, já se escrevia em Portugal uma outra poesia, ou não percebeu, ou não valorizou que exatamente esse andar sozinho é que o tornava diferente, grande, original. O crítico justifica: : “Em comparação com o que um Ernesto de Melo e Castro, um Helberto Hélder, um Cesariny, ou mesmo os jovens saídos da “poesia 61” então publicavam ou teriam publicado nos últimos tempos, não se poderia afirmar que a produção poética de Saramago estivesse propriamente muito atualizada”.
(LOPES, João Marques. Saramago: biografia. São Paulo: Leya, 2010, p. 53).
Pode-se, em contrapartida, indagar, mesmo sem querer tirar ou diminuir a importância desses poetas e desse jovem movimento, se a poesia que produziram foi a melhor que então se fez em Portugal?.
Saramago, em alguns depoimentos se confessa admirador de José Régio e, talvez, por ele influenciado. Lembramos que Régio escreveu no poema Cântico Negro do livro Poemas de Deus e do Diabo (1925):
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Saramago jamais foi ou se mostrou um seguidor. Pelo contrário, foi sempre um autêntico inventor de mitos. Intuitivamente, seguia o que disseram os latinos: “Non ducor, duco”. De fato, Saramago não nasceu para ser conduzido, mas para conduzir. A obra poética que publicou compreende três livros:
1.Os poemas possíveis, 1966;
2.Provavelmente alegria, 1970;
3.O ano de 1993, 1975.
Há também um volume bilingue (português e italiano) de seus poemas.
Poemas:
A seleção dos nove poemas que seguem também se baseou no gosto pessoal. Procurou-se encontrar três poemas metapoéticos; outros três, mais voltados ao existencial; e finalmente três, de ordem lírica:

I série – temática: a poesia ou o poeta
1. Retrato do poeta quando jovem
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
2. Forja.
Forja o poema, e ruivo ardente
O metal duro da rima fragorosa,
Quero o corpo suado, incandescente,
Na bigorna sonora e corajosa,
E que a obra saída desta forja
Seja simples e fresca como a rosa
3. Eloquencia
Um verso que não diga por palavras,
Ou se palavras tem, que nada exprimam:
Uma linha no ar, um gesto breve
Que, num silêncio fundo, me resuma
A vontade que quer, a mão que escreve.

II série – Temática: existencial
1. Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
2. Não me Peçam Razões...
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
3. No Coração, Talvez
No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.

III – Temática: lírico-amorosa
1. Aprendamos, Amor
Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
2. Intimidade
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
De violetas se cobre…
De violetas se cobre o chão que pisas,
De aromas de nardo o ar assombra:
Nestas recurvas áleas, indecisas,
Olho o céu onde passa a tua sombra.
3. Declaração
Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto seta o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadencia do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A MORTE DE SARAMAGO


José Saramago feliz ao lado de sua esposa, também feliz, Pilar del Río


Pois é, amigos! Morreu Saramago.

Leiamos estas duas notícias:
1. “A Fundação José Saramago emitiu esta sexta-feira um comunicado em que informa que o Nobel português faleceu às 12:30 na sua residência de Lanzarote, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença.
O comunicado adianta ainda que o escritor morreu ‘acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila’
”.

2. “O escritor Mário Cláudio afirmou esta sexta-feira que José Saramago é ‘uma figura indiscutivelmente maior das nossas letras’, considerando ‘triste e inesperada’ a sua morte.
O escritor portuense afirmou à Lusa que conhecia ‘muito bem’ José Saramago de ‘encontros internacionais’, considerando tratar-se de uma figura ‘que vai ficar por muitos e muitos anos’.‘Saramago vai durar o que durar a literatura portuguesa’, sustentou Mário Cláudio
”.

Na sexta-feira, 18 de junho, no seu refúgio da Ilha de Lanzarote, nas Canárias, morreu José Saramago. Depois de 84 anos profícuos para a literatura, para o pensamento, para a vida, nos deixa o único Prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa.
A vida sempre foi, para Saramago, simplesmente um oposto da morte. Declarou em entrevista a um canal de TV brasileira: “A diferença entre a vida e a morte é que antes tu estás e depois tu já não estás.”
É impressionante a lucidez com que via a chegada da morte. Na referida entrevista, que é de 2007, disse ao entrevistador algo assim: “o futuro? Estou com 84 anos, quantos anos a mais terei de vida? Três, quatro...”. Faleceu três anos depois.
Em toda a sua obra, mas especialmente em As Intermitências da Morte, de 2005, ele nos dá lições sobre a morte, a morte dele, a morte de todos nós. As lições são também, e principalmente, sobre a vida.
Na obra, refere-se a um dia particularmente diferente: “No dia seguinte ninguém morreu”. Iniciam-se, então, várias divagações sobre a vida, sobre a morte e sobre outras realidades, como o amor, que nos movem e nos atormentam. Não deixa, porém, de falar sobre a falta dessas realidades, como aconteceu com a ausência, embora temporária da morte, pois, certo dia, lá pelo sétimo capítulo do livro, ela avisa que estava de volta. E a volta da morte, agora sobre novas condições, é assustadora: “a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notório...”.
Em seguida, ela se justifica: “ofereci uma pequena amostra do que para eles seria viver para sempre...”.
Avisa, para que todos estejamos atentos, porque: “a partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana para pôr em dia o que ainda lhe resta na vida”.
Esses sete dias, uma espécie de carência necessária para se colocar em dia alguns compromissos, tomarem-se algumas decisões, seriam avisados por uma carta oficialmente remetida pela Morte. Nela, de modo cortante, anucia a fatal “rescisão deste contrato temporário a que chamamos vida”.
Imagine-se, portanto, as reações daqueles que são avisados e daqueles que ainda aguardam a fatídica comunicação...

Vejam-se trechos de As Intermitências da Morte:
I. “De Deus e da morte não se tem contado senão histórias, e esta é mais uma delas.”, p. 146

II. “Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto.”, p. 158/159

III. “Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.”, p. 214

Para Saramago, mesmo uma declaração de amor, e eram muitas, à sua companheira, admiradora ímpar do homem e do escritor, tradutora, amada, Pilar del Río, haveria de ter uma referência à morte, não por morbidez, mas para ressaltar a grandeza do seu sentimento:
“Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho. Aos 63 anos, a minha segunda vida começou. Não posso queixar-me. As coisas que você considera importantes não são tão importantes. Eu ganhei um Prémio Nobel. E daí?”

E para terminar este post, um poema de Saramago, do livro Provavelmente Alegria. 3.ed. Lisboa: Caminho, 1985. Nele, ressoa a voz do heterônimo epicurista de Pessoa, do mesmo modo como ressoava nas Odes de Ricardo Reis:

Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, /
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece /
e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.